Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 98 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 100

 

— Acorde — diz o homem barbudo, em russo.

Ele fala isso para uma boneca de aniagem com olhos de botão.

A boneca tem olhos humanos que piscam, do tamanho dos olhos de

uma pessoa normal, desproporcionais à sua cabeça pequena. Agora,

dedos pequenos surgem dos braços costurados e seguram a manga do

homem, a manga manchada com o sangue que escorreu quando ele se

feriu com as agulhas de costura. A boneca desenvolve uma boca do

tamanho de uma amêndoa, de lábios pretos, com as gengivas cor-de-rosa

marcadas por pequenos dentes parecidos com dentes do peixe lúcio.

Por isso espalhei escamas de peixes nelas.

O homem estremece com antecedência, vocaliza.

A boneca morde o braço dele.

O suficiente para fazê-lo gemer.

E sangrar.

A boneca cospe a manga.

Mastiga.

Uma língua sai de sua cabeça. O homem sofre quando é atacado por

ela, segurando-a quase de modo carinhoso. É meio como amamentar.

Ele pensa em sua época como homem.

Pois seus desejos são como os de um lobo: sangrentos, famintos e

vorazes.

Ele emite um som como uma risada.

Não há tempo para alimentar uma a uma. Chame todas.

Ela não está na casinha, pelo menos não completamente.

Apenas sua voz, a mutuca em seu cérebro.

— Acorde, acorde, acorde — diz ele, gritando e rindo, gesticulando

como uma mãe chamando os filhos para ouvirem uma história.

TODAS!

Ele diz isso mais cinco vezes.

Os olhos grandes piscam nas cabeças de aniagem.

Todas olhando para ele.

A primeira se move, e então todas se movem.

Elas rastejam até ele, cobrem o seu corpo.

Ele ri para suportar a dor.

Seus olhos se marejam e se arregalam.

É difícil, mas ele vai conseguir.

Ela não vai puni-lo.