Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 22 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 21

 

— Existem dois tipos de usuários — comenta Andrew. — Os

labutadores e os intuitivos, também chamados de discípulos e herdeiros.

Anneke está mexendo uma moeda de um centavo. Movimentar

objetos pequenos é quase sempre como começa. Andrew avisou que ela

precisa encontrar algo que consiga movimentar três vezes por dia por

pelo menos dez minutos.

Ela escolhe a moeda.

Os dois estão no estúdio dela, aquele que Anneke usa quando o clima

não permite que o trabalho seja feito ao ar livre. Hoje, como é possível

constatar pela porta de correr de vidro, chove de modo indeciso, entre

garoa e aguaceiro. A chuva molha a vegetação lá fora, e a vegetação fica

mais linda quando coberta pelo clima cinzento.

Todos os tipos de vasos em diversos estágios de finalização enchem o

pequeno ateliê de Anneke. Dez canecas cinza-esbranquiçadas estão

viradas em uma tábua sobre uma tigela plástica cheia de argila — argila

Cedar Heights, para ser mais exato, com as letras amarelas da marca em

uma pilha de sacos vermelhos. Recostada em cima deles, uma torre para

DVD , que parecia tentar alcançar o DVD player e a televisão, no alto.

Tudo se recosta e balança aqui. Tudo está manchado, sujo ou com

marcas de argila, fosse branca ou vermelha.

Os dois controles remotos, um para a TV, o outro para o DVD, foram

envolvidos em plástico e estão marcados e sujos de argila.

Mais canecas viradas e várias xícaras de café e pires estão dispostas

sobre uma mesinha, junto com um vaso alto virado sobre uma tábua de

madeira meio precária. Havia cerca de quarenta rosetas secas sobre essa

tábua, as mesmas que, quando equipadas com pinos de latão e pintadas

de vermelho, adornaram os coletes e gibões do elenco profissional de

atores da feira medieval, para distingui-los dos entusiastas amadores e fantasiados. Desse modo, quando um lansquenete embriagado, com uma

armadura bem convincente, vomita em sua senhora, a falta da tal roseta

no peito marcará o acontecimento como não autorizado, o que vai gerar

um ressarcimento tanto para a feira quanto para a trupe de

improvisadores profissionais que animam as ruas.

— De que tipo eu sou? — pergunta ela.

Anneke queria saber se era labutadora ou intuitiva.

— Um pouco dos dois, como eu. Mas acho que mais intuitiva.

Ela franze a testa e, apesar de não desviar o olhar do exercício que faz

com a palma da mão, é claro que quer uma explicação mais profunda.

— Um intuitivo simplesmente faz, não precisa de muitas ferramentas,

consegue fazer coisas pequenas quase no ato. Como você está fazendo.

Um intuitivo é mais fulgurante e deve, de fato, ser fulgurante desde o

início.

— E um planejador?

— Labutador.

— Labutador.

— Eles odeiam essa palavra. E alguns têm um pouco de desdém e de

inveja dos intuitivos.

— Parece que você sente um pouco de desdém. Labutador é uma

palavra feia. Como eles se autodenominam?

— Discípulos é o termo que preferem usar quando se diferenciam,

mas não se intitulam assim. Eles se enxergam como disciplinados e

como aqueles que não passam a vida curvados sobre livros como

preguiçosos. A verdade é que são todos gênios. Os labutadores. Para

chegar à magia sem a fulgurância, você precisa ser esperto o bastante

para trabalhar para a Apple ou para a IBM, ou então para descobrir

códigos para a CIA. Alguns deles chegam a fazer isso, inclusive. Os

livros deles são muito mais complexos, mais como ciência espacial: tem

mais glifos e fórmulas; se bem que um labutador diria formulae. Eles

pensam na crença, abrem o código da magia e da compreensão com o

poder cerebral. Não são todos fulgurantes no começo, mas chegam lá.

Fazem uma fogueira com gravetos onde os outros já têm fogo. Mas a recompensa é que podem fazer coisas muito grandes e incríveis. Pense

nisso como aprender um idioma com livros e fitas versus nascer naquele

país. Os labutadores não fulgurantes são como falantes não nativos. Mas

o inglês era o segundo idioma de Nabokov e ele escreveu Lolita. Ou

seria seu terceiro idioma? Ele também falava francês.

