Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 74
Vermont.
Anneke se agacha como uma rã, tocando as folhas do bordo que
acabou de petrificar.
— Preciso descansar — diz ela.
A cabeça dói e ela está nauseada: a árvore lutou com toda a seiva,
toda a clorofila e todo o bom senso não verbal contra a coisa não natural
que Anneke estava fazendo. É como discutir com alguém sabendo que o
argumento está errado, mas ganhar injustamente porque foi mais
insinuante na discussão e desgastou o oponente. Anneke torceu as partes
vibrantes e suculentas com uma mão feia e forte que nem sabia que
tinha, e agora está diante da árvore branca, pálida e morta. Algo ainda
belo, mas belo porque impossível: nenhum escultor poderia entalhar ou
modelar folhas tão finas e perfeitas de granito. Enquanto Anneke pensa
isso, uma folha cai do galho.
É belo, pensa.
Isso poderia ser vendido por vinte mil.
Michael só olha para ela, sentado em sua cadeira de acampamento,
bebendo café. A aula acontece em uma parte da floresta entre a casa da
fazenda e a pedreira.
Esse maldito velho não vai me deixar descansar.
Michael flagra Anneke olhando para ele e apenas assente para a
árvore.
— Não me sinto muito bem — comenta ela.
— Você não tem que se sentir bem mesmo. Acabou de burlar as leis
da natureza. Agora, conserte.
Ela engole o sapo.
Leis da natureza burladas cercam os dois: Michael Rudnick parece
viver em uma casa de campo antiga da Nova Inglaterra perto de uma velha pedreira, mas ele vive na pedreira. Uma cobertura perfeita de
granito com vinhas protege um antigo trailer Airstream. Colunas dóricas
nos moldes daquelas que sustentam o templo ateniense de Efesto
parecem manter a estrutura, e paredes de pedra de diversas alturas
dividem o espaço, com nichos e alcovas com lamparinas a óleo que não
se apagam à noite. Bancos de pedra e cadeiras cercam uma fogueira
grande com uma chaminé no formato da boca aberta de uma pessoa
inalando fumaça. Não dá para saber como o trailer foi colocado ali ou
como pode sair. As escadas de pedra levam a uma abertura por baixo da
estrutura. E outro conjunto leva à água.
No lago em forma de trapézio que se formou na parte de baixo da
pedreira submergem uma escultura grande e um jardim de ciprestes: um
elefante de granito jorra água com a tromba erguida, gigantes ciclópicos,
como Atlas, se curvam sob os jardins, que aparecem em meio às pedras,
e um querubim com expressão travessa se abaixa em um pedestal acima
da linha da água, com uma pedra na mão e a postura de um
arremessador de beisebol, uma pilha de outras pedras como aquela a
seus pés. Parece estar olhando os degraus. As pedras são do tamanho de
bolas de vôlei. Coisas desagradáveis acontecem a quem se aproxima da
caverna de Michael com ideias desagradáveis.
Anneke olha para a árvore de pedra.
Sente o eco da vida desaparecida, sente como o bordo ficou surpreso
ao se ver tão violado, afastado da água, apático à luz do sol. Morto.
Quando Anneke toca o tronco, sente sua ausência.
— Devolva a vida à árvore.
Ela tenta.
— Veja acontecer.
Ela imagina o vento soprando pelas folhas.
Nada acontece.
— Não é como mover pedras — diz ela.
— Não. É intimista.
Ela tenta.
A cabeça lateja.
— Por que não há escolas para isso? — pergunta. — Harry Potter, e
coisa e tal.
Ele se limita a lançar um olhar para ela.
— Há?
— Você está em uma.
— Não, estou falando de uma grande. Como uma universidade.
Ele balança a cabeça.
— A mágica é algo artesanal. Você aprende. Uma por vez. Você
também ensinará a alguém, um dia. Você vai ter que me prometer antes
de sair daqui.
— Alguém deve ter uma escola.
— Acontecem oficinas em universidades de verdade. De maneira
complementar, velada. O Antioch College em Yellow Springs é um bom
exemplo. Havia três usuários na faculdade, certa vez. Eles faziam com
que os alunos a quem queriam ensinar mágica se inscrevessem nas
cadeiras que estavam lecionando.
Ela se lembra de como foi embaraçosa sua chegada àquela cidade,
como mergulhou para dentro da banheira, tomou um porre e se atirou
em uma privada.
— Andrew estudou lá?
