Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 86 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Parte Quatro

88

 

Casa.

Andrew telefona para Haint pela primeira vez desde New Orleans.

Quer combinar a entrega da Mão da Glória, aquela que mata. Aquela

mão pode servir para ele contra ela, mas pode ser que não, e, de

qualquer forma, já tinha prometido o objeto como pagamento ao

homenzinho marcado — a última coisa que desejava era irritar um

cidadão perigoso como Haint.

Quatro toques.

Cinco.

Sabe que a mensagem tocará no sexto e espera. No entanto, para leve

surpresa de Andrew, Haint atende.

Vai ao Facetime.

Andrew se prepara para um comentário a respeito de sua aparência

atual.

Haint entra, e o rosto aparece na tela.

— Saudações — diz Andrew.

Haint mexe os lábios como se quisesse falar, ou talvez para falar algo

desagradável por baixo da língua, mas se limita a balançar a cabeça.

— Você está bem? — pergunta Andrew. — Devo isso a você —

comenta ele, levantando uma mão enrugada, leve como uma pimenta

murcha.

O homem vodu nem parece vê-lo.

Haint balança a cabeça com mais força, os olhos um pouco

arregalados.

Tijolos atrás dele: está em seu apartamento móvel.

— Haint, você precisa de ajuda?

Haint fecha os olhos, fica balançando a cabeça, como uma criança

teimosa que recusa uma ordem dos pais.

Agora, parece estar pensando muito.

Hesita.

Abre a boca.

Uma cobra coloca a cabeça para fora da boca de Haint, não é grande,

talvez seja uma serpente Thamnophis: a língua se remexe, a cabeça se

vira de um lado a outro, se volta para olhar no olho de Haint. O homem

estreita os olhos. Apanha a cobra pela cabeça, enrola-a duas vezes na

mão, puxando-a totalmente para fora. Torce o pescoço da serpente e a

lança.

Olha com raiva para a tela.

Aponta.

A câmera segue seu dedo.

No canto do apartamento, atrás de uma cadeira caída, há um monte

de cobras mortas, a maioria pequena, algumas nem tanto, uma pilha que

chega à altura dos joelhos.

Muitas estão ensanguentadas.

Uma faca enfiada na mesa próxima.

Vômito no chão.

Caramba, isso é o inferno e eu não tenho como sair.

Agora, Haint pousa a câmera, e retorna com um pedaço de papel e

uma caneta.

Escreve, pressionando a caneta com força.

 

4 DIAS DISSO

LARINGE AFETADA

NÃO CONSIGO FALAR

DIGA COMO PARAR ISSO

 

— Não sei — responde Andrew.

Várias expressões passam pelo rosto de Haint: raiva, medo e, por fim,

algo parecido com resignação.

Ele assente.

O assentir diz Eu sabia que estava brincando com fogo.

Agora estou pagando.

Escreve.

 

NÃO VENHA AQUI

FIQUE COM A MÃO

USE AGORA

 

Ele aponta para o peito dele.

Andrew balança a cabeça.

Haint parece incrédulo e, então, irado.

Mostra o peito, bate o polegar nele com força, aponta para a tela.

Enche a tela com os olhos irados.

Escreve.

 

ANDE LOGO

ANDE LOGO

ANDE LOGO

 

— Não posso — diz Andrew.

Só percebe que Haint está vestindo um casaco de lã, ainda não

processa isso.

Pode ser que Radha me ajude a encontrar um contrafeitiço, mas

acho que ela pegou Radha.

Poderia ir até New Orleans, mas o que eu seria capaz de fazer por

ele?

A srta. Mathilda conhece vodu e pessoas que fazem vodu, mas

nenhuma tão forte quanto Haint.

Ele está morto.

E talvez eu seja o próximo.

Haint estreita os olhos, invadidos por água fresca.

Ele sente ânsia.

Está ofegante como um cão.

Porra, consigo ver o vapor da respiração dele, está frio ali dentro.

Haint leva a mão à garganta, vomita outra serpente.

Colorida, como uma cobra-coral-falsa.

Não uma coral de verdade, que seria letal.

Ele tem que sofrer.

Haint bate na cobra.

Chuta-a para o canto.

Andrew tinha acabado de decidir usar a mão para parar o coração de

Haint quando Haint cospe na câmera.

 

Um flash de loucura quando Haint joga o telefone contra os tijolos.

O aparelho se quebra.

Ligação finalizada.