— Nabokov, hein? Isso foi uma indireta?

— Para quem?

Ela ergue uma sobrancelha, sem deixar de movimentar a moeda.

— Ah, claro.

Eu me esqueci de que você é uma agressora sexual.

— Foi sem querer.

Anneke é oficialmente uma bruxa, mas uma noviça. Na primeira vez

em que ela moveu aquela moeda, Andrew sentiu um formigamento de

magia despertando. Ela caiu e chorou em seguida, mas isso era comum.

Ele também teve uma reação emotiva na primeira vez em que abriu uma

tampa. O primeiro feitiço costuma ser uma levitação leve. Mágica

simples, de fato, um pequeno grão para começar a erguer montanhas.

Ele se inclina um pouco para a frente, de modo que o fogão cônico de

ferro preto às costas dela pareça ficar sobre a cabeça da mulher, como

um chapéu de bruxa. Incenso de sândalo solta fumaça atrás dela. Ele se

inclina para o outro lado de modo que pareça sair do nariz dela.

— O que você está fazendo? — pergunta Anneke, com a

concentração abalada e Abraham Lincoln morto outra vez no cunho de

cobre da moeda em sua mão.

— Desculpe. Nada.

Ela joga a moeda dentro de uma caneca quebrada cheia de moedas,

acende um cigarro e passa outro para ele, que tira o isqueiro da mão dela

e levita o objeto até a sua.

— Exibido. Consegue acender?

— É um movimento mais preciso, precisa de mais força.

— Sim, mas você consegue?

— Queima mais gás.

Ela estreita os olhos para ele.

— A magia queima combustível. Feitiços contínuos ardem o

combustível sem parar. Ferrões no uso da mágica podem estragar esses

feitiços. Pense em um escape, a energia sai.

— Feitiços contínuos? Como o quê?

— Saúde. Juventude. Sorte. Um bom feitiço de sorte em Vegas e um

usuário podem limpar a banca. Por isso que nos cassinos da MGM

Mirage... como o Mandalay Bay e o Bellaggio... Eu me esqueço do

resto, mas tenho uma lista... eles têm usuários trabalhando para eles,

expulsando os outros. Ou fazendo coisa pior.

— Juventude, né? É um desses que você está fazendo agora, hein, sr.

Parece Ter Trinta e Cinco?

— Você deveria saber. Tente detectar.

Ela fecha os olhos.

— Abra os olhos e pense a respeito do que deseja saber.

Ela observa Andrew: olha para ele, de verdade. E então sente, sutil

como a respiração de um gato. Os pelos de seus braços se eriçam um

pouco.

— Seu filho da puta inútil. Não pode acender o isqueiro por que vai

ficar com manchas na pele?

— Sou um pouco mais forte do que isso — diz ele, sorrindo com as

mãos atrás da cabeça, enquanto o isqueiro brilha e acende. — É que

preciso me concentrar muito. É mais fácil simplesmente acender com a

mão. É como o Skype.

— Como assim?

— Skype, é...

— Eu sei o que é o Skype. Qual é a relevância?

— Eu tinha uma bola de cristal.

— Parece o título de uma música.

Ele canta.

 

“Eu tinha uma bola de cristal,

que era na verdade um aquário.”

Ele para.

— Não consegue pensar em uma rima?

— Não.

— Continue contando a história.

— Aquele negócio era meio chato. A outra pessoa tinha que ter um

copo ou algo parecido com exatamente o mesmo feitiço dentro, e os dois

precisavam se concentrar. Se alguém se distraísse, a imagem desaparecia

ou ficava distorcida. Você está prestes a perguntar se meu aquário

tocava. Sim, ele tocava. Pra valer. Estremecia quando a outra pessoa

queria falar, mas só porque coloquei um sininho nele.

— Eu ia perguntar se havia um peixe dentro, na verdade.

— Costumava ter, mas encantei ele. Não sou bom com peixes.

— Não, você é bom com carros e pessoas mortas. E você é intuitivo,

como eu. Quem é labutador?

— Conheço um. Na verdade, uma.

— Poderosa?

— Poderosa de assustar. Jovem também. Mora no Lincoln Park.

Chicago. E está trabalhando em um projeto para mim no momento.