Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 128 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 132

 

Andrew se parece com Andrew graças a um feitiço muito forte e muito

temporário.

Ele encontra o advogado, assina os documentos em que passa tudo

para Marina Yaganishna, a quem descreve como uma prima.

— Prima, hein? É assim que estão chamando as noivas russas da

internet hoje em dia? O que você está fazendo, Andrew?

— Confie em mim.

— Coisas com impostos? Está sonegando?

— Só faça o que eu pedi, por favor.

 

Andrew tem até o pôr do sol para olhar, cheirar e falar consigo mesmo.

Ele chama Salvador.

Sal mexe o quadril pela primeira vez desde que o corpo de Andrew

morreu.

— Sal, tenho que fazer uma pergunta para você.

O retrato emoldurado de Dalí assente.

— Sal, você é feliz?

Salvador demora para responder.

Então gira os botões do Traço Mágico.

 

EU

SIRVO

 

— Isso não é resposta. Quero saber se você é feliz. Agora. Assim.

Uma das mãos do autômato se mexe em direção aos botões do Traço

Mágico para responder.

E então para.

Aqui está, então.

— Vou fazer outra pergunta, Sal. É uma pergunta que representa mais

do que parece representar, então quero que pense bem na resposta, está

bem?

O retrato assente.

— Você prefere ficar aqui dentro comigo? Ou quer sair?

Salvador abaixa a cabeça.

E então aponta para o Traço Mágico.

EU

SIRVO.

Andrew balança a cabeça.

— Diga a verdade. O que prefere?

O autômato se remexe.

E então escreve.

 

SAIR

 

Sal chacoalha a tela para limpá-la e gira os botões de novo.

 

VOCÊ SAIRÁ COM SAL MAIS TARDE

 

Andrew ri, sente uma lágrima começar a se acumular em um dos olhos,

e a afasta com o nó do dedo.

— Está marcado — diz ele.

 

Primeiro, Andrew assiste à fita com Sal e Sarah umas doze ou treze

vezes, sem abrir o alçapão. Apenas observa. Depois, pega e leva a fita

para o andar de cima.

Como o micro-ondas está destruído, Andrew usa o fogão para

descongelar um pedaço de filé que estava guardando na geladeira, bem

grande e vermelho envolto em bacon defumado.

A seguir, ele transforma Salvador em um border collie, usando o

resto da magia de seus membros fracos.

Isso vai durar só uns vinte minutos, no máximo.

Ele dá o filé a Sal.

Observa o cão bonito e faminto comer.

Os trezentos gramas dele.

Ele leva Sal para fora, lança um frisbee para ele.

Ri quando o cachorro pega o disco no ar uma, duas vezes, e então se

distrai e persegue um corvo, provavelmente um daqueles que comeu o

rosto de Andrew não muito tempo antes.

Então, eles correm juntos.

O cachorro está correndo com a língua para fora no último dia quente

do ano, pelo que parece um quilômetro, latindo e saltando.

Então, os dois começam a se arranhar e a morder de brincadeira, com

direito a lambidas, uma dança tão velha quanto homem, e cão, e carne, e

fogo. Enfim, eles param, a cabeça de Sal no colo do dono.

Andrew sente o cheiro bom do cachorro, do pelo perto das orelhas às

almofadas pretas e fofas das patas, até o hálito quente de carne.

Um esquilo desce de uma árvore e Sal levanta a cabeça, ergue as

orelhas, mas não corre atrás.

Apenas balança o rabo.

Está muito feliz com os cheiros de esquilo, o ar fresco e os texugos

mortos e o sol em seu pelo, a mão do dono sobre ele, a voz do dono em

seu ouvido e o cheiro em seu focinho.

Pela última vez.

Tem que ser aqui.

Tem que ser agora.

O cachorro começa a ver embaçado.

Fica de pé e boceja, enrolando a língua.

Andrew também fica de pé.

O cão está vendo embaçado e assim continua.

Levanta-se com as quatro patas para ficar de pé em duas.

Agora, Sal é um autômato de novo.

Antes que perca a coragem, Andrew puxa a tampa do cesto e tira o

coração salgado do cachorro.

Não é diferente de puxar um plugue.

O homem de palha cai em uma posição quase fetal com Dalí olhando

para o céu.

O retrato vai ficar pendurado na biblioteca.

As próteses de perna vão para Virginia, onde um homem ou uma

mulher de um país quente ficará feliz em recebê-las.

O homem de palha e o coração do cachorro começam a pegar fogo.

Assim como a fita VHS.

Sal e Sarah.

Sair.

Mais tarde.

Está marcado.

Andrew Blankenship assiste ao sol se pôr, sentado perto do fogo, com

seu roupão japonês.

Marina Yaganishna se levanta, amarra o roupão.

Escuta o telefone celular tocando.

Atende.

 

É Anneke.