Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 24
Um homem mais velho em uma televisão de tela plana está falando com
um dialeto da Nova Inglaterra que lembra o trotar lento de um cavalo. A
cabeça do homem é comprida e parecida com a de um cavalo, mas ele é
bonito, apesar de ter quase setenta anos. Olha para um papel e então para
o telespectador.
E para Andrew.
Mas o homem mais velho não vê o homem mais jovem.
Ainda não.
Ainda está só na fita.
— ...A vida dele depende da obediência a princípios espirituais. Se
ele for longe demais, o castigo será inevitável e rápido...
O homem olha para o papel.
— Bill.
— ...Ele adoecerá e acabará morrendo.
Andrew sabe que o homem vai olhar para a câmera antes de falar de
novo.
— Bill Wilson. É Andrew Blankenship.
— Andrew Blank...?
O homem mais velho demonstra ter entendido.
O alçapão está aberto.
O homem já morto no filme caseiro meio desfocado fica um pouco
mais borrado. Mas agora está acordado, consciente. Pousa os óculos de
aro escuro no nariz e olha para Andrew pela televisão. Aquilo não está
no roteiro. O ambiente está congelado. A fita para de girar em sua
máquina.
As luzes na sala de vídeo são quentes e confortantes, nem claras, nem
escuras. Andrew não sabe como fica na televisão, de lá. Também não sabe se está em comunhão com uma alma ou se está conversando com o
homem em seu momento real.
Mas sabe que as almas mortas, ou as inteligências encapsuladas, ou
as sombras em Hades, ou seja lá o que forem, fazem com que ele se
lembre de quando as encontra de novo.
Existe continuidade.
— Onde você está? — pergunta Bill, apertando os olhos.
— Em casa.
— Isso mesmo. Você faz isso do porão, certo?
— Sim.
Bill ri de modo simpático. É um idoso em uma gravação de 1964 que
Andrew comprou no eBay e converteu de filme 8 milímetros para VHS.
Está falando em uma reunião em uma casa na Filadélfia. Lê muito do
trabalho dos “primeiros cem bêbados” nessa parte e Andrew descobriu
que, nesse trecho, onde fala sobre a morte, é mais fácil interrompê-lo. A
metade visível de um jarro de ferro escovado brilha abaixo de Bill, mas
é como um brilho de paisagem.
Andrew sabe que o homem poderia tocar a jarra e a condensação se
daria de novo: uma gota escorreria pelo lado. Ele poderia pegar o jarro,
mas só veria o jarro se Andrew dissesse que estava ali. Se perguntasse
ao homem morto o que havia ao redor, ele diria que estava borrado, ou
embaçado, e então muito provavelmente a dissonância cognitiva entraria
em cena e o homem morto começaria a ficar chateado. Ao falar com o
morto por meio de um filme, é melhor manter a atenção em você.
Eles já passaram por isso.
Bill sabe que morreu em 2012.
Andrew disse a ele.
Bill também sabe que Andrew é um feiticeiro, mas não usa isso
contra ele. Nem se importa com os cabelos compridos e as estranhas
roupas do homem. Bill talvez seja o morto menos crítico com quem
Andrew teve contato.
— Na nossa última conversa — diz Bill —, você me disse que estava
patrocinando uma jovem de Wisconsin.
— O pai dela é de Wisconsin.
— Isso mesmo. Como ela está?
— Tem seis meses agora, a última recaída. E as recaídas dela não são
tão devastadoras, por isso está sóbria há oito anos. Mas não acho que ela
realmente tenha chegado ao fundo do poço.
— Quando tempo faz desde nossa conversa?
— Faz... meses.
Bill seca os olhos por baixo dos óculos, como se estivesse cansado.
— Parece que foi há cinco minutos. O tempo não faz o menor sentido
aqui.
Ele começa a olhar ao redor.
E começa a parecer agitado.
— Bill.
Bill olha para Andrew de novo.
— Sim, me desculpe.
— Não precisa se desculpar. Eu estava só pensando se você ainda se
sente à vontade sendo meu padrinho. Isso é uma...
Andrew para de falar.
— Uma situação altamente incomum, eu sei — Bill finaliza para ele
—, mas é claro que continuarei me encontrando com você. Afinal, o que
mais tenho para fazer? E digo isso sem ressentimentos.
— Ótimo.
— No que está pensando?
— Eu... gostaria de saber se desistir da mágica e desistir de beber são
coisas parecidas.
— Claro que são. Está pensando em voltar para a igreja?
Bill está sendo sincero quando pergunta isso. Andrew controla um
riso, mas reconhece que teria sido uma risada feia e sem graça.
— Não.
— Depende de você, claro.
E para onde a igreja levou você, velho? Para o céu? Esse é você?
— Sim. Gostaria de saber se poderia desistir agora. Se quisesse.
— Não sozinho, com certeza.
Qual é meu poder exatamente?
— Desculpa. Era só isso. É bom falar com você.
— Você perdeu seu pai ainda jovem, não?
— Sim.
— É difícil não ter a figura paterna. Você procura o que não está
recebendo do pai em outras pessoas. Ok. O amor é sempre ok.
Andrew assente.
As lágrimas se aproximam.
Ele se segura.
E aqui está o mago em uma sala escura, usando truques baratos para
perturbar o descanso de um morto, chorando porque sente falta do seu
pai e da sua mãe.
Que merda.
— Temos padrinhos no mundo da magia também. Mentores.
Bill só ouve.
— O meu vivia em Ohio.