Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 62 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 63

 

 

— Ichabod.

Nada.

— Ichabod, ordeno que apareça para mim.

Nada.

Se ele não estiver ouvindo, não vai obedecer.

Andrew vai precisar invocá-lo formalmente ou ir vê-lo.

Pensar em ir vê-lo na caverna dele lhe dá calafrios.

A caverna perto dos trilhos do trem.

Uma invocação formal é um saco.

Ele olha para o relógio antigo em seu criado-mudo.

Uma e dez da madrugada.

Já passou da meia-noite em New Orleans.

Ele tem uma dívida a pagar.

 

Ele aparece no banheiro de um restaurante fino perto de Chartres, que

sabe que funciona até tarde nos fins de semana. Sabe também que não

vai estar tão cheio a ponto de ter companhia em uma mesa reservada.

Ele se prepara, aparece diante da pia e se olha no espelho.

Parece mais velho.

Parece ter uns quarenta anos, não trinta e cinco.

Os cabelos ainda são pretos, a pele ainda está boa, mas há algo.

Ainda é melhor do que aparentar cinquenta e três anos... mas como

seria nesse caso?

Diante de seus olhos, os cabelos ficam quase todos brancos, perdem o

brilho. Linhas profundas marcam a boca, no canto dos olhos aparecem

pés de galinha.

Não estou pronto para isso. Ainda não. Volte.

Ele se concentra, acreditando ser mais jovem.

Torna-se mais jovem, trinta e cinco de novo.

Uma veia grossa aparece em seu olho.

— Ah, MERDA!

Seu olho esquerdo fica vermelho. Ele se inclina.

Um garçom espia da porta do banheiro.

— Está tudo bem, senhor?

— Perfeito, obrigado.

Ele está longe de estar perfeito mas, como as pessoas não insistem

nessa cidade, o garçom desaparece. Sua esclera vai ficar mais clara — e

ele vai ficar ainda mais jovem quando isso acontecer.

Apesar disso, fica mais difícil a cada ano. Todos perdem essa luta.

Ele sente o volume no bolso do casaco, tenta imaginar se o garçom

pensou que estivesse armado.

É pior do que uma arma!

 

Ele passa pelo bar onde um barman com gel no cabelo em estilo retrô

abre um ovo, olha para Andrew, volta a olhar para o que está fazendo,

termina de preparar o champanhe pré-Lei Seca para a moça rica vestindo

meias de seda. Seria uma cena de 1935 até o celular dela tocar e ela

olhar para o aparelho, sorrindo discretamente.

Agora ele pega o telefone e liga para Haint.

Toca cinco vezes e então escuta a mensagem.

— Você sabe quem está falando se ligou para este número. Não me

engane.

Agora o som de algo pequeno e estridente sendo morto por algo duro

e pesado, enfatizado pela risada grave de Haint.

Bip.

— É Andrew. Ligue para mim. Estarei no Lafitte’s. Durante um

tempo.

 

Ele já está ali há bastante tempo.

Um barbudo usando chapéu-coco começa a tocar “Werewolves of

London”, de Zevon, na parte dos fundos, diante dos ouvintes de frente para o piano, em banquinhos. O amigo do pianista se recosta na parede

perto dele, acompanhando com a gaita. Tudo está apagado. Todos

embriagados. O local pequeno e quente cheira a uísque e se remexe

inebriado.

Se Dionísio voltasse, aqui seria seu templo.

Assim que Andrew pensa nisso, Dionísio entrou.

Mas que porra é essa?

É o maldito Dionísio?

Andrew relaxa um pouco quando percebe que a figura com coroa de

folhas de uva passando pela multidão está usando uma máscara de papel

machê. Volta a ficar tenso quando percebe que mais ninguém olha para

aquilo. A coisa olha para ele. Não, corrigindo: vira para ele as órbitas

oculares, pretas e sem olhos. As mangas passam por onde as mãos

ficariam, mas Andrew tem certeza, de modo nauseante, de que a coisa

não tem mãos: flutua em vez de andar.

Andrew se segura à mesa com força.

Agora, o pianista aborta a canção dos Doobie Brothers que havia

acabado de começar, bate as mãos sem coordenação nas teclas, olha para

Andrew e diz:

— Posso me sentar?

Mais ninguém percebe.

As pessoas gesticulam, bebem e conversam como se ainda estivessem

ouvindo a música.

O homem da gaita continua tocando.

— Claro — diz Andrew.

A cadeira oposta a ele se afasta sozinha e o Dionísio vazio se senta

nela, com a guirlanda de folhas de uva e a máscara em cima, as órbitas

oculares fixas no teto.

A garçonete, uma mulher deprimente com um olho preguiçoso e uma

camiseta escrito Who Dat?, pega uma coroa de folhas de uva da cadeira

e leva ao pianista, colocando-a sobre o chapéu.

— Obrigado, Felicity. Você não vai sentir cólica em sua próxima

menstruação.

— Ótimo — agradece ela, parecendo animada pela primeira vez na

noite.

O pianista toca as teclas e fala outra vez com Andrew.

— Acredito que você seja a única pessoa neste estabelecimento

bebendo água com gás. Você profana meu templo, senhor.

— Ichabod?

— A seu dispor, como sempre.

— Chamei você horas atrás.

— Você ordenou que eu aparecesse. Não especificou quando.

Todo mundo ao redor do piano aplaude e grita.

Um homem com uma peruca ridícula passa por outras pessoas para

enfiar uma nota de cinco dólares no jarro de gorjetas bem recheado.

A garçonete aponta para o copo quase vazio do músico como se

perguntasse se ele quer outra bebida.

— Absinto — responde o músico.

Olha para Andrew.

