Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 74 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 75

 

 

A moça bonita franze o rosto, olhando para o celular. O belo homem

sentado à frente dela no moderno restaurante japonês na Lincoln Square

pergunta:

— Está tudo bem?

Ela assente, ainda olhando para a palma da mão, mas sem mudar de

semblante. Guarda o telefone no bolso.

— Desculpe. Sei que é grosseiro — comenta ela, ainda sem olhar

para ele.

No entanto, ela já disse a mesma coisa antes e continuou checando o

celular. Quando faz isso, ele não sabe para onde olhar. Às vezes, para o

decote dela; às vezes, para a fonte luxuosa do restaurante. Ele sabia que

ela tinha gostos luxuosos: parecia ter gostos luxuosos quando ele a viu

descer a Clark Street com uma sacola repleta de caixas de sapatos e

sapatilhas amarelo-mostarda. Ainda assim, ele pegou uma folha da

caderneta, desenhou uma flor, deixou o número de telefone e colocou

embaixo do limpador de para-brisa porque ela também parecia esperta.

Garotas que não são tão espertas podem ser divertidas, mas não

surpreendem. Aquela devia ser a garota mais surpreendente que ele já

levou ao Fugu Sushi.

Ele levou dezessete garotas ao Fugu Sushi.

Ele agendou com antecedência para conseguir uma cadeira perto da

janela. Acredita que todo mundo sai ganhando porque ele consegue uma

boa vista, o restaurante parece moderno (porque parece moderno) e o

garçom sempre leva 25%. Vinte e cinco por cento deixam um garçom

feliz, 25% fazem com que o cliente seja lembrado. Os garçons se

lembram dele.

Mas não como ele imagina.

Eles o apelidaram de garanhão, algo como “Eu estou ferrado esta

noite, você pegou o garanhão”.

Sempre uma mesa para dois.

Sempre perto da janela.

As gracinhas dos funcionários começaram quando, na acompanhante

número oito, ele deixou seu site e seu e-mail para a garçonete, assim

como o rascunho do desenho de um polvo (ele havia comido polvo

naquela noite), preparado com antecedência. Conseguiu fazer isso

enquanto ajudava a acompanhante da noite a vestir o casaco, com a

habilidade de um trapaceiro.

A garçonete mostrou o desenho do polvo para todo mundo, e agora

uma onda de dedos, parecida com um polvo, significa garanhão. Além

disso, apontar para si mesmo e mexer o dedo, com um biquinho de

repulsa, quer dizer “Eu sirvo o garanhão”. O barman também entrou na

brincadeira. O movimento de dedo seguido por um gesto de levar a

xícara aos lábios significa: “O que o garanhão e a jovem querem

beber?”.

A número dezessete, que parece bem exótica e bebe saquê Bride of

the Fox, já teria entendido o lance do garanhão se não estivesse ocupada

demais com problemas de informática para analisar o cara antes do

encontro. Já naquela noite, está distraída demais com o telefone para

prestar atenção aos monólogos encantadoramente autodepreciativos e

tentar manter uma postura de sinceridade ou espontaneidade.

— Se você estiver com problema e precisar sair antes da hora, eu vou

entender — diz ele.

Sabe que é isso que precisa dizer, mas não quer que ela saia antes da

hora — quer levá-la de volta para casa, colocar Portishead para tocar e

subir um dedo por baixo da saia de camurça laranja, para provar sua

teoria de que mulheres de ossos pequenos são mais apertadas e de que

mulheres de lábios mais carnudos são mais molhadas.

O celular dela está no bolso há menos de um minuto quando toca de

novo.

Ela decide contar o problema.

— Alguém está me enviando mensagens de texto esquisitas.

— Por que você não desliga?

— Boa ideia — diz ela, que pensa em desligar, mas não desliga. —

Mas estou confusa.

— Por quê?

Ela o encara: ele só serve para pequenas confidências.

— O que você está vendo? — pergunta ela, mostrando o celular.

— Um cavalo.

— Sim, um cavalo.

Ela rola a tela para baixo.

— Mais cavalos — comenta ele. — Você é amazona?

Ela responde negativamente com a cabeça.

Ele os vê.

É alguma coisa.

Agora ela sabe que as fotos enviadas por mensagem não são mágicas,

embora sinta a magia ao redor delas e o número do remetente esteja

bloqueado. Tem certeza de que, se visse o número, seria internacional,

com origem na Ucrânia. É madrugada lá. Ela vira o telefone outra vez

para si e rola as fotos: as vinte e poucas imagens mostram cavalos

diferentes, baios, alazões e pretos, árabes, quarto de milha e belgas.

Isso é um ataque.

É assim que os magos lutam. Eles começam atraindo o oponente.

Não vai funcionar comigo.

Cavalos?

Meu hacker deve ser um homem, um homem muito tolo.

— Posso experimentar seu saquê? — pergunta o homem.

Ela olha para o cara como se tivesse acabado de perceber que ele está

ali.

Ela sente um formigamento no ouvido, indicando que há uma

conversa que ela deseja ouvir. Vira uma orelha invisível em direção à

cozinha.

...gostosa demais para aquele esquisitão, não sei como ele traz essas

garotas aqui.

Bem, ele é gostoso, isso não é problema. Parece o Johnny Depp. Só

não tem a mínima noção. Queria saber como ele atraiu esta.

Você acha que ele leva elas pra cama?

Algumas, sim. Caso contrário, ele não continuaria gastando

dinheiro. Deve ter muita grana. Certa vez, ele me disse que era ator, seu

cartão de crédito tem três primeiros nomes, como um ator, Michael

Oliver Scott ou algo assim. Mas nem eles ganham tanto dinheiro assim,

não em Chicago. A menos que seja com comerciais de TV.

Ela escuta por mais um momento, olhando nos olhos de Michael

Anthony Scott.

Sorri para ele.

Ele ainda está esperando uma resposta a respeito do saquê, tentando

entender qual é a dela.

Como vai descobrir em menos de um minuto, a dela é “terminar o

saquê e deixar ele falando sozinho no restaurante”.

A dela também é “roubar sua carteira com um feitiço”.

A dela também é saber “o que ele carrega nos bolsos”.

Quando ele pegar a carteira, vai encontrar um pedaço de papel com

um desenho de criança feito com giz de cera, um desenho de um homem

chorando e sendo preso na frente do FUGU SOOSHI. Quando mostrar ao

gerente como prova de que alguém deve estar fazendo uma brincadeira

com ele, o gerente não vai conseguir enxergar o desenho de criança. Vai

ver uma nota de jornal a respeito da prisão do ator Michael Scott na

pizzaria Ravenswood, com uma foto tirada na cadeia.

Sentada no assento de pele de zebra em seu Mini Cooper, Radha dita

a natureza do desenho, da foto e do texto do artigo e depois onde quer

que esse artigo seja colocado em seu celular, em um aplicativo que criou

para isso. Em seguida, clica em pré-visualizar, ri e pressiona OK.

Ela está dirigindo de volta para casa.

Quando se vira para Damen, vê um homem desabrigado sentado em

um pedaço de papelão, com dois cães de rua cochilando perto.

Ela desce o vidro.

Joga a carteira.

O objeto escorrega e para no meio das pernas dele.

— Faça o que quiser com isso — diz ela.

Ele sorri, faz um sinal de positivo.

Uma versão animada de “Blues Skies” toca em kazoo.