Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 50 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 51

 

 

Barulhentas gralhas nas árvores recebem Jim Coyle, ex-professor de

religião comparada na Universidade Cornell, quando ele sai de seu

Toyota. Ele pendura a pequena sacola de compras no braço — é

importante não comprar demais quando você está prestes a sair de um

lugar — e anda na direção da casinha.

Jim gostou bastante de sua meia temporada de verão no lago Ontário.

Como a dona da casa mora na Pensilvânia e faz todo o trabalho por

correspondência e pela internet, ninguém o perturba ali. Ele está no meio

do texto intitulado O Mecanismo de Deus — Fazendo Amizade com a

Morte. O trabalho está bem adiantado e ele ainda tem a maior parte do

adiantamento no banco.

O período longe da esposa também tem sido restaurador. O sistema

que adotaram desde a mudança do filho é simples: quando precisam de

espaço, alguém sai; quando sentem saudade, se encontram. Pelo menos

da parte dele, a regra do “Não pergunte, não conte, use preservativo”

tem sido inútil desde que completou sessenta anos: ele simplesmente

não liga mais para todo o esforço e toda a luta, e não sente nem um

pouco de ciúme de Nancy. Meio que torce para que alguém esteja lhe

dando esse tipo de contribuição — ela ainda é bem atraente

esteticamente falando —, desde que ela não se separe em definitivo

dele: Jim sentiria a falta dela, ainda que não reaja mais à esposa abaixo

da linha da cintura. Para dizer a verdade, ele se sente culpado por sua

apatia nesse quesito. Pensou em reposição hormonal, mas sem dúvida

teria que fazer uso de testosterona, e a testosterona é a principal suspeita

no caso de sua juventude tola. Interrogar namoradas a respeito de ex-

namorados, ficar obcecado por calouras e alunas do segundo ano e, às

vezes, levá-las para a cama, meter-se em discussões intensas em

telefones públicos, tudo isso era uma tempestade ridícula do ego, e ele ficou feliz de deixar aquilo para trás ao entrar na meia-idade. Jim

começou a ficar calvo ainda jovem e contrai os lábios diante da

lembrança de como escondia a calvície com cuidado na época em que

adultos não usavam boné.

Nancy tinha sido uma boa esposa — racional, não romântica,

centrada. Ria fácil, era difícil de irritar. Professora de música. Não sabia

se queria se casar, mas aceitou fazer uma viagem a Chicago quando ele a

pediu em casamento no Navy Pier Ferris, depois de uma gravação do

programa da NPR, Wait, Wait, Don’t Tell Me.

Se ao menos ele ainda a desejasse.

Daquele jeito.

— Você sabe quem eu desejo desse jeito — murmura ele ao olhar

dentro da sacola reutilizável do Pick & Save (sacolas de plástico não são

legais), enquanto enfia a chave na fechadura —, aquela belezinha russa

que se mudou para a casa de Dragomirov, isso sim.

As gralhas piam para ele.

Jim retira da sacola os produtos: linguine integral, molho de macarrão

com vodca, azeitonas, um litro de leite desnatado orgânico e meia dúzia

de outros itens que se esperariam no carrinho de compras de um

intelectual de classe média alta preocupado com a saúde e o meio

ambiente. Sorri de seus hábitos burgueses enquanto guarda os produtos

no armário e na geladeira.

— A culpa não é minha. — Ele se dirige a ninguém em específico. —

Eu comia biscoitos e macarrão com queijo na infância. Compro pão

artesanal da Toscana se eu quiser.

Mas voltando à sobrinha do pobre sr. Dragomirov.

A pintinha no rosto dela o distrai — uma marca clássica digna de

Maria Antonieta —, sem falar que ela tem o corpo mais firme que ele já

viu em alguém da idade dela, com exceção de astros de cinema ou

instrutoras de ginástica. Jim meio que a imaginava sorrindo para ele

daquele jeito de vez em quando, mas sabe que não deve bancar o bobo.

Ela não curte professores barbudos, calvos e míopes, por mais

abastecido que seja o armário dele de vinho cabernet ou por mais perto que tenha chegado de vencer seu brilhante tio no xadrez. Certo, não

chegou perto nem sequer uma vez nas seis ou sete partidas, mas era no

que acreditava.

Agora que a nuvem de gafanhotos russos havia se dispersado, ela

parecia estar sozinha. Aquele bando já foi tarde. Jim chegou a flagrar

um deles, um homem da cor do couro cinzento, de meias e sandálias, de

pé em seu quintal, mijando um tanto bêbado em suas mudas de

manjericão.

Mas era um velório, afinal.

Coitado do Dragomirov.

Um cara simpático.

Com uma sobrinha bem simpática também.

Que gosta de nadar no lago.

Jim pensou em oferecer seus serviços como guia, talvez levá-la à

ribanceira McIntyre para ver o mais inesquecível pôr do sol do mundo,

mas sabe que ela estará rindo por dentro, mesmo que o trate de modo

educado.

