Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 100
— Acorde — diz o homem barbudo, em russo.
Ele fala isso para uma boneca de aniagem com olhos de botão.
A boneca tem olhos humanos que piscam, do tamanho dos olhos de
uma pessoa normal, desproporcionais à sua cabeça pequena. Agora,
dedos pequenos surgem dos braços costurados e seguram a manga do
homem, a manga manchada com o sangue que escorreu quando ele se
feriu com as agulhas de costura. A boneca desenvolve uma boca do
tamanho de uma amêndoa, de lábios pretos, com as gengivas cor-de-rosa
marcadas por pequenos dentes parecidos com dentes do peixe lúcio.
Por isso espalhei escamas de peixes nelas.
O homem estremece com antecedência, vocaliza.
A boneca morde o braço dele.
O suficiente para fazê-lo gemer.
E sangrar.
A boneca cospe a manga.
Mastiga.
Uma língua sai de sua cabeça. O homem sofre quando é atacado por
ela, segurando-a quase de modo carinhoso. É meio como amamentar.
Ele pensa em sua época como homem.
Pois seus desejos são como os de um lobo: sangrentos, famintos e
vorazes.
Ele emite um som como uma risada.
Não há tempo para alimentar uma a uma. Chame todas.
Ela não está na casinha, pelo menos não completamente.
Apenas sua voz, a mutuca em seu cérebro.
— Acorde, acorde, acorde — diz ele, gritando e rindo, gesticulando
como uma mãe chamando os filhos para ouvirem uma história.
TODAS!
Ele diz isso mais cinco vezes.
Os olhos grandes piscam nas cabeças de aniagem.
Todas olhando para ele.
A primeira se move, e então todas se movem.
Elas rastejam até ele, cobrem o seu corpo.
Ele ri para suportar a dor.
Seus olhos se marejam e se arregalam.
É difícil, mas ele vai conseguir.
Ela não vai puni-lo.