Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 70 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 71

 

 

Andrew acorda com o barulho de Salvador latindo.

Estava tendo um sonho bem ruim em que versões malignas e

deformadas de si mesmo tentavam entrar na casa.

— O cachorro está latindo — diz ele a Sarah.

Mas não é Sarah, a carinhosa Sarah com seu cheiro de sândalo.

É uma mulher de cheiro esquisito e pés frios.

E Salvador não é mais um cachorro.

A menos que alguém tente entrar na casa.

Porque faz parte do feitiço.

Um vidro se quebra.

— Ah, merda!

Andrew e a rusalka saltam da cama.

 

A coisa mais parecida com isso que Andrew já viu foi em A Noite dos

Mortos-Vivos, quando os zumbis cercam a casa e entram de maneira

estúpida. Andrew não tem certeza de quantos são, mas sem dúvida estão

cercando a casa e um deles quebrou a janela na porta da cozinha.

Como quebrou a janela?

Eu enfeiticei essas janelas para que não quebrassem.

Será que exauri a magia usando outros feitiços?

A coisa está agora mexendo na maçaneta, prestes a abrir a porta.

Salvador, que voltou a ser um border collie, mas maior, quase do

tamanho de um pastor-alemão ou de um lobo, se prepara para atacar.

E se confunde.

Porque o que atravessa a porta é o seu dono.

Ou melhor, como o seu dono seria se estivesse transformado ou

levemente derretido, nu, mudo e forte. A coisa que atravessa a porta é

cheia de músculos.

Assim como as que vêm atrás.

É por isso que Salvador não viu.

O cheiro das coisas mudou.

Quando cheiravam assim, Sal não conseguia mais encontrá-las no

chão.

Como lutar com isso?

Sala de peles.

— Sal! Não sou eu! Pega, pega! — ordena Andrew. — Eles não

podem se aproximar!

Salvador derruba o primeiro, morde o braço.

O segundo dá um soco no cachorro com força suficiente para fazer

com que ele grite e solte, recuando para a sala de estar.

Andrew manda Nadia sair por onde veio, pela porta da frente, mas ela

não sai sozinha.

Pega um Andrew falso pelos cabelos e corre com ele para o lago.

O restante deles se reúne.

— Eles não podem se aproximar — diz um, de maneira desajeitada.

— Aproximar! — grita outro.

Andrew corre para dentro da sala, para dentro da sala de peles.

Enfia o polegar por baixo da própria pele, tira o zíper, com o máximo

de rapidez possível.

Que bom que você não bebe.

Você não poderia se mexer e pensar tão depressa se estivesse

embriagado.

Rápido!

Pense!

— Eles não podem se aproximar — diz alguém, batendo na porta.

Batendo forte. É uma sólida porta de carvalho, mas não vai resistir

muito.

BAM! A sala estremece.

— Eles não podem se aproximar! — diz alguém da cozinha, e muitas

coisas se quebram.

Eles estão atacando a maldita casa, rápido.

A pele sai.

Andrew normalmente não precisa fazer isso tão depressa.

Ele abre o guarda-roupa à direita.

Sabe qual.

Mas queima muito combustível mágico.

— Eles não podem se aproximar!!!

BAM!

(estremece)

— Aproximar, aproximar!

Agora, vindo da sala de estar, o som de uma luta.

Rosnando, vociferando.

Pega eles, Sal! Pega eles!

O homem descascado está prestes a colocar a pele.

É uma pele pesada.

Ele se lembra de abrir a janela.

Um aparece na frente da janela.

— Eles não podem se aproximar! — repete a coisa, partindo para

cima com tudo.

Andrew dá um passo para trás, vê aquelas unhas brilhantes, sujas de

terra, abrindo espaço.

A coisa coloca o pé para entrar, quando um braço rápido e branco

envolve seu pescoço. Os olhos se arregalam, e surge atrás da criatura um

rosto bonito emoldurado com dreadlocks ruivos, os dentes rangendo de

prazer. Ela ri enquanto corre com a coisa, maior do que ela, mas que

mais parece ser uma boneca.

Minha amiga é um monstro.

Como eu.

Andrew pega a pele de novo, está prestes a colocá-la.

Não consegue resistir enquanto tem uma boca, mas está com muita

pressa: logo vai começar a sentir a falta de pele e isso dói MUITO, e seu

corpo todo passa a ser uma ferida aberta.

