Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 27
Começo da noite.
O celeiro atrás da casa de Andrew.
Anneke arrota e sai de perto, afastando-se do ar com odor de alho que
ela acabou de produzir. O aroma do penne, da salsicha apimentada e do
manjericão que Andrew preparou mais cedo não consegue superar o
cheiro da perca crua.
— É preciso ser muito solitário e desesperado para querer secar um
peixe, não?
Ele toca o lado amarelo do peixe com as costas da mão, concluindo
que precisa secar mais. Aperta o botão e sopra ar quente de um lado a
outro do peixe. Franze o nariz ao perceber que Anneke arrotou e vira o
secador para ela, que ri.
— Melhor do que peixe quente. Esse lugar fede à podridão da sua
amiga sereia — diz ela, falando mais alto do que o gemido petulante do
secador.
Andrew sorri.
— A pele fica seca, aceitando a tinta — diz ele.
— Não tenho cinco anos. Sei por que você faz isso. Só estou dizendo
que fede.
Ela toma um gole do refrigerante diet.
Agora, Andrew passa um amarelo meio amarronzado, cor de
mostarda, no peixe, que está quase tingido no molde com formato de
peixe que ele fez com a folha de isopor com revestimento prateado.
— Pensei que você tivesse comentado que queria me observar
fazendo isso.
— Eu quero. Serei boazinha.
Ele resmunga de modo desconfiado, começa a passar tinta laranja nas
barbatanas, que prendeu contra a embalagem. Anneke olha para a frente e para os lados, observando as cerca de vinte gravuras estranhas que ele
emoldurou e pendurou por ali. Esturjão, carpa, robalo-preto, salmão, em
muitas cores, algumas naturais, outras fantásticas, todos indo para o
norte, como se fossem puxados em direção ao lago.
Em meio ao cardume, como se estivesse perdido, um polvo azul da
Prússia, que veio parar na Flórida a nado.
— Gyotaku?
— Gyotaku — ele corrige a pronúncia dela, mas Anneke não percebe
a diferença.
Agora, ele pega um pedaço de papel de arroz e coloca sobre a perca,
envolvendo o peixe e prendendo por baixo, massageando o papel. Ele
detalha a barbatana com uma colher de plástico.
— Certo, gosto disso. Não estou dizendo que quero aprender. Mas
gosto.
Ele resmunga de novo, os olhos quase sem piscar, fixos no que está
fazendo.
Ele tira o papel.
— Bacana! — diz ela.
— Vou deixar secar um pouco e então faço os olhos. Não sou um
artista, mas sei lidar com olhos de peixe.
Ele prende o papel com um pregador e então se senta no sofá roído
por traças e perto da geladeira enorme, em que costumava colocar
cervejas escuras alemãs e britânicas.
Pega uma água com gás.
Os dois ficam ali, sentados, sem fazer nada por muito tempo.
O sol se põe e as mariposas voam ao redor da lâmpada.
— Está nervoso? — pergunta ela.
— Não — mente ele.