Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 103
Mais um tiro.
Esse veio do lado direito da casa.
O som forte de uma bala batendo no vidro.
— Salvador! Saia da janela.
O homem de palha obedece, mas a bala já atingiu o alvo.
Um buraco apareceu na tela, um pouco acima do lado esquerdo de
Dalí.
O autômato não se afeta, mas o buraco terá que ser fechado antes de
ele voltar a ser cachorro.
— Vá se remendar.
Sal caminha em direção à escada, mais uma bala entra pela janela,
bate na parede perto da coruja empalhada.
Michael se abaixa, suando apesar do ar frio.
Andrew põe a cabeça para fora, olha mais uma vez pelos binóculos
de visão noturna.
— Temos três deste lado.
Dois pontos brilhantes aparecem na escuridão.
As balas são desviadas, acertando tijolos e gesso em outra parte do
cômodo.
O pingente brasileiro no pescoço de Andrew fica quente.
Andrew sabe que o feitiço pode ser superado se for usado com muita
intensidade: já foi salvo de pelo menos quatro balas.
— Vamos acordar Buttercup.
Michael concorda.
— Proteja-se.
O velho mago se protege.
Andrew se abaixa, vai até a janela que dá vista para o quintal da
frente.
Fica empertigado agora, afastado da janela, nas sombras, mas eles
ainda o veem.
As balas passam pela janela, fazendo o terrível pvvvvvt que uma
pessoa ouve quando começam a atirar contra ela, um som que Andrew
tivera a sorte de nunca ouvir antes. Conta dois homens na linha da
árvore. Levanta dois dedos para Michael, que se esconde atrás de uma
lâmina velha de arado.
A lâmina brilha uma vez com um P-TANG alto.
Michael lê dois parágrafos no grego de Arquimedes.
Andrew diz uma frase em francês antigo.
A fera do aspirador estica a cabeça de galo de metal na ponta do
pescoço de tubo, bate as asas de urubu, derrubando a capa que a cobre.
Flexiona os braços de chimpanzé. O pescoço vira, possibilitando que a
coisa foque os olhos em Andrew.
As lentes giram.
Merda, isso vai me atacar?
Não, só está olhando para seu dono.
— Allez!
A fera do aspirador bate as asas de urubu com mais força.
Seu motor é acionado.
Ela se lança para a frente, sai pela janela norte, em direção ao lago,
depois vira. Balas a atingem, sem causar danos.
A neve sopra dentro do sótão atrás.
A fera do aspirador vira em direção a quem atira.
Seus olhos brilham e algo na linha da árvore pega fogo.
Gritos.
Os gritos param.
Mais três balas partem em direção a Andrew, uma delas da casa de
Dawes do outro lado da rua: as três são desviadas.
A corrente que prende o pingente se quebra. O pingente cai — a
magia se esgotou.
Andrew se atira no chão quando a quarta bala acerta o tijolo às suas
costas.
Michael termina mais um verso em grego.
Andrew acrescenta um verso em alemão.
No quintal da frente, o som do motor de um Mustang há muito morto
volta a funcionar.
O chão treme.
Os pássaros empalhados na estante e no terrário com a miniatura da
casa também estremecem.
Os magos começaram um pequeno terremoto.
Buttercup está acordando.