Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 20 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 19

 

Andrew prende os cabelos em um rabo de cavalo para trabalhar no

quintal na casa de Zautke porque se sente afeminado demais com o

coque de samurai. Caminha atrás do cortador tentando dar a impressão

de que sabe o que está fazendo, passando do meio-fio à não mencionada

casa azul, dando a volta pelo bebedouro de pedra, avançando pelo

mastro da bandeira. No entanto, como Salvador tem cortado a grama do

quintal nos últimos anos, os pés de Andrew não estão acostumados a

fazer as voltas, e ele deixa pequenos tufos de grama, que precisa refazer.

Andrew olha para a metade da frente do quintal e acha graça, porque

parece um pouco com o corte de cabelo estilo militar de Karl.

Karl o observa da varanda por um segundo.

Quer gritar “Precisa de alguma coisa?” para o estranho amigo que sua

filha conheceu no AA, mas sabe que o cara está na mesma situação de

Anneke e tudo o que Karl tem além de cerveja é suco de laranja barato

meio marrom ou água da torneira meio limpa, água com gosto de... do

que a água aqui tem gosto?

Não é gosto de água.

Maldita Niagara Mohawk.

Karl Zautke não tem se sentindo muito bem ultimamente, suas

glândulas linfáticas estão inchadas como bolotas e ele anda sem fôlego.

Não está tão mal a ponto de ir para o hospital, mas mal o bastante para

que Anneke faça visitas dia sim, dia não, e não mais duas vezes por

semana, como antes.

Ela cuida da louça suja, faz comida para duas semanas, lava as roupas

azedas do pai.

Mas ele tenta cuidar da saúde frágil?

Karl bebe sua Pabst Blue Ribbon, aproveitando o sabor frio de levedo

gaseificado na língua. É uma cerveja boa e simples para quando a sede vem, não uma daquelas misturas perfumadas cheias de frescura feitas

por caras com costeletas.

Anneke está usando grandes luvas de camurça, equilibrada em cima

de uma escada de alumínio que já teve dias melhores, arrancando do

bordo galhos que tinham começado a encostar nas calhas do lado oeste

da casa. Ela cambaleia um pouco e se equilibra. Karl vê isso, repousa

sua cerveja e segura a escada

— Papai! — grita ela, alto o bastante para que a voz consiga se

sobrepor ao som do cortador.

Aponta o dedo com luva para a porta da frente, dando a entender que

ele deveria retomar seu lugar na cadeira. No entanto, Karl segura a

escada com teimosia, respirando forte pelo nariz e sorrindo para ela, que

não gosta de ver como o rosto dele está vermelho.

A escada parece mais robusta.

Se tem uma coisa que Karl Ernest Zautke é, é robusto.

 

Os três se sentam na varanda, e Karl seca a cabeça de vez em quando

com um pano de prato. Karl Zautke é só um pouco grande demais para a

cadeira em que está sentado. Andrew tem observado a cadeira cair em

câmera lenta há um ano e meio. Anneke daria ao pai uma nova, mas

sabe que Karl considera as coisas meio arruinadas mais confortáveis.

Papai.

O mesmo papai, mas velho agora.

Doente.

Não bebe como se fosse doente.

O papai está na terceira cerveja e Anneke promete a si mesma que vai

arrancar a próxima lata da mão dele assim que ousar abri-la na frente

dela.

Karl percebe que está na última cerveja da qual sairá impune e sabe

que não deve testar a filha. Acomoda-se em seu trono.

Andrew se sente inadequado sentado na cadeira dobrável, dividindo a

varanda com dois teutões grandes, como um visitante de uma pequena tribo mestiça de bons ossos que corta a grama do colonizador e busca

cervejas para ele apesar da proibição do médico.

Como Anneke e ele não podem compartilhar suas gracinhas diante de

Karl, Andrew se limita ao lado prático.

Karl não se sente à vontade falando sobre sua doença ou os

problemas do dia a dia que enfrenta por causa dela na frente de Andrew.

Anneke gosta de ver seus homens preferidos juntos: se os dois não

sabem se relacionar, problema deles.

— O carro está rodando normal? — pergunta Andrew.

Karl dirige um Jeep Cherokee. Andrew lançou um feitiço para

impedir que o carro desse defeito e outro para que parasse com

segurança caso o motorista desmaiasse. O mago tem um grande talento

para cuidar de carros, sabe improvisar a magia automotiva, mexendo em

eixos e chassis, caprichando nas engrenagens e na pintura. Sabe muito

bem que o jipe está funcionando sem problemas, mas nunca encontra o

que dizer ao ex-piloto de submarino.

— Sim, perfeito — diz Karl. — Obrigado de novo por trocar o óleo.

— Foi um prazer.

Dois segundos se passam.

— O Mustang está bom? — diz Karl, indicando o carro de Andrew.

— Sim, senhor.

— Com certeza é um belo carro.

— Obrigado.

— Turquesa foi uma escolha interessante.

— Já veio assim.

— As pinturas são caras.

— Podem ser.

Mais dois segundos.

— Você precisa de um suco ou talvez de um copo d’água? Deve estar

com sede. Está muito quente aqui fora.

Não está tão quente assim.

— Eu aceito uma água.

Os dois homens começam a se levantar, mas Anneke pousa a mão

com delicadeza no ombro do pai, para que ele continue sentado.

Ela vai buscar a água.

— E então — começa Karl, olhando para a porta para ter certeza de

que Anneke ainda não está vindo. Quando se aproxima para perguntar

alguma coisa esquisita, Andrew sente a pele se arrepiar.

Como ele consegue fazer com que eu me sinta com doze anos e com a

língua presa?

— Sim, senhor?

Mais uma vez com o senhor.

Esse cara não usa senhor com ninguém, aposto.

Sabe que eu fui da Marinha e quer me agradar.

Caramba, ele tem uns quarenta anos, mantém os cabelos compridos

para ficar parecido com a Pocahontas. Provavelmente usa graxa nos

cabelos.

Provavelmente também usa hidratante e faz a sobrancelha.

Passa um dia no spa de Syracuse.

Consigo ver esse cara fazendo as unhas dos pés.

Quero gostar dele, até quero.

Anneke passa bastante tempo com ele.

Um cara e uma moça não passam tanto tempo juntos assim sem.

Será que ele é?

Meio que torço para que seja.

— Você e Anneke...?

— Senhor?

De jeito nenhum.

Um cara como esse.

A menos que ela goste dele porque o sujeito se parece um pouco com

uma garota.

Nem sei se as coisas são assim.

Merda, lá vem ela.

— Vocês vão ficar para o jantar?

Anneke entrega a água a Andrew, em um copo com girassóis

desbotados pintados, o último do conjunto de oito peças de sua infância.

— Você sabe que vamos, papai.

Mas só Anneke passa a noite.