Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 28 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 27

 

Começo da noite.

O celeiro atrás da casa de Andrew.

Anneke arrota e sai de perto, afastando-se do ar com odor de alho que

ela acabou de produzir. O aroma do penne, da salsicha apimentada e do

manjericão que Andrew preparou mais cedo não consegue superar o

cheiro da perca crua.

— É preciso ser muito solitário e desesperado para querer secar um

peixe, não?

Ele toca o lado amarelo do peixe com as costas da mão, concluindo

que precisa secar mais. Aperta o botão e sopra ar quente de um lado a

outro do peixe. Franze o nariz ao perceber que Anneke arrotou e vira o

secador para ela, que ri.

— Melhor do que peixe quente. Esse lugar fede à podridão da sua

amiga sereia — diz ela, falando mais alto do que o gemido petulante do

secador.

Andrew sorri.

— A pele fica seca, aceitando a tinta — diz ele.

— Não tenho cinco anos. Sei por que você faz isso. Só estou dizendo

que fede.

Ela toma um gole do refrigerante diet.

Agora, Andrew passa um amarelo meio amarronzado, cor de

mostarda, no peixe, que está quase tingido no molde com formato de

peixe que ele fez com a folha de isopor com revestimento prateado.

— Pensei que você tivesse comentado que queria me observar

fazendo isso.

— Eu quero. Serei boazinha.

Ele resmunga de modo desconfiado, começa a passar tinta laranja nas

barbatanas, que prendeu contra a embalagem. Anneke olha para a frente e para os lados, observando as cerca de vinte gravuras estranhas que ele

emoldurou e pendurou por ali. Esturjão, carpa, robalo-preto, salmão, em

muitas cores, algumas naturais, outras fantásticas, todos indo para o

norte, como se fossem puxados em direção ao lago.

Em meio ao cardume, como se estivesse perdido, um polvo azul da

Prússia, que veio parar na Flórida a nado.

— Gyotaku?

— Gyotaku — ele corrige a pronúncia dela, mas Anneke não percebe

a diferença.

Agora, ele pega um pedaço de papel de arroz e coloca sobre a perca,

envolvendo o peixe e prendendo por baixo, massageando o papel. Ele

detalha a barbatana com uma colher de plástico.

— Certo, gosto disso. Não estou dizendo que quero aprender. Mas

gosto.

Ele resmunga de novo, os olhos quase sem piscar, fixos no que está

fazendo.

Ele tira o papel.

— Bacana! — diz ela.

— Vou deixar secar um pouco e então faço os olhos. Não sou um

artista, mas sei lidar com olhos de peixe.

Ele prende o papel com um pregador e então se senta no sofá roído

por traças e perto da geladeira enorme, em que costumava colocar

cervejas escuras alemãs e britânicas.

Pega uma água com gás.

Os dois ficam ali, sentados, sem fazer nada por muito tempo.

O sol se põe e as mariposas voam ao redor da lâmpada.

— Está nervoso? — pergunta ela.

— Não — mente ele.