Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 18 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 17

 

Anos atrás.

Noite.

Outro Mustang, o de 1965.

Capotado, com as rodas girando, o motor ligado. Andrew

desconfortável, ralado, confuso. Não consegue alcançar as chaves para

desligar o motor porque tem um galho no caminho. Led Zeppelin está

cantando sobre a Califórnia, mas parece errado porque só um alto-

falante funciona.

Ele sai no ar frio da primavera, cheirando a gasolina e óleo de

radiador.

Quase cai: há algo errado com sua perna.

Os camponeses! Os camponeses cortaram minha perna!

Ele olha para baixo, mas a perna está ali.

A maior parte dela, ao menos.

A calça jeans está rasgada e algumas partes doem, uma dor distante.

O coração dele está batendo.

Apenas respire.

Apenas caminhe.

Andrew caminha, com as costas voltadas para a vegetação, iluminada

com os faróis e as rodas do Mustang batido girando.

Ford.

First on Race Day!

(F)ucked (OR) (D)ying.

Andrew com sua bota de pele de cobra e calça jeans escura, descendo

a 104 A, sente-se tentado a parar em uma casa, mas percebe que fez algo

errado. Precisa voltar para sua casa e para Sarah. Lá estará em

segurança: vai dormir e saber o que fazer de manhã.

Como a perna esquerda dói, se senta na cerca de proteção da escada.

Tira a bota, vira o sangue de dentro, não volta a calçá-la.

Segura a bota e avança mancando, acenando para muitos carros que

param, gritando para um dos grandalhões, um cara que parece sueco,

que insiste para que ele entre na caminhonete, algo que não faz. Então

parece que o sujeito quer colocá-lo à força dentro da caminhonete. Até

Andrew apontar para o rosto do cara grande, lhe causar uma contração

nos músculos do rosto

Como é Próspero de sua parte ah isso não foi legal ele só quer

ajudar mas eu tenho que tenho que só por favor Deus ir para casa

e ver o grandalhão partir, assustado por saber que o homenzinho

maluco e ferido causou isso na sua cara. Andrew não compreende como

se sujou de lama, mas tem lama secando nos cabelos e no rosto. Remove

a sujeira, cospe na mão e limpa o rosto.

A bota pendendo na outra mão, o mago mancando.

Apenas dezesseis quilômetros até Dog Neck Harbor, ele deve chegar

de manhã.

Andrew balança a mão para mais dois carros, mas o terceiro para na

frente dele, com o teto explodindo com flashes rápidos, porém bonitos,

de luz azul.

Ele diz algumas palavras em russo medieval.

E desaparece.

Como sabe que o feitiço não vai durar muito tempo, ele vai em

direção a um campo de soja.

Invisível.

Não dirijo muito bem, mas não estou tão bêbado assim para

DESAPARECER!

Ele se enrola nas plantas, sente algo como um besouro subir por sua

mão, mas não o afasta.

Diz “Eu perdoo você” com um sotaque alemão, como Ralph Fiennes

em A Lista de Schindler, e ri até desmaiar.

Sonha que seu carro é radioativo, iluminado o suficiente para

envenenar Cayuga County, que ele precisa jogar bastante terra por cima para proteger todo mundo, mas não consegue. Simplesmente não

consegue. E ele segura a pá e grita. Porque se deu mal, muito mal.

De manhã, acorda ao ser cheirado por três cães. Um rosto bom e

enrugado, um gigante, está olhando para ele.

Fu, fu, fu, sinto cheiro de ossos russos.

— A ambulância está vindo. Quer um pouco de água?

Ele quer.

Ah, Deus, estou fodido.

Ele se fodeu.

Mais do que sabe.

Ele se senta.

Vasculha o bolso, pensando que algo ali vai ajudá-lo.

Um guardanapo com um recado nele, um semicírculo de cabernet

onde o copo foi repousado, uma lua crescente de vício e loucura.

 

Quero você na biblioteca esta noite.

Quero que me coma naquela poltrona de couro.

— S.

 

Quando enfiou isso no bolso?

É de hoje?

Sarah.

— Sente-se devagar. Sem pressa.

O fazendeiro de novo.

Ele mostra ao fazendeiro o que está escrito no guardanapo.

— Você sabe quando isso foi escrito?

O fazendeiro balança a cabeça, negando.

— Foi uma moça bonita que escreveu. Ela costuma escrever para

mim pedindo contribuições. E dizem que ela toca violão. E que ri, e que

canta — diz Andrew.

O homem sorri, aponta para a ambulância, afasta-se para falar com os

paramédicos, deixa um jarro com uma marca de tinta vermelha feita

com o polegar.

Andrew percebe o silo vermelho.

Belo trabalho, senhor.

A água tem gosto de plástico.

E de poeira.

Poeira na minha boca.

La la la la.