Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 58
CHICAGOHONEY85: Isso é bem bacana para quem gosta de coisas pesadas. Mas acho que você não gosta dessas coisas tanto quanto eu. Tem certeza de que está a fim de ver isso?
RANULF: Mostra. Preciso saber.
— O quê, você não confia em mim? Não vou dizer que sei se eu não sei. E é uma bruxa morta. Morta pra valer, mortinha da silva.
— Legal. Então me mostra.
— Como está meu carro?
— Você vai gozar.
— Acho que está tentando dizer gostar. Porque gozar é tipo um homem ejacular, o que é anatomicamente errado e um pouco inadequado.
— Eu quis dizer gostar.
— Eu sei. Um cara como você se garante e não precisa bancar o babaca. Não tem nada que eu odeie mais do que caras que querem causar.
— É compreensível. Você vai me mostrar?
— De que cor é?
— ?
— O carro!
— Cereja. Um Mini Cooper.
— *AAAHHH!* Certo, aqui está seu agradinho mórbido. Já vou avisando que é esquisito. Não sabia que coisas assim aconteciam. Bem doido. As imagens foram feitas em intervalos de dois segundos.
Uma foto aparece. Preta e branca, foto de satélite militar. A cabana, o
jardim, é difícil distinguir. De manhã cedo. O pé de uma senhora, um
chinelo perto. É impossível não notar o eco de O Mágico de Oz.
Ding-dong, a cadela está morta.
— Consegue dar um zoom naquele sapato?
Ela aproxima a imagem. Fica meio embaçado, mas ele acha que pode
ser um chinelo antigo. Não vermelho. Bordado.
Ele não sabe, mas acha que já viu o sapato antes.
O estômago dele se embrulha.
— Clique quando estiver pronto para ver a próxima imagem. A coisa vai esquentar.
Ele clica.
Um lobo se abaixa no caminho. Um lobo magricela, não como
aqueles vistos em fotos do Alasca ou de Yellowstone — seu pelo é mais
cinza e desgrenhado, e o animal parece muito faminto.
Pequeno. O focinho afilado como uma arma apontado na direção do
pé inanimado.
(Clique)
Aquele lobo está quase fora da linha, só o rabo fica visível. Está
cheirando o corpo. Talvez esteja fazendo mais do que isso. Dois outros
lobos aparecem no caminho diante do casebre para dividir a
recompensa.
— Agora, observe a casa.
(Clique)
A casa virou.
Ele vê uma das janelas como um olho escuro.
Virou noventa graus em direção aos lobos, à mulher morta.
(Clique)
Totalmente virada, de frente para eles.
Mais lobos chegam, dois deles agachados e rosnando para a casa, os
demais ao redor do corpo.
Alimentando-se.
— Você não vai acreditar nisso. Está sentado?
(Clique)
Movimento. As coisas ficam embaçadas agora. Algo brilhou debaixo
da casa, desencadeando uma reação nos lobos. Um deles foi lento
demais. O borrão tomou o animal.
(Clique)
Uma pata enorme de galinha.
É o que pegou o lobo.
Ainda embaçado, um pouco menos agora, e ainda em movimento.
O lobo se esforça, tentando se livrar.
(Clique)
O lobo está morto.
Os miolos dele estão espalhados pelo chão, morto como a iguana de
Haint.
Dois outros rosnam para a casa, com as patas da frente abaixadas,
como cães brincando, mas sem brincar. Não chegam a cercar a casa,
como poderiam cercar um alce gigante, mas bloqueiam o acesso ao
corpo, enquanto os outros se retiram.
O resto da matilha está arrastando a velha, cerca de um terço dela na
imagem agora, tomada por sangue seco.
(Clique)
Tudo borrado, a casa girando, movimento por baixo.
(Clique)
A casa virando, só um canto dela aparecendo.
Dois lobos mortos jogados como trapos.
A mulher e os outros lobos se foram.
(Clique)
Só o jardim.
O caminho.
Um dos lobos tentando se levantar.
Não estava morto, no fim das contas.
Mas vai estar em breve.
Grande parte do que existia dentro dele está para fora.
Essa é a última imagem.
Ele clica e passa por elas mais duas vezes.
— O que você acha?
— Acho que você pode estar certa.
— Estou certa. Ela está mortinha da silva. Você está limpo, cara.
— Obrigado. De verdade, Radha, obrigado.