Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 71
Andrew acorda com o barulho de Salvador latindo.
Estava tendo um sonho bem ruim em que versões malignas e
deformadas de si mesmo tentavam entrar na casa.
— O cachorro está latindo — diz ele a Sarah.
Mas não é Sarah, a carinhosa Sarah com seu cheiro de sândalo.
É uma mulher de cheiro esquisito e pés frios.
E Salvador não é mais um cachorro.
A menos que alguém tente entrar na casa.
Porque faz parte do feitiço.
Um vidro se quebra.
— Ah, merda!
Andrew e a rusalka saltam da cama.
A coisa mais parecida com isso que Andrew já viu foi em A Noite dos
Mortos-Vivos, quando os zumbis cercam a casa e entram de maneira
estúpida. Andrew não tem certeza de quantos são, mas sem dúvida estão
cercando a casa e um deles quebrou a janela na porta da cozinha.
Como quebrou a janela?
Eu enfeiticei essas janelas para que não quebrassem.
Será que exauri a magia usando outros feitiços?
A coisa está agora mexendo na maçaneta, prestes a abrir a porta.
Salvador, que voltou a ser um border collie, mas maior, quase do
tamanho de um pastor-alemão ou de um lobo, se prepara para atacar.
E se confunde.
Porque o que atravessa a porta é o seu dono.
Ou melhor, como o seu dono seria se estivesse transformado ou
levemente derretido, nu, mudo e forte. A coisa que atravessa a porta é
cheia de músculos.
Assim como as que vêm atrás.
É por isso que Salvador não viu.
O cheiro das coisas mudou.
Quando cheiravam assim, Sal não conseguia mais encontrá-las no
chão.
Como lutar com isso?
Sala de peles.
— Sal! Não sou eu! Pega, pega! — ordena Andrew. — Eles não
podem se aproximar!
Salvador derruba o primeiro, morde o braço.
O segundo dá um soco no cachorro com força suficiente para fazer
com que ele grite e solte, recuando para a sala de estar.
Andrew manda Nadia sair por onde veio, pela porta da frente, mas ela
não sai sozinha.
Pega um Andrew falso pelos cabelos e corre com ele para o lago.
O restante deles se reúne.
— Eles não podem se aproximar — diz um, de maneira desajeitada.
— Aproximar! — grita outro.
Andrew corre para dentro da sala, para dentro da sala de peles.
Enfia o polegar por baixo da própria pele, tira o zíper, com o máximo
de rapidez possível.
Que bom que você não bebe.
Você não poderia se mexer e pensar tão depressa se estivesse
embriagado.
Rápido!
Pense!
— Eles não podem se aproximar — diz alguém, batendo na porta.
Batendo forte. É uma sólida porta de carvalho, mas não vai resistir
muito.
BAM! A sala estremece.
— Eles não podem se aproximar! — diz alguém da cozinha, e muitas
coisas se quebram.
Eles estão atacando a maldita casa, rápido.
A pele sai.
Andrew normalmente não precisa fazer isso tão depressa.
Ele abre o guarda-roupa à direita.
Sabe qual.
Mas queima muito combustível mágico.
— Eles não podem se aproximar!!!
BAM!
(estremece)
— Aproximar, aproximar!
Agora, vindo da sala de estar, o som de uma luta.
Rosnando, vociferando.
Pega eles, Sal! Pega eles!
O homem descascado está prestes a colocar a pele.
É uma pele pesada.
Ele se lembra de abrir a janela.
Um aparece na frente da janela.
— Eles não podem se aproximar! — repete a coisa, partindo para
cima com tudo.
Andrew dá um passo para trás, vê aquelas unhas brilhantes, sujas de
terra, abrindo espaço.
A coisa coloca o pé para entrar, quando um braço rápido e branco
envolve seu pescoço. Os olhos se arregalam, e surge atrás da criatura um
rosto bonito emoldurado com dreadlocks ruivos, os dentes rangendo de
prazer. Ela ri enquanto corre com a coisa, maior do que ela, mas que
mais parece ser uma boneca.
Minha amiga é um monstro.
Como eu.
Andrew pega a pele de novo, está prestes a colocá-la.
Não consegue resistir enquanto tem uma boca, mas está com muita
pressa: logo vai começar a sentir a falta de pele e isso dói MUITO, e seu
corpo todo passa a ser uma ferida aberta.
