Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Parte um
1
Isto é o que Andrew faz na reunião dos Alcoólicos Anônimos.
Ele fala quando é sua vez de falar.
Ele traduz as coisas de Deus na mente para fazer sentido para ele.
Ele se esforça para que as pessoas novas saibam que está escutando o
que elas dizem — ele incentiva o discurso quando diz: “Oi, [pessoa
nova]” e “Obrigado, [pessoa nova]”, e faz o melhor que pode para não
categorizá-las em “vai voltar” e “não vai voltar”, porque isso parece
meio maniqueísta e preto no branco demais para ele — e, se tem uma
coisa que Andrew Ranulf Blankenship não é, é preto no branco.
Ele é a imagem da visão calma de áreas cinzentas.
E se ele às vezes pensa Aquele cara só está aqui por causa do curso
de reciclagem de direção defensiva ou Ainda hoje aquela mulher vai
parar no estacionamento do Driftwood Bar and Grill e hesitar três vezes
até sair do carro e entrar com a cabeça baixa, ele se repreende depois.
Quem é você para colocar rótulos?
O que você sabe sobre as coisas, seu espertalhão?
Se visse alguém como você entrando, por acaso saberia o que
acham? Poderia haver dois de você nas redondezas dessa igreja
presbiteriana do interior? E como se sentiu quando todos olharam para
você quando entrou pela primeira vez por aquela porta? Será que
alguns não estavam pensando Provavelmente não passa de uma bicha, e
outros, Deve ser da cidade, com esse cabelo?
Não que pessoas novas cheguem com frequência ou sejam tão novas
assim. A mulher que provavelmente vai ao Driftwood compra legumes
no Orchards — Andrew já a viu com sua cabeleira ruiva meio desbotada
ao lado do filho de cabelos curtos, que puxa a manga da blusa da mãe e
resmunga como se tivesse dois anos a menos do que aparenta. Já o cara do programa de direção defensiva, ele não sabe, mas saltou do banco de
carona de um Lexus enquanto Andrew fumava com os amigos.
Volto aos fumantes daqui a pouco.
O cara da direção defensiva provavelmente encontrou a reunião em
Rochester em uma busca na internet e saiu de casa para garantir que a
parte sobre o “Anônimos” do AA seria verdade.
Parece um corretor de imóveis, talvez um vendedor de carros de uma
montadora que faliu. Deve ser um dos últimos de pé, sobrevivendo com
seu costume de beber martíni, que estendeu dos três copos, após o
trabalho, para quatro. Com certeza pensou que ia apenas receber uma
multa quando o policial jovem-o-bastante-para-ser-seu-sobrinho disse:
“O senhor andou bebendo?”. Aí o coração disparou, e ele deixou
escapar um pouco de urina na calça cáqui e experimentou o primeiro
par de algemas. Quando passarmos o cesto, ele vai dar uma de esperto
e vai dobrar a intimação de ir à reunião dentro de uma nota de dólar.
Ele vai usar uma de cinco porque quer mostrar que está bem. E então o
cesto vai voltar para ele flutuando sem nada dentro, apenas com a
intimação assinada e vai chegar a ele como um pombo-correio. Ele vai
pegar a intimação de modo modesto e guardar no bolso. Nada de
discrição. Prefiro o cara da direção defensiva que joga o papel como
uma dama para fechar no vinte e um, de modo desafiador, PRONTO, que
se foda todo mundo, fiz os PONTOS.
Estou fazendo de novo.
Mente a todo vapor, não dou a mínima.
Vamos, cara.
Então, Andrew pisca os olhos preguiçosos e ouve o porta-voz da
noite (Oi, Bob!) falando sobre humildade e, só por diversão (e exercício
— o exercício nunca deve parar), diminui as luzes presbiterianas acima
das amareladas telas presbiterianas, para antes de Bob perceber, e então
volta a torná-las mais fortes, parando antes de alguma delas estourar.
Chancho e Anneke olham para ele.
Chancho, o chefão, e Anneke-Gaita.
Com Andrew, eles formaram o trio de fumantes presente quando o
cara da direção defensiva saiu do Lexus.
Chancho olha para Andrew de um modo católico mexicano culpado
do tipo pare-de-enrolar, porque ainda que seja um Deus guero, aquela
ainda é a casa de Deus e você tem sorte por Ele não acabar com você
por ser um brujo, para começo de conversa.
Anneke, que quer ser e será uma bruja porque está aprendendo com
Andrew, olha para ele de soslaio, como se não tivesse certeza de que a
fonte daquele fenômeno fosse seu professor. Os olhos arregalados de
Andrew não revelam coisa nenhuma. Como quem não quer nada, ele
divide o coque em estilo samurai, sabendo que faz aquilo para Chancho
pensar que ele está distraído demais para mexer nas luzes e para que
Anneke saiba que ele está mexendo nas luzes.
Ela gostaria que ele fosse uma mulher.
Ele gostaria que ela gostasse de homens.
Chancho gostaria que a reunião já tivesse terminado para poder ir
para casa comer mais um prato das enchiladas moles da esposa e assistir
a uma hora de UFC na Spike.
A única reclamação específica de Andrew a respeito desse grupo é que
eles fazem mais reuniões religiosas do que o normal. Algo esperado em
um fim de mundo como aquele. Ao menos, melhor do que as sombrias
congregações religiosas e as rixas constantes entre diáconos pregadores
do apocalipse e punks relapsos e consumidores de mata-ratos.
Durante a Oração ao Senhor, de mãos dadas, apenas Anneke e
Andrew ficam em silêncio. Aliás, os dois se aproximaram por esse
agnosticismo em comum. E pelo fato de que, à exceção de Laura (Oi,
Laura!), talvez uma candidata a Miss Nova York em 1999, eles são as
duas pessoas mais empiricamente atraentes na sala, deixando de lado as
preferências sexuais desalinhadas (as dela, não as dele).