Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 62
O sonho é o mesmo sonho.
Sempre o mesmo sonho.
O sonho soviético.
Ele volta a ter vinte e três anos, arrogante, forte, bonito como uma
garota, irresistível a mulheres de qualquer lugar. Ele passa com
facilidade pela Rússia soviética, usando magia para superar a burocracia,
inteligente em alguns pontos, mas fria. Secular. Incapaz de permitir o
impossível. Está jogando xadrez com adversários que não conseguem
ver todas as peças, que conseguiriam derrotá-lo se tivessem pensado na
hipótese de que talvez não pudessem ver todas as peças.
Os documentos de Andrew dizem que ele é um cidadão soviético.
A magia lhe confere um russo impecável.
A magia faz brotar respostas perfeitas em seus lábios.
Ele é leve demais para a polícia.
É esperto demais para a KGB.
Ele está à procura de livros mágicos raros, tesouros perdidos desde a
época dos czares.
“De todos os livros de feitiços e antiguidades que existem, vistos por
testemunhas confiáveis ou mencionados em outros trabalhos, apenas
25% deles, aproximadamente, estão em mãos conhecidas”, dissera seu
mentor. Ao ouvir falar sobre livros mágicos, Andrew permaneceu como
um gato diante de uma lata de sardinhas. “Do resto, continua se
acreditando que uma quantidade desproporcional se acumulou onde
atualmente fica a União Soviética. Alguns se escondem à vista, sem
dúvida, esperando em livrarias pela primeira pessoa iluminada que fará
a compra por menos de um dólar americano. A maioria será reunida e
arquivada.”
“Por quem?”
“Não sabemos. Diversos usuários, ainda mais bem escondidos que os
ocidentais e talvez mais poderosos. Conheço um homem, um belga, que
foi para Leningrado em 1973 e voltou com um livro sobre viagem
subaquática, um pouco redundante na era do mergulho, mas mesmo
assim válido. Também conheci um casal que foi para o Volga e não
voltou. O Volga reúne provavelmente a maior parte dos exemplares.”
“Quando eles foram?”
“Em 1975? Jesus, três anos atrás. Vi os dois se casando um ano
antes.”
Agora, no sonho de 1983, Andrew deixou a cidade natal de Gorki, na
região do Volga, e foi de trem e ônibus para o interior, pegando caronas
em caminhões de agricultores, em zaporojets, aqueles carros soviéticos
baratos, e até mesmo em um trenó com barris de leite.
E então.
E então.
Andrew tinha passado o dia pedindo carona, com relativo sucesso.
Ele percebe que não come há um tempão e está faminto apenas
quando se vê olhando para uma cena do século XIX.
Dois homens de camisa folgada, colete de lã e calça marrom estão
cortando a grama alta com foice, como se tivessem saído de Um
Violinista no Telhado. Estão trabalhando na lateral de um monte, de
cima para baixo, com o céu azul-claro acima de suas cabeças, um
murmurando para manter o ritmo, o mais jovem balançando sem tanto
vigor, apanhando da foice, cansado. Talvez dezesseis anos.
— Estou vendo que trata a grama como um inimigo, Lyosha — diz o
homem mais velho por baixo do bigode digno de um czar. — Isso não
vai dar certo. Trate-a como uma amiga. Mostre que você só quer colocá-
la para deitar e descansar.
Ele volta a sussurrar uma canção, mas o rapaz continua cortando a
grama e suando, parando por um momento para secar a testa com o
boné.
— Chame o idiota do seu irmão e veja se ele consegue mostrar como
fazer isso.
— Ele não vai vir, tio. Ele está no fogão.
— Chame mesmo assim.
— Ivan! — grita o garoto.
Andrew continua descendo pelo caminho, de olho para ver se
encontra uma possível carona. Mas aquilo.
Aquilo é outra coisa.
Ele começa a andar mais devagar porque quer ver como aquele idílio
vai acabar. Eles ainda fazem irmãos idiotas que gostam de ficar no fogão
na Rússia da Guerra Fria?