Mas faz questão de dizer aquilo.

Grita pela porta.

— Quem me criou é um completo babaca!

Com a pele agora.

A sua preferida.

Ah, que bom.

 

Três criaturas se reuniram na sala das peles.

Uma está pisando na pele de Andrew.

Duas encurralaram Sal. Estão batendo, mas apanham de volta. A

mulher do lago afogou duas e vai atrás de uma terceira.

Uma sobe a escada.

— Quem me criou é um completo babaca! — diz uma criatura,

chutando a porta da sala de peles.

— Babaca! — grita outra, concordando.

As criaturas devem matar Andrew. Mas essa sala está vazia, só há

uma pele humana que estranhamente parece com a dele.

Na sala de estar, um cão resiste, mas foi machucado.

Uma perna quebrada.

Um deles tem uma ideia, se sacrifica, deixa o cão abrir sua barriga

para que outro possa agarrar o animal pelo pescoço.

Lutar dói, mas é melhor do que se enterrar no chão, que é a única

comparação que podem fazer.

Aquele que foi aberto está morrendo, mas continua chutando o

cachorro.

O outro está prestes a matar Sal, torcendo a cabeça.

Embora sinta que o cão já morreu antes.

Se o cachorro morrer de novo, a magia dentro dele vai sair: a outra

coisa é que não se moverá de novo.

Isso seria bom.

Mas a coisa não consegue mais sentir os braços e as pernas porque

algo a pegou pelo pescoço, certo? Certo. Algo muito mais forte do que o

cachorro quebrou seu pescoço.

A criatura vê um pedaço da coisa, consulta o saco de peles do criador.

Cachorro?

Não.

Tigre.

Tigre de bengala, nativo da Índia.

Chegam a três metros, incluindo o rabo.

Esse tem três metros.

— Quem me criou é... um completo babaca — reclama ele.

E morre.

 

O tigre passa pelas três criaturas na sala de peles como se elas não

fossem nada. Não são nada perto de um felino de duzentos e cinquenta

quilos, que gira suas cabeças, morde por dentro e arranca membros com

a delicadeza de uma fera selvagem e a esperteza de um homem. Demora

menos de um minuto.

É preocupante que um deles esteja com a pele de homem na mão,

mas Andrew-no-tigre pensará nisso depois.

Pensar como um homem é mais difícil no tigre: a essência do tigre é

totalmente dominante, e muito menos parecida com a do homem do que

na comparação com a pele do urso.

O Andrew-no-tigre lambe os membros, abre um bocejo grande,

enrolando a língua (afinal, a noite foi muito longa), lambe o cachorro

ferido na sala de estar, que lambe o dono de volta, e então fareja com seu

focinho de tigre.

Mais um.

No andar de cima.

Na biblioteca!

Devo matá-lo!

Livros grandes lá!

 

No andar de cima.

A porta da biblioteca está aberta.

O último Andrew falso está ali, sujo e nu, olhando ao redor, sem tocar

nada.

Seus olhos brilham azulados.

Não é como os outros.

Quando vê o tigre entrar, sorri.

O tigre estava prestes a se lançar naquela criatura, mas algo no sorriso

e os olhos azuis iluminados levaram a fera a parar.

Andrew-no-tigre ruge, apesar de sentir dúvida.

Como não sente desde que encontrou um elefante em 1913, o dia em

que levou um tiro.

— Parabéns — diz o Andrew falso.

A voz de Andrew, só que mais grave.

Sotaque eslavo.

O rugido do tigre prossegue, contínuo.

— Você passou no teste. Agora, a luta começa. Você é um homem

lindo. Será que é bonito demais para lutar? Bonito ou feio, saiba o que

deve esperar.

A criatura então se abaixa e, com certa dificuldade, arranca os

próprios testículos.

Começa a comê-los.

Minha nossa! NÃÃÃÃOOO!, pensa Andrew-no-tigre.

O Tigre-no-Andrew pensa Eu ia fazer isso!

O tigre corre.

Termina as coisas.

Arranca a criatura da biblioteca.

Desce a escada.

Sai.

 

— Ah, não — diz Andrew, olhando-se no espelho.

Mesmo no latão amarelo, consegue ver a gravidade.

— Puta que pariu.