Não, ele vai se afastar daquele Caríbdis e se considerar sortudo por

voltar aos braços de sua pragmática Penélope e de sua excelente coleção

de CDs de viola de gamba.

Enquanto pensa nessas coisas, pega uma blusa das costas de uma

cadeira.

Frio aqui.

Não estamos no verão?

Ele pensa em conferir se deixou o ar-condicionado ligado, mas

lembra que não tem ar-condicionado. Só está frio. Isso faz com que ele

sinta um espasmo de ansiedade — basta um dia frio de verão para que

seu pai super-republicano (oitenta e oito anos e ainda caçando pássaros)

se encha de piadas contra o aquecimento global que podem durar por

todo um inverno infernal ou todo um verão glacial.

Mas está quente lá fora.

Não está?

Ele sai de novo, sente o sol no rosto e o ar agradavelmente quente do

lago. Um pouco frio à sombra, mas muito frio dentro de casa. Jim dá a

volta pela lateral da residência, gralhas atrás dele, e vê que tem algo

estranho na janela do quarto. Demora um pouco para ver o que é.

Embaçamento?

A água desce pela janela, escorre em fios.

A janela do quarto está suando como uma lata de refrigerante em um

piquenique.

— Que coisa curiosa — diz ele, voltando para a entrada escura da

frente da casinha. Vai para o quarto, encontra a porta. Ele nunca fecha as

portas de dentro de uma casa.

Segura a maçaneta.

Fria.

Bem fria.

E trancada.

Ele nunca tranca as portas dentro de uma casa.

Pensa em ligar para a polícia e então ri de sua covardia.

Alô, polícia? Sim, gostaria de relatar um trancamento suspeito e uma

temperatura anormal. Há uma viatura na vizinhança? Com uma caixa

térmica de chocolate quente e um psicólogo especializado em traumas?

Sai de novo. As gralhas estão caladas.

Olha para a árvore, imaginando que elas desapareceram, mas não.

Estão apenas caladas. E observando.

Ele olha para seu Toyota.

Entre e vá embora — tem algo errado.

Oi, Nancy. Deixei todas as minhas roupas, livros e computador na

casa porque meu quarto estava frio e trancado, e também porque

pássaros olhavam para mim.

Eu sei, mas foi o MODO como olhavam para mim.

Ele volta a lançar um olhar para as gralhas.

Continuam o observando.

Xô, pássaros.

Jim se rende a um impulso juvenil e quebra o galho.

Atravessa o quintal e olha para a janela.

Não consegue ver dentro do quarto por causa do embaçamento.

Usa o cotovelo com a blusa de lã para limpar parte do vidro e espia

dentro.

Tem alguém ali!

Seu coração se acelera e então batuca.

Um desconhecido está sentado em sua cama, lendo algo.

Um homem estranho e feroz, com uma camiseta imunda.

Aquele é o meu rascunho?

Ele se acalma um pouco... as pessoas que leem não são perigosas.

Ele bate à janela.

O jovem se vira.

Barba farta, cabelos pretos. Olhos arregalados também.

Provavelmente um dos malditos russos. Mas não aquele que mijou nas

plantas. Aquele tinha um barrigão, esse é magricela. Macilento, até. A

parte da frente da camiseta está visível agora.

Pac-Man?

O homem sorri para ele, mas não de forma simpática.

— Com licença! — diz ele.

Chame a polícia, isso é invasão e um bom motivo para ligar.

Alô, polícia? Sim, um rapaz mal-encarado está lendo na minha cama.

A Guarda Nacional tem um tanque extra para enviar? Parece perigoso.

Ele bate de novo.

— O que você está fazendo na minha casa?

Jim protege os olhos da luz, espiando pela janela. Observa o homem

entrar no banheiro, procurar em uma gaveta, pegar um secador de

cabelos. O secador que ele usa para secar a tinta de hena que aplica na

barba.

O garoto volta com o secador, aponta para a janela. Ele liga — e Jim

escuta o secador gemer.

Mas ele não ligou na tomada.

A névoa aparece na parte do vidro aquecida.

Não, sério, ele não ligou na tomada.

Agora, o dedo do garoto traça letras na névoa.

Por que ele não respirou na janela?

 

E VOCÊ

 

Porque ele não respira.

 

REALMENTE

 

Entre no carro.

 

FEZ AMIZADE

 

Entre no carro e perceba depois que você está hipnotizado isso é

perigoso e os pássaros e o secador ELE NÃO LIGOU A PORRA DO SECADOR NA TOMADA! CORRA!

 

COM A MORTE?

 

Quando o dedo do jovem termina o ponto de interrogação, a janela

range. O professor se afasta, direto para sua penteadeira.

Ele está dentro do quarto agora.

De algum modo, o quarto e o lado de fora se inverteram.

Como xícaras, uma delas envenenada, em um filme de espionagem.

Ele se sente zonzo.

Confere sua respiração.

Sai da boca aberta.

Tão frio.

Ele não consegue fechar a boca.

Nada disso é real.

Eu estava na loja!

Só consegue se espantar e balançar a cabeça enquanto observa a neve

começar a cair do telhado do quarto.