Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 2 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Parte um

 

1

 

Isto é o que Andrew faz na reunião dos Alcoólicos Anônimos.

Ele fala quando é sua vez de falar.

Ele traduz as coisas de Deus na mente para fazer sentido para ele.

Ele se esforça para que as pessoas novas saibam que está escutando o

que elas dizem — ele incentiva o discurso quando diz: “Oi, [pessoa

nova]” e “Obrigado, [pessoa nova]”, e faz o melhor que pode para não

categorizá-las em “vai voltar” e “não vai voltar”, porque isso parece

meio maniqueísta e preto no branco demais para ele — e, se tem uma

coisa que Andrew Ranulf Blankenship não é, é preto no branco.

Ele é a imagem da visão calma de áreas cinzentas.

E se ele às vezes pensa Aquele cara só está aqui por causa do curso

de reciclagem de direção defensiva ou Ainda hoje aquela mulher vai

parar no estacionamento do Driftwood Bar and Grill e hesitar três vezes

até sair do carro e entrar com a cabeça baixa, ele se repreende depois.

Quem é você para colocar rótulos?

O que você sabe sobre as coisas, seu espertalhão?

Se visse alguém como você entrando, por acaso saberia o que

acham? Poderia haver dois de você nas redondezas dessa igreja

presbiteriana do interior? E como se sentiu quando todos olharam para

você quando entrou pela primeira vez por aquela porta? Será que

alguns não estavam pensando Provavelmente não passa de uma bicha, e

outros, Deve ser da cidade, com esse cabelo?

Não que pessoas novas cheguem com frequência ou sejam tão novas

assim. A mulher que provavelmente vai ao Driftwood compra legumes

no Orchards — Andrew já a viu com sua cabeleira ruiva meio desbotada

ao lado do filho de cabelos curtos, que puxa a manga da blusa da mãe e

resmunga como se tivesse dois anos a menos do que aparenta. Já o cara do programa de direção defensiva, ele não sabe, mas saltou do banco de

carona de um Lexus enquanto Andrew fumava com os amigos.

Volto aos fumantes daqui a pouco.

O cara da direção defensiva provavelmente encontrou a reunião em

Rochester em uma busca na internet e saiu de casa para garantir que a

parte sobre o “Anônimos” do AA seria verdade.

Parece um corretor de imóveis, talvez um vendedor de carros de uma

montadora que faliu. Deve ser um dos últimos de pé, sobrevivendo com

seu costume de beber martíni, que estendeu dos três copos, após o

trabalho, para quatro. Com certeza pensou que ia apenas receber uma

multa quando o policial jovem-o-bastante-para-ser-seu-sobrinho disse:

“O senhor andou bebendo?”. Aí o coração disparou, e ele deixou

escapar um pouco de urina na calça cáqui e experimentou o primeiro

par de algemas. Quando passarmos o cesto, ele vai dar uma de esperto

e vai dobrar a intimação de ir à reunião dentro de uma nota de dólar.

Ele vai usar uma de cinco porque quer mostrar que está bem. E então o

cesto vai voltar para ele flutuando sem nada dentro, apenas com a

intimação assinada e vai chegar a ele como um pombo-correio. Ele vai

pegar a intimação de modo modesto e guardar no bolso. Nada de

discrição. Prefiro o cara da direção defensiva que joga o papel como

uma dama para fechar no vinte e um, de modo desafiador, PRONTO, que

se foda todo mundo, fiz os PONTOS.

Estou fazendo de novo.

Mente a todo vapor, não dou a mínima.

Vamos, cara.

Então, Andrew pisca os olhos preguiçosos e ouve o porta-voz da

noite (Oi, Bob!) falando sobre humildade e, só por diversão (e exercício

— o exercício nunca deve parar), diminui as luzes presbiterianas acima

das amareladas telas presbiterianas, para antes de Bob perceber, e então

volta a torná-las mais fortes, parando antes de alguma delas estourar.

Chancho e Anneke olham para ele.

Chancho, o chefão, e Anneke-Gaita.

Com Andrew, eles formaram o trio de fumantes presente quando o

cara da direção defensiva saiu do Lexus.

Chancho olha para Andrew de um modo católico mexicano culpado

do tipo pare-de-enrolar, porque ainda que seja um Deus guero, aquela

ainda é a casa de Deus e você tem sorte por Ele não acabar com você

por ser um brujo, para começo de conversa.

Anneke, que quer ser e será uma bruja porque está aprendendo com

Andrew, olha para ele de soslaio, como se não tivesse certeza de que a

fonte daquele fenômeno fosse seu professor. Os olhos arregalados de

Andrew não revelam coisa nenhuma. Como quem não quer nada, ele

divide o coque em estilo samurai, sabendo que faz aquilo para Chancho

pensar que ele está distraído demais para mexer nas luzes e para que

Anneke saiba que ele está mexendo nas luzes.

Ela gostaria que ele fosse uma mulher.

Ele gostaria que ela gostasse de homens.

Chancho gostaria que a reunião já tivesse terminado para poder ir

para casa comer mais um prato das enchiladas moles da esposa e assistir

a uma hora de UFC na Spike.

 

A única reclamação específica de Andrew a respeito desse grupo é que

eles fazem mais reuniões religiosas do que o normal. Algo esperado em

um fim de mundo como aquele. Ao menos, melhor do que as sombrias

congregações religiosas e as rixas constantes entre diáconos pregadores

do apocalipse e punks relapsos e consumidores de mata-ratos.

Durante a Oração ao Senhor, de mãos dadas, apenas Anneke e

Andrew ficam em silêncio. Aliás, os dois se aproximaram por esse

agnosticismo em comum. E pelo fato de que, à exceção de Laura (Oi,

Laura!), talvez uma candidata a Miss Nova York em 1999, eles são as

duas pessoas mais empiricamente atraentes na sala, deixando de lado as

preferências sexuais desalinhadas (as dela, não as dele).