Michael assente.
— Estudou russo. E outras coisas mais.
— Continuo sem entender por que não há algo grande.
— Volta e meia isso é debatido. Mas todo mundo tem medo. Três é o
número máximo de usuários que devem ser reunidos em um mesmo
lugar ao mesmo tempo.
— Por quê?
— Algo muda.
— Então ninguém nunca tentou criar uma universidade grande só
para isso?
— Escolas foram abertas. Algumas vezes.
— O que aconteceu? — pergunta ela, tocando as folhas das árvores
mortas de modo distraído.
— Coisas diferentes.
— Ruins?
— Poderíamos dizer que sim.
— Me conte.
— A mais bem-sucedida ficava na Inglaterra e teve início nos anos
1580. Oculta mas bem fácil de achar. Às margens do Tâmisa, em
Deptford, que na época não fazia parte de Londres. Fez coisas
importantes. Você sabia que a Espanha nunca conseguiu invadir a
Inglaterra com sua armada? Não foi só uma vez. Os espanhóis tentaram
em três ocasiões e foram atrapalhados por tempestades em todas. Isso
não foi acidente.
— E depois?
— Os usuários acabaram se matando. Os sobreviventes determinaram
que muitos usuários juntos deixam a coisa sombria. Concordaram em se
separar.
Agora, ela só olha para ele. Tem mais, e Anneke quer ouvir.
— A última grande foi na França, fora de Paris. Entre as guerras. Uns
dez usuários, trinta e poucos alunos. Trocaram juras de fraternidade,
tornaram a lealdade e a amizade mais importantes do que a magia,
afastaram quem parecia ganancioso. Se autointitularam a Ordem do
Pato. Eu vi fotos. Muito bonitinhos com as calças curtas e as meias
compridas, até mesmo boinas e baguetes, como manda o estereótipo.
— E então?
— Algo veio e matou todos.
— Um demônio?
— Mais ou menos. Hitler.
Ela franze o rosto.
— Eles não podiam lutar ou se esconder?
— Não podiam lutar contra um exército. E é difícil se esconder de
outros usuários.
— Hitler tinha usuários?
Ele olha para ela.
Ela se lembra de uma foto de Adolf Hitler cercado por adoradores de
olhos arregalados, todos meio malucos. Hitler calmo no meio da
tempestade de loucura. Eles estavam olhando para ele como se
estivessem à procura de algo, algo em suas palavras e olhos, algo que
apenas ele podia dar. Estavam viciados nele.
— Ai, meu Deus — diz ela. — Ele era um.
Michael assente.
— Apenas os muito iluminados conseguiam escapar do encanto, mas
aquelas fitas em que ele gritava em alemão? Ouvi todas elas. Não é
alemão. Não é uma linguagem humana. Alguma coisa ensinou a ele
aquelas palavras. Algo que ele criou. E só dá para ouvir por um
momento, porque começa a mexer com você, começa a parecer alemão.
E, se você fala alemão, começa a parecer verdade.
Ela fica pálida.
E se pergunta onde foi se enfiar.
E se pergunta se quer saber essas coisas.
Acha que é tarde demais.
— Não se preocupe — diz ele. — Nem tudo é uma merda. Agora,
conserte a árvore.
Ela olha para uma folha de pedra.
Puxa. Segura a folha pelo cabinho, contra o sol. Uma luz fina passa
por ela, iluminando veias e capilares. Seria quase possível se depilar
com as pontas.
Ela vai precisar recitar uma palavra.
Grego antigo é melhor para uma pedra.
— Pneuma — diz ela.
— Ezasa — diz ela.
A folha gostou mais de pneuma.
A folha estremece.
Anneke se concentra na parte que brilha com o sol por trás, vê o
brilho se tornando verde-opaco.
— Pneuma — repete e sopra, como se atiçando o fogo.
O verde brilha onde seu hálito tocou a folha, começa a passar para as
bordas como o fogo se espalharia no papel.
— Ah! Ah!
A folha é quase uma folha outra vez.
— Depressa — diz ele.
Ela compreende.
Ela toca a folha para o resto da árvore, observa o verde ganhar vida,
se espalhar. Sopra como faria para atiçar, observa passar de folha a
folha, reavivando até finalmente a árvore tremer na brisa de novo, até a
última folha voltar à vida. Existe de novo. Não estava ali, mas estava.
Como seu pai tinha estado ali e então partiu, no tempo de uma
respiração.