Mas faz questão de dizer aquilo.
Grita pela porta.
— Quem me criou é um completo babaca!
Com a pele agora.
A sua preferida.
Ah, que bom.
Três criaturas se reuniram na sala das peles.
Uma está pisando na pele de Andrew.
Duas encurralaram Sal. Estão batendo, mas apanham de volta. A
mulher do lago afogou duas e vai atrás de uma terceira.
Uma sobe a escada.
— Quem me criou é um completo babaca! — diz uma criatura,
chutando a porta da sala de peles.
— Babaca! — grita outra, concordando.
As criaturas devem matar Andrew. Mas essa sala está vazia, só há
uma pele humana que estranhamente parece com a dele.
Na sala de estar, um cão resiste, mas foi machucado.
Uma perna quebrada.
Um deles tem uma ideia, se sacrifica, deixa o cão abrir sua barriga
para que outro possa agarrar o animal pelo pescoço.
Lutar dói, mas é melhor do que se enterrar no chão, que é a única
comparação que podem fazer.
Aquele que foi aberto está morrendo, mas continua chutando o
cachorro.
O outro está prestes a matar Sal, torcendo a cabeça.
Embora sinta que o cão já morreu antes.
Se o cachorro morrer de novo, a magia dentro dele vai sair: a outra
coisa é que não se moverá de novo.
Isso seria bom.
Mas a coisa não consegue mais sentir os braços e as pernas porque
algo a pegou pelo pescoço, certo? Certo. Algo muito mais forte do que o
cachorro quebrou seu pescoço.
A criatura vê um pedaço da coisa, consulta o saco de peles do criador.
Cachorro?
Não.
Tigre.
Tigre de bengala, nativo da Índia.
Chegam a três metros, incluindo o rabo.
Esse tem três metros.
— Quem me criou é... um completo babaca — reclama ele.
E morre.
O tigre passa pelas três criaturas na sala de peles como se elas não
fossem nada. Não são nada perto de um felino de duzentos e cinquenta
quilos, que gira suas cabeças, morde por dentro e arranca membros com
a delicadeza de uma fera selvagem e a esperteza de um homem. Demora
menos de um minuto.
É preocupante que um deles esteja com a pele de homem na mão,
mas Andrew-no-tigre pensará nisso depois.
Pensar como um homem é mais difícil no tigre: a essência do tigre é
totalmente dominante, e muito menos parecida com a do homem do que
na comparação com a pele do urso.
O Andrew-no-tigre lambe os membros, abre um bocejo grande,
enrolando a língua (afinal, a noite foi muito longa), lambe o cachorro
ferido na sala de estar, que lambe o dono de volta, e então fareja com seu
focinho de tigre.
Mais um.
No andar de cima.
Na biblioteca!
Devo matá-lo!
Livros grandes lá!
No andar de cima.
A porta da biblioteca está aberta.
O último Andrew falso está ali, sujo e nu, olhando ao redor, sem tocar
nada.
Seus olhos brilham azulados.
Não é como os outros.
Quando vê o tigre entrar, sorri.
O tigre estava prestes a se lançar naquela criatura, mas algo no sorriso
e os olhos azuis iluminados levaram a fera a parar.
Andrew-no-tigre ruge, apesar de sentir dúvida.
Como não sente desde que encontrou um elefante em 1913, o dia em
que levou um tiro.
— Parabéns — diz o Andrew falso.
A voz de Andrew, só que mais grave.
Sotaque eslavo.
O rugido do tigre prossegue, contínuo.
— Você passou no teste. Agora, a luta começa. Você é um homem
lindo. Será que é bonito demais para lutar? Bonito ou feio, saiba o que
deve esperar.
A criatura então se abaixa e, com certa dificuldade, arranca os
próprios testículos.
Começa a comê-los.
Minha nossa! NÃÃÃÃOOO!, pensa Andrew-no-tigre.
O Tigre-no-Andrew pensa Eu ia fazer isso!
O tigre corre.
Termina as coisas.
Arranca a criatura da biblioteca.
Desce a escada.
Sai.
— Ah, não — diz Andrew, olhando-se no espelho.
Mesmo no latão amarelo, consegue ver a gravidade.
— Puta que pariu.