Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 132
Andrew se parece com Andrew graças a um feitiço muito forte e muito
temporário.
Ele encontra o advogado, assina os documentos em que passa tudo
para Marina Yaganishna, a quem descreve como uma prima.
— Prima, hein? É assim que estão chamando as noivas russas da
internet hoje em dia? O que você está fazendo, Andrew?
— Confie em mim.
— Coisas com impostos? Está sonegando?
— Só faça o que eu pedi, por favor.
Andrew tem até o pôr do sol para olhar, cheirar e falar consigo mesmo.
Ele chama Salvador.
Sal mexe o quadril pela primeira vez desde que o corpo de Andrew
morreu.
— Sal, tenho que fazer uma pergunta para você.
O retrato emoldurado de Dalí assente.
— Sal, você é feliz?
Salvador demora para responder.
Então gira os botões do Traço Mágico.
EU
SIRVO
— Isso não é resposta. Quero saber se você é feliz. Agora. Assim.
Uma das mãos do autômato se mexe em direção aos botões do Traço
Mágico para responder.
E então para.
Aqui está, então.
— Vou fazer outra pergunta, Sal. É uma pergunta que representa mais
do que parece representar, então quero que pense bem na resposta, está
bem?
O retrato assente.
— Você prefere ficar aqui dentro comigo? Ou quer sair?
Salvador abaixa a cabeça.
E então aponta para o Traço Mágico.
EU
SIRVO.
Andrew balança a cabeça.
— Diga a verdade. O que prefere?
O autômato se remexe.
E então escreve.
SAIR
Sal chacoalha a tela para limpá-la e gira os botões de novo.
VOCÊ SAIRÁ COM SAL MAIS TARDE
Andrew ri, sente uma lágrima começar a se acumular em um dos olhos,
e a afasta com o nó do dedo.
— Está marcado — diz ele.
Primeiro, Andrew assiste à fita com Sal e Sarah umas doze ou treze
vezes, sem abrir o alçapão. Apenas observa. Depois, pega e leva a fita
para o andar de cima.
Como o micro-ondas está destruído, Andrew usa o fogão para
descongelar um pedaço de filé que estava guardando na geladeira, bem
grande e vermelho envolto em bacon defumado.
A seguir, ele transforma Salvador em um border collie, usando o
resto da magia de seus membros fracos.
Isso vai durar só uns vinte minutos, no máximo.
Ele dá o filé a Sal.
Observa o cão bonito e faminto comer.
Os trezentos gramas dele.
Ele leva Sal para fora, lança um frisbee para ele.
Ri quando o cachorro pega o disco no ar uma, duas vezes, e então se
distrai e persegue um corvo, provavelmente um daqueles que comeu o
rosto de Andrew não muito tempo antes.
Então, eles correm juntos.
O cachorro está correndo com a língua para fora no último dia quente
do ano, pelo que parece um quilômetro, latindo e saltando.
Então, os dois começam a se arranhar e a morder de brincadeira, com
direito a lambidas, uma dança tão velha quanto homem, e cão, e carne, e
fogo. Enfim, eles param, a cabeça de Sal no colo do dono.
Andrew sente o cheiro bom do cachorro, do pelo perto das orelhas às
almofadas pretas e fofas das patas, até o hálito quente de carne.
Um esquilo desce de uma árvore e Sal levanta a cabeça, ergue as
orelhas, mas não corre atrás.
Apenas balança o rabo.
Está muito feliz com os cheiros de esquilo, o ar fresco e os texugos
mortos e o sol em seu pelo, a mão do dono sobre ele, a voz do dono em
seu ouvido e o cheiro em seu focinho.
Pela última vez.
Tem que ser aqui.
Tem que ser agora.
O cachorro começa a ver embaçado.
Fica de pé e boceja, enrolando a língua.
Andrew também fica de pé.
O cão está vendo embaçado e assim continua.
Levanta-se com as quatro patas para ficar de pé em duas.
Agora, Sal é um autômato de novo.
Antes que perca a coragem, Andrew puxa a tampa do cesto e tira o
coração salgado do cachorro.
Não é diferente de puxar um plugue.
O homem de palha cai em uma posição quase fetal com Dalí olhando
para o céu.
O retrato vai ficar pendurado na biblioteca.
As próteses de perna vão para Virginia, onde um homem ou uma
mulher de um país quente ficará feliz em recebê-las.
O homem de palha e o coração do cachorro começam a pegar fogo.
Assim como a fita VHS.
Sal e Sarah.
Sair.
Mais tarde.
Está marcado.
Andrew Blankenship assiste ao sol se pôr, sentado perto do fogo, com
seu roupão japonês.
Marina Yaganishna se levanta, amarra o roupão.
Escuta o telefone celular tocando.
Atende.
É Anneke.