— O que deseja, ó, mago?

— Tenho uma pergunta, mas gostaria de fazê-la a sós.

— Pode perguntar! Não tem ninguém ouvindo.

Agora, todo mundo no bar se vira e olha para Andrew.

— Ichabod.

— Eu sei. As coisas nesta cidade não são mais como costumavam ser.

Amigos, podemos ter um pouco de privacidade?

Aqueles que bebiam tapam os ouvidos, ainda olhando para Andrew.

O medo de Andrew aumenta, mas então ele se lembra de que está no

controle.

Mais ou menos.

— Isso foi bom — diz ele.

— São mais fáceis de controlar quando estão bêbados. Mas você sabe

disso.

Ele toca um riff de piano.

— Faça com que parem.

— FAÇA COM QUE PAREM! — repetem todos, em coro.

— Eu estou mandando.

— EU ESTOU MANDANDO!

— Está mesmo? — pergunta o pianista.

Seu amigo começa a fazer barulho de trem com a gaita.

— Sim — diz Andrew.

A gaita faz choo como um apito de locomotiva.

O gaitista agora abaixa a gaita e também olha para Andrew.

Silêncio.

O pianista vira o chapéu com a guirlanda, volta a colocá-lo na cabeça

em posição mais firme.

— Decido interpretar “Faça com que parem” como “Faça com que

parem de viver”. É uma ordem. Quarenta almas nesta sala, incluindo o

pianista. Terei que abrir o gás.

— Isso não...

A garçonete volta trazendo um copo com um líquido verde, como

anticongelante. O pianista apanha. Acena para ela e diz:

— Quarenta e um!

— Minha vida é uma merda, mesmo — diz ela.

— Quarenta e um em uma explosão de gás em New Orleans, o bar

mais antigo dos Estados Unidos destruído. Nós dois sobreviveremos,

claro. Mas isso vai passar na CNN! — comenta o pianista.

— Não foi o que eu quis dizer e você sabe.

— Não tenho que saber o que você quer ou não dizer. Só tenho que

saber o que disse. Agora: ou você insiste e todos morrem, ou eu

desobedeço. Pode escolher.

Todos no bar, então, se ajoelham e abaixam a cabeça, com as mãos

estendidas e as palmas viradas para cima, suplicando.

— Isso é meio clássico, não? Vamos fazer algo moderno.

Todos olham para cima, entrelaçam os dedos, as lágrimas rolando

pelas faces como se estivessem presos ao mesmo sistema de irrigação.

Andrew não consegue falar.

— Diga apenas “viver” ou “morrer”. Não vou insistir no protocolo.

A mente de Andrew não para de trabalhar. Ele não consegue pensar

num jeito de sair da enrascada.

— Amigos — diz ele —, acredito que o mago tema desprender minha

coleira, mesmo que seja apenas um pouco. Se alguém tiver mais alguma

coisa a dizer, agora seria um bom momento.

As pessoas falam em coro.

 

“ANJO DA MINHA GUARDA

DOCE COMPANHIA

NÃO ME DESAMPARE

NEM DE NOITE, NEM DE DIA. ”

 

Todos os olhos encaram o mago.

O som do gás vazando surge.

Uma das velas treme.

— Viver! — diz Andrew.

O zunido para.

A vela treme de novo, espalhando muita luz, lançando a sombra do

pianista contra a parede de tijolos atrás, mas é claro que não é um

homem — tentáculos, uma lula, apenas um milésimo de segundo disso.

Agora, ele toca “Happy Days Are Here Again” no piano.

Todos os presentes trocam olhares, estendem os braços e se beijam

sem distinção, sem qualquer preocupação com idade ou sexo. Começam

a abaixar calças, levantar camisas, mostrar seios.

De joelhos, um asiático de olhos arregalados começa a acariciar a

coxa de Andrew, que se afasta e fica de pé. O asiático se aproxima de

outro casal, acaricia e é acariciado de volta.

— Devo fazer com que parem? — pergunta o pianista, sorrindo.

Andrew fala devagar, analisando cada palavra.

— Eu, Andrew Ranulf Blankenship, ordeno a você, pelas condições

de sua entrada nesta esfera e pelo poder das palavras que aqui evoco e o

colocam a meu serviço, a soltar todos os homens e todas as mulheres

que agora estão sob seu poder e a colocar todos em um estado de ação e de pensamento independente, da mesma forma que você os encontrou ao

entrar neste estabelecimento.

O pianista para de tocar.

— Muito bem.

Ergue a taça a Andrew.

Ele vai sair antes que eu consiga perguntar se a bruxa morreu

mesmo.

— Ao senhor. E ao absinto.

Ele bebe o absinto.

— Ichabod, espere...

A sala vira um borrão.

O rapaz barbudo com o chapéu-coco grita “Werewolves of London” e

o amigo o acompanha na gaita.

A entidade

é um demônio, diga logo

se foi.

Veio como quis e acabou com Andrew até ele cometer um erro.

Aproximou-se muito da liberdade.

E deu um pé na bunda do mago.

Haint não vem e não responde a mensagens posteriores.

Quando Andrew volta ao restaurante, encontra o estabelecimento

fechado e trancado.

Vai dormir entre as criptas no cemitério ao norte do Bairro Francês,

não muito longe de Marie Laveau. Vai dormir por lá, sem medo de ser

molestado: vai se tornar invisível.

Fracassando nisso, tem outros meios de defesa pessoal.

Meios muito persuasivos, de fato.

No dia seguinte, Andrew levará sua Mão da Glória e sua pergunta

não respondida à toca do coelho, de volta a Dog Neck Harbor, Nova

York.

Ao senhor.

E ao absinto.