Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 30 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 29

 

Ele se vira — parece que está virando o corpo, mas acredita que é assim

que explica a si mesmo — e olha para Anneke. Quer encostar o nariz na

orelha dela e sentir seu cheiro levemente apimentado, mas a parte dele

que quer fazer isso não tem nariz. O pescoço dela é bronzeado e

adorável, e os olhos dela brilham com curiosidade e preocupação

quando olha para o corpo dele. Andrew vê

com que olhos?

os pelos finos da face dela, a leve pulsação das têmporas, sente o

ritmo daquele coração. Ele se aproxima, quase misturando-se a ela, e

começa a sentir que está adiando o que teme fazer. Mas é tão bom estar

perto dela. É assim que é ser fantasma? Não... ele ainda está ligado a seu

corpo. Tenta sentir o cheiro dela, ouve

com que ouvidos?

os próprios pulmões se encherem de onde está deitado no sofá, acha

que pode sentir o cheiro dela agora. Anneke. Ela sorri um pouco, olha

para ele, comprime os lábios tentando controlar o sorriso, então ele

segue o olhar dela e entende o motivo.

Está tendo uma ereção que pressiona o zíper da calça jeans

desbotada.

Ah, que ótimo.

Incrível.

Andrew sente vontade de se cobrir e agora suas mãos obedecem ao

impulso, o rosto fica corado, uma linha de preocupação em sua testa

meio adormecida. Anneke morde a falange para não rir, mas o riso se

acumula dentro dela. Andrew-no-sofá agora vira o corpo para ficar de

costas para ela, rosna involuntariamente como um urso frustrado.

Anneke também se vira e o riso escapa do controle. Ela pega e enfia

um cigarro na boca, mas não acende.

— Digamos — sussurra ela entre os risos — que posso acender isso

mesmo que você esteja voando por aí, certo? Você não é inflamável nem

nada. Tipo metano?

Ela ri tanto que está prestes a chorar.

— Socorro! Meu amigo se transformou em um peido e eu o queimei!

Ele ri ao lado dela, com a barriga sacudindo, deitado no sofá. Estica

com que mão?

e tenta acender o cigarro dela, tremendo.

Ela se afasta ainda mais do sofá, passa através de Andrew que, quase

contra sua vontade, aceita ser arrastado dentro dela.

Ele nunca sentiu nada como aquilo — é elétrico, delicioso... parece

caramelo. Percebe que se permanecer ali logo sentirá a pele dela,

moverá seus membros,

e o que acontecerá com Anneke?

mas isso dura só um instante — ele sai dela.

E a sensação do empurrar faz com que ele se lembre de algo do

texto... o empurrar pode ser mudado para que aconteça entrando no

corpo. Se você empurrar enquanto entra, pode libertar totalmente a

outra alma, que morre. Se você tentar e não conseguir, se não acreditar,

você morrerá.

 

Anneke só consegue sentir um flash de apatia, como se seu coração

tivesse parado por um instante, e ela entende o que aconteceu. Seu riso

morre como um vento que cessa. Estremece. O medo pisca em seu olho,

ela se vira, como sempre acontece com ela, curiosa. Anneke se vira para

onde pensa que ele está e, como se tivesse ousado falar sem conseguir se

controlar, diz:

— Faça de novo.

Ela seca uma lágrima de riso do canto do olho.

— Faça de novo, quero que faça — diz ela, e desce os olhos pelo

corpo dele. Ele balança a cabeça com suavidade, recusando-se.

Ela acende o cigarro.