Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 41 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 42

 

CHICAGOHONEY85: Você vai ficar me devendo muito por isso. Não sei se você sabe como algo assim é difícil.

RANULF: Não pode ter sido tão difícil se você já está me respondendo. — A dificuldade não é medida em duração.

— Acho que deve ter sido umas vinte e quatro horas.

— Um parto pode durar vinte e quatro horas. Ou pode durar duas.

Nunca pari, mas dizem por aí que é ruim de qualquer jeito.

— Certo. Mas vai demorar um tempo para descolar um carro para você.

É o que você quer, não é? Um carro que policiais, ladrões e guardas não percebam?

— Sim. Diga de novo o que ele vai fazer. Coisas de carro da cidade,

certo? Não preciso de carro grande e rápido.

— Ele anda na água. Conheço outro usuário que consegue fazer isso,

mas enfiar em espaços muito apertados tornando-os maiores é coisa minha. Por enquanto, pelo menos.

— Que ótimo! Estacionar aqui é péssimo. É exatamente o que eu quero! — Então, tudo bem! Mas vou precisar de uma semana ou duas para

encontrar o carro certo e mais uma semana para fazer o trabalho. Vinte e quatro horas, o cacete!

— O quê? Eu deveria ter agido como se tivesse demorado mais? Um

mecânico sempre recebe menos por hora do que alguém de TI. E você gosta de cuidar de carros ☺

— Não mais do que você gosta de quebra-cabeças ☺

— Agora você me pegou. Gosto mesmo! E esse foi um inferno! Aqui

está o que você me passou de dica: uma casa em algum lugar rural da Rússia, provavelmente na região do Volga, mas talvez em algum outro lugar do país. Talvez na Bielorrússia, talvez na Ucrânia, talvez na Polônia, algum lugar eslavo. Bem específico, não?

— Passei mais dicas do que isso!

— Passou e consegui. Só estou dizendo que tive que varrer boa parte da

Terra.

— Mas você tem um jeito de detectar a magia, não tem? Alguma coisa

no Google Earth ou algo assim?

— Sim, algo assim. Mas eu disse para você antes que tem alguém

ajudando ela. Alguém que saca de tecnologia. Alguém fera.

— Acho que tenho uma ideia de como ele é fera.

Andrew se lembra do sorriso ardente, dos olhos ardentes, de como eles

grudaram no vidro, e então queimaram o outro lado.

 

— Mas você tem certeza de que é um homem? Eu não sou um homem. — Eu acho que é um homem. Eu acho que você é uma mulher. Não tenho certeza de nada.

— Se você fosse dez anos mais jovem, te convidaria para vir a Chicago para eu poder mostrar. Já vi fotos antigas suas, sabe? Estalqueei você no Facebook. Gostoso! Mas você está muito velho agora, então vai ter que acreditar na minha palavra. Só estou dizendo para não tirar conclusões que podem te matar nesse jogo.

— Verdade. Mas eu quis dizer que, por melhor que ele ou ela seja, eu me sinto bem por ter você do meu lado. Você é boa também.

— Eu sou! É por isso que acho que encontrei ela.

— Posso perguntar como?

— Acabou de perguntar. E sim: encontrei ela com sombras.

— Não entendi.

— Primeiro, usei magia de detecção e então surgiram áreas que pareciam obscuras, como um véu na tela. Uma bruxa menos capaz não conseguiria ver. Mas eu consigo. Percebo um leve borrão. Marquei todos os borrões em países eslavos. Há uma grande carga de magia lá, a propósito. Você teve coragem de ir lá, quando... durante a Guerra Fria?

— Você chama de coragem. Algumas pessoas chamariam de burrice. — Agora entendi outra coisa que você comentou comigo uma vez. Ela come crianças, certo? Literalmente falando.

 

Andrew se afasta da tela, esfrega os olhos com as mãos, como se

varresse as imagens da mente.

 

— Você está aí?

— Sim. Ela come crianças.

— Invadi registros policiais. Não falo aqueles idiomas, por isso terceirizei as traduções. Essas pessoas não são iluminadas, só querem dinheiro, e já enviei a conta. É meio alta. Bom, rápido e barato, não dá para ter os três ao mesmo tempo, certo?

— Já recebi a conta.

— Então, procurei os registros de crianças desaparecidas. Bebês. O Volga se acende, como você disse que se acenderia. Mas assim como outras áreas onde eu vi borrões. Aí procuro magia, magia escondida e crianças desaparecidas. Ainda está meio confuso. Mas o material do Volga era velho, tipo alguns anos. Sabe o que apareceu desde 2008?

