Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 123
Anneke voltou da pedreira de Michael Rudnick, repentinamente cheia de
força. Sabe que tem uma oportunidade limitada de fazer essa coisa
horrível, sabe que sempre que resiste à tentação acabará fazendo, que
tem que fazer.
No porão.
Sete estátuas de sua amante adolescente, Shelly Bertolucci.
A maioria delas é pequena.
A melhor é de tamanho real.
Sabe que vai ter que ensinar a ela a ser uma pessoa de verdade, não
só uma pedra transformada em carne seca.
Ela improvisa.
Queima fotos da Shelly real e esfrega as cinzas na estátua.
Pega a mecha de cabelos de Shelly que guardou e coloca na cabeça
da estátua.
Queima uma carta de Shelly, coloca as cinzas nos lábios da estátua.
Toca seu próprio sexo úmido e umedece o de Shelly.
Beija os lábios de pedra, deixa a própria saliva na cinza.
Derrama leite em seu seio e esfrega no seio de Shelly.
Quando está pronta, transforma uma folha de bordo vermelha em
pedra.
Apressa-se, sopra o fogo da vida da folha para a estátua, que fica
vermelho-bordo primeiro, depois vira pedra.
Na terceira tentativa, a pedra vermelha brilha como brasa de carvão,
tirando Anneke do porão com seu calor, fazendo seu medo se acender, e
então esfriar, amaciar, ficar cor-de-rosa, cor de carne, e então se tornar
carne.
Ela respira com dificuldade.
Solta o ar.
Soluça.
Mexe os dedos.
Os olhos.
Envolve Anneke com os braços quentes.
Diz: “Obrigada”.
Anneke ri e chora.
Fala:
— Ah, merda.