Claro que sim. O homem grande que sobe o monte e desce em
direção aos outros dois tem o olho meio puxado, característico da
síndrome de Down, e respira pela boca enquanto diz:
— O que você quer? Eu estava pegando moscas.
— Você não pegou mosca nenhuma, a não ser que elas tenham
aterrissado na sua boca — diz o homem de bigode. — Agora mostre ao
seu irmão como um homem corta grama.
O rapaz entrega a foice ao irmão e Ivan começa a capinar a grama
como um louco, cortando tufos e tufos a cada golpe, rindo. Em pouco
tempo, o irmão pega um punhado de grama e joga em Ivan, saindo do
caminho antes de a lâmina da foice descer de novo. Aquilo se torna um
jogo. O homem mais velho larga a foice e participa da brincadeira,
acertando grama no camponês que ri e se afasta da lâmina.
Andrew agora precisa virar a cabeça para observar, por isso para de
andar e escorrega a mochila pelos braços. Acende um cigarro soviético
de modo que não pareça ser enxerido, apenas um homem descansando e
fumando. Senta-se sobre o saco grande de lona que estava carregando.
Um bando de pardais passa por ali, pousa brevemente na estrada
perto dele e parte de novo.
E então.
Acontece.
O mais novo assume mais e mais riscos com a foice, esquecendo-se
de jogar grama, pulando como um cossaco enquanto o tio aplaude e
grita. Andrew sabe o que vai acontecer um instante antes de acontecer:
finalmente, o irmão idiota se balança mais depressa do que o previsto
pelo outro e corta a perna do jovem acrobático.
Ela cai logo abaixo do joelho.
Ele cai na grama com uma cara assustada.
Seu rosto está muito pálido!
A boca escancarada!
A boca de Andrew também está aberta, com o cigarro preso no lábio
inferior.
O garoto ferido urra de dor. O homem mais velho vai até ele.
O idiota permanece olhando boquiaberto, uma linha comprida de
baba chegando até a grama.
O estado de paralisia de Andrew passa e ele sussurra:
— Jesus.
O garoto fica calado.
O tio está retirando o cinto para amarrar a perna do rapaz, mas se
detém e vira a cabeça na direção de Andrew. O irmão idiota olha para
ele também. O garoto está sentado, segurando o toco ensanguentado,
mais preocupado com Andrew do que com o sangue jorrando pelos
dedos.
— Posso ajudar? — pergunta Andrew em um russo bem falado, mas
com sotaque, seu próprio russo, russo que fede a Ohio.
Então caminha em direção a eles, com as mãos abertas em um gesto
universal para mostrar que é inofensivo.
Nem sequer percebe que seu encanto de fluência falhou.
Os três olham para Andrew estreitando os olhos, com suspeita. Na
verdade, eles têm um olhar tão malvado que Andrew para de andar na
direção do trio. Não tem certeza de que aquilo é o que parece ser.
E, então, percebe.
Magia.
Faz tanto tempo que não sente a magia que agora está cego.
Ele não viu as peças.
O medo desperta dentro dele.
Isso pode ser ruim.
Isso pode ser muito ruim.
— Posso ajudar? — repete o tio, imitando o sotaque americano de
Andrew. — Quem poderia impedir isso?
Ele faz um gesto para a perna ensanguentada do garoto.
— Ou isso? — continua, apontando para o irmão idiota, que leva a
foice para trás.
Ele, então, corta a cabeça do tio.
Ah puta merda merda merda
As pernas de Andrew enfraquecem de medo.
Ele começa a se afastar num ritmo mais do que tranquilo, ainda que
se veja incapaz de deixar de olhar para a cena no campo.
Agora, o grande idiota se inclina, com as pernas abertas, o rego
aparecendo sob a camisa curta demais. Apanha com delicadeza o boné
da cabeça do tio para poder pegar seus cabelos e levanta a cabeça, os
olhos brancos e rolados para trás que voltam ao lugar.