— Diga.

— Você vai gostar. Quer dizer, não das crianças desaparecidas, mas de onde eu acho que ela está. Isso se encaixa. Mas antes vou contar a terceira coisa que procurei, porque tenho orgulho dela.

— Sombras, você disse.

— Sombras, claro, mas de que tipo?

— Desisto.

— Então, aí eu busco observadores militares, depois de invadi-los. São poderosos. Imagens de satélite. Consigo encontrar uma mosca sobrevoando um cocô na Mongólia.

— Ha!

— Agora, penso na estrutura física. Você disse que o casebre fica apoiado em patas de galinha, não é? Patas grandes, tipo maiores do que um homem. — Nem todo mundo é capaz de ver.

— O filme ainda registra coisas assim. É por isso que às vezes vemos fantasmas em fotos. A câmera não mente: a mentira acontece na nossa cabeça.

— Mas e o ângulo? Um satélite não veria as patas embaixo de um casebre. — Pense.

 

Andrew franze a testa, bate o dedo indicador na mesa como um pica-pau

procurando insetos. É mais fácil para ela montar as coisas — ela é uma

labutadora, não inata. Entrou na magia com o cérebro. Mas Andrew está

longe de ser tolo. A última batida é forte, um Eureca! percussivo.

 

— A sombra! O casebre está mais alto, como se estivesse sobre vigas. — Mas as vigas não são uma coisa importante nesses países. Na Louisiana, na Indonésia, no Sudeste da Ásia, claro. Mas, quando não se trata de cabanas de pesca no gelo, não é algo eslavo.

— Mas eu lembro que estava na floresta... estava escuro. Ela gosta do escuro. E as árvores?

— Você também disse que tinha um jardim. Jardins precisam de sol. Ela não vai se esconder na escuridão total. Tem que ter uma brecha. — Havia! Havia um feixe de luz de sol.

— Agora, temos três critérios de busca... magia, crianças desaparecidas e um casebre com sombra mas com uma brecha de uns dois metros de claridade. Uma ocorrência. Veja.

 

Uma foto aparece.

Um casebre com teto de palha, não muito grande.

Não por fora, pelo menos.

Fu, fu, fu, sinto cheiro de ossos russos!

E então um segundo cursor aparece.

Aponta para uma pessoa curvada, levando uma panela com o que

pareciam ossos de porco, especialmente na sombra. Sem distinção.

Andrew estremece.

 

Não olhe para mim com seus olhos ou vou pegá-los.

Não sorria para mim com seus dentes ou vou pegá-los.

Mije abaixado ou entalharei uma vagina em você.

 

— Você está aí?

— Só um minuto.

— Ok.

 

Andrew percebe que começa a estremecer, uma reação involuntária que

é capaz de observar, como se fosse o estremecimento de outra pessoa,

mas que não consegue deter.

 

— É ela, Ranulf?

 

O cursor passa sobre a feiosa.

Andrew sente os testículos congelarem.

Como as palmas da mão estão suadas, usa a calça jeans para secá-las.

 

— É Baba Yaga?

 

Ele não consegue fazer seus dedos digitarem.

O nome dela foi invocado.

Ele olha para trás, para um belo espelho de latão, com medo de ver a

imagem dela, mas só enxerga o próprio rosto assustado.

Os espelhos de latão são seguros, não servem de portais para ela.

Percebe a tensão nos lábios, cuidadosamente cerrados.

Radha continua esperando.

Ela quer saber se a figura curvada com a panela cheia de ossos é a

velha que raptou Andrew vinte e nove anos atrás.

— Acho que sim.

— Ótimo! Eu também acho que sim. Você quer saber onde ela está? Não exatamente onde, mas perto de onde ela está.

 

Ele inveja o destemor de Radha, a desenvoltura confiante que ela tem do

próprio poder. Ele também era assim antes de ir para a Rússia.

 

— Onde é?

— É bem assustador. E perfeito. Ninguém vai poder foder com ela lá. A propósito, Madeline Kahn é meio bruxa.

— Onde ela está, Radha?

 

A mulher digita.

Andrew sabe que palavra vai aparecer, sabe uma fração de segundo

antes de ela aparecer na tela, como um nome em um mapa do inferno...

Geena.

Dis.

Tártaro.

Aqueronte.

 

— Tchernóbil.

 

No outro cômodo, o telefone de Anneke toca.