Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 26
— Ele ainda está vivo?
— Não.
Silêncio.
— Ele te ensinou o que você está fazendo agora? Comigo?
— Sim — responde Andrew.
— Tenho certeza de que você pensou em tentar isso com ele.
— Ele me pediu para não fazer isso.
— Por quê?
— Não disse o motivo.
E ainda assim eu faço com você.
Bill assente, pensativo. E então diz:
— Tem mais coisa, não tem? Você não está apenas sozinho. Está com
medo.
— Sim.
— E esse medo faz você sentir falta de John Barleycorn.
— Está mais para Gilbert Grape para mim, mas sim.
Ele não vai conhecer essa referência.
— Fico feliz que tenha me procurado.
— Mesmo?
— Fico, sim.
— Você é mesmo você, não é, Bill?
— Não sei responder a isso.
Bill seca os olhos de novo.
Quantos alcoólatras gostariam de conseguir fazer isso? Que dariam
qualquer coisa por essa chance? Conversar com ELE. Agradecer a ELE
pessoalmente. Por que é justo que eu guarde isso para mim? E se eu
deixar Anneke vê-lo, o que é? Estarei me exibindo? Devo deixá-lo ir.
Queimar essa fita.
— Andy.
Mas ele me chama de Andy.
— Sim?
— Não me mande de volta ainda.
Andrew ergue as sobrancelhas em vez de perguntar por quê.
Bill W. diz:
— Da próxima vez que eu acordar... conversar... estarei conversando
com você. Sou sempre o mesmo, mas você... estou um pouco
preocupado a respeito do que você terá para me dizer quando voltarmos
a nos ver. Há uma nuvem pairando sobre você.
— Uma nuvem?
— Não sei como dizer isso. Só que... fique aqui comigo por um
minuto. Tem música aqui?
— Música?
— Sabe... um fonógrafo?
— Tem música.
— Toque alguma coisa. Por favor.
Andrew vai até o rádio.
Liga o rádio por satélite.
Liga o canal dos anos 1940, em alto e bom som.
Bill W. fecha os olhos, inclina-se em direção à tela.
Mexe a cabeça no ritmo da música, com sutileza, fazendo Andrew
pensar em uma cobra saindo do cesto para um encantador de serpentes.
Agora Andrew chora.
— Aí vem ele — diz Bill, com os olhos ainda fechados.
E, então, ele abre os olhos repentinamente, com força, e diz:
— Você é quem precisava da música. É um catalisador para seus
sentimentos, como a bebida costumava ser. Desligue-me quando quiser,
filho. Está tudo bem.