Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 25 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 24

 

 

Um homem mais velho em uma televisão de tela plana está falando com

um dialeto da Nova Inglaterra que lembra o trotar lento de um cavalo. A

cabeça do homem é comprida e parecida com a de um cavalo, mas ele é

bonito, apesar de ter quase setenta anos. Olha para um papel e então para

o telespectador.

E para Andrew.

Mas o homem mais velho não vê o homem mais jovem.

Ainda não.

Ainda está só na fita.

— ...A vida dele depende da obediência a princípios espirituais. Se

ele for longe demais, o castigo será inevitável e rápido...

O homem olha para o papel.

— Bill.

— ...Ele adoecerá e acabará morrendo.

Andrew sabe que o homem vai olhar para a câmera antes de falar de

novo.

— Bill Wilson. É Andrew Blankenship.

— Andrew Blank...?

O homem mais velho demonstra ter entendido.

O alçapão está aberto.

O homem já morto no filme caseiro meio desfocado fica um pouco

mais borrado. Mas agora está acordado, consciente. Pousa os óculos de

aro escuro no nariz e olha para Andrew pela televisão. Aquilo não está

no roteiro. O ambiente está congelado. A fita para de girar em sua

máquina.

As luzes na sala de vídeo são quentes e confortantes, nem claras, nem

escuras. Andrew não sabe como fica na televisão, de lá. Também não sabe se está em comunhão com uma alma ou se está conversando com o

homem em seu momento real.

Mas sabe que as almas mortas, ou as inteligências encapsuladas, ou

as sombras em Hades, ou seja lá o que forem, fazem com que ele se

lembre de quando as encontra de novo.

Existe continuidade.

— Onde você está? — pergunta Bill, apertando os olhos.

— Em casa.

— Isso mesmo. Você faz isso do porão, certo?

— Sim.

Bill ri de modo simpático. É um idoso em uma gravação de 1964 que

Andrew comprou no eBay e converteu de filme 8 milímetros para VHS.

Está falando em uma reunião em uma casa na Filadélfia. Lê muito do

trabalho dos “primeiros cem bêbados” nessa parte e Andrew descobriu

que, nesse trecho, onde fala sobre a morte, é mais fácil interrompê-lo. A

metade visível de um jarro de ferro escovado brilha abaixo de Bill, mas

é como um brilho de paisagem.

Andrew sabe que o homem poderia tocar a jarra e a condensação se

daria de novo: uma gota escorreria pelo lado. Ele poderia pegar o jarro,

mas só veria o jarro se Andrew dissesse que estava ali. Se perguntasse

ao homem morto o que havia ao redor, ele diria que estava borrado, ou

embaçado, e então muito provavelmente a dissonância cognitiva entraria

em cena e o homem morto começaria a ficar chateado. Ao falar com o

morto por meio de um filme, é melhor manter a atenção em você.

Eles já passaram por isso.

Bill sabe que morreu em 2012.

Andrew disse a ele.

Bill também sabe que Andrew é um feiticeiro, mas não usa isso

contra ele. Nem se importa com os cabelos compridos e as estranhas

roupas do homem. Bill talvez seja o morto menos crítico com quem

Andrew teve contato.

— Na nossa última conversa — diz Bill —, você me disse que estava

patrocinando uma jovem de Wisconsin.

— O pai dela é de Wisconsin.

— Isso mesmo. Como ela está?

— Tem seis meses agora, a última recaída. E as recaídas dela não são

tão devastadoras, por isso está sóbria há oito anos. Mas não acho que ela

realmente tenha chegado ao fundo do poço.

— Quando tempo faz desde nossa conversa?

— Faz... meses.

Bill seca os olhos por baixo dos óculos, como se estivesse cansado.

— Parece que foi há cinco minutos. O tempo não faz o menor sentido

aqui.

Ele começa a olhar ao redor.

E começa a parecer agitado.

— Bill.

Bill olha para Andrew de novo.

— Sim, me desculpe.

— Não precisa se desculpar. Eu estava só pensando se você ainda se

sente à vontade sendo meu padrinho. Isso é uma...

Andrew para de falar.

— Uma situação altamente incomum, eu sei — Bill finaliza para ele

—, mas é claro que continuarei me encontrando com você. Afinal, o que

mais tenho para fazer? E digo isso sem ressentimentos.

— Ótimo.

— No que está pensando?

— Eu... gostaria de saber se desistir da mágica e desistir de beber são

coisas parecidas.

— Claro que são. Está pensando em voltar para a igreja?

Bill está sendo sincero quando pergunta isso. Andrew controla um

riso, mas reconhece que teria sido uma risada feia e sem graça.

— Não.

— Depende de você, claro.

E para onde a igreja levou você, velho? Para o céu? Esse é você?

— Sim. Gostaria de saber se poderia desistir agora. Se quisesse.

— Não sozinho, com certeza.

Qual é meu poder exatamente?

— Desculpa. Era só isso. É bom falar com você.

— Você perdeu seu pai ainda jovem, não?

— Sim.

— É difícil não ter a figura paterna. Você procura o que não está

recebendo do pai em outras pessoas. Ok. O amor é sempre ok.

Andrew assente.

As lágrimas se aproximam.

Ele se segura.

E aqui está o mago em uma sala escura, usando truques baratos para

perturbar o descanso de um morto, chorando porque sente falta do seu

pai e da sua mãe.

Que merda.

— Temos padrinhos no mundo da magia também. Mentores.

Bill só ouve.

— O meu vivia em Ohio.