E se fixam em Andrew.
A alguns metros, o corpo do tio está sentado.
E então se levanta, com o sangue jorrando.
Pega o cinto com as duas mãos e solta.
— Agora você quer ajudar? Jesus Cristo quer ajudar? — pergunta a
cabeça na mão enorme do idiota, cuspindo um monte de sangue
brilhante.
O idiota pega a foice com a outra mão e começa a caminhar na
direção de Andrew.
— Acho que ele quer ouvir inglês americano, tio — diz o garoto
ensanguentado, usando uma foice como bengala e mantendo-se de pé
com a perna que sobrou. — Aposto dois copeques que quer.
A cabeça pendurada na mão de Ivan abre a boca e um som parecido
com o de estática de televisão é ouvido.
O chunk chunk chunk de canais de TV sendo trocados, e então...
Notícias.
Uma repórter fala pela boca aberta do tio, com sotaque de inglês
americano perfeito do Centro-Oeste.
— Os restos de um mochileiro americano na União Soviética desde
junho foram devolvidos à família dele hoje...
Andrew se afasta mais rápido.
Cospe o cigarro.
— A mãe do jovem e o irmão mais velho voaram para a base aérea
Wright-Patterson para reconhecer o corpo, que sofreu grande violência
nas mãos de agressores desconhecidos...
O idiota que segurava a cabeça decepada, o garoto sangrando com a
foice e o camponês sem cabeça com o cinto entre as mãos avançam na
direção de Andrew.
Ele dá um passo atrás, morrendo de medo de cair.
— ...as mãos, os pés e as genitálias foram cortados pelo que pareceu
ser um instrumento agrícola, mas a causa da morte foi
estrangulamento...
Andrew continua andando para trás, sem querer tirar os olhos deles.
Percebe que a distância não diminui.
— O secretário-geral Andropov prometeu uma investigação completa
da barbárie, e disse que se encarregará pessoalmente quando sua tosse
insistente desaparecer.
— Socorro! — grita Andrew. — Preciso de ajuda!
— SOCORRO! — grita a cabeça, muito mais alto do que Andrew tinha
gritado, arregalando os olhos para ele.
Ah, virar-se e correr.
Ele se aventura a olhar para trás e constata que a estrada segue em
linha reta, com árvores intermitentes pontuando os pastos repletos de
carneiros e vacas, que circulam com a cabeça abaixada, mastigando
grama.
Quando volta a olhar para eles, os três camponeses estão bem mais
perto, embora Andrew não consiga perceber diferença no modo como
andam. Percebe as botas manchadas de terra.
— Você me devem dois copeques, Lyosha. O homem não queria
ouvir inglês americano.
A cabeça grita e cospe de novo.
Estou sonhando.
Estamos em 1983 e estou sonhando.
Olhe para cima!
Uma série de jatos se espalha pelo céu claro de verão.
Bombardeiro!
— BOMBARDEIRO! — grita a cabeça, sem tirar os olhos de Andrew. —
AJUDE-ME, BOMBARDEIRO!
O idiota gosta disso e diz, como se falasse sozinho:
— Ajude-me, bombardeiro.
Eles continuam caminhando pela estrada por um tempo, Andrew
suando mais do que deveria para um dia frio.
Espera ouvir um caminhão atrás de si, quase reza para ouvir uma
buzina. Assim que pensa isso, a cabeça do tio ecoa o Paaaaaaaaam! de
um caminhão.
Não deve desviar o olhar de novo.
— Ei, Lyosha — diz a cabeça ao rapaz. — Acho que ele não pretende
desviar o olhar de novo.
— Acho que tem razão, tio.
— Não será bom se ele nos vir. Ele pode manter a mesma distância o
dia todo.
— Concordo outra vez, tio.
— Ele é jovem e tem pernas compridas. Não é como você desde seu
acidente, seu estúpido.
— Você também sofreu um acidente, tio.
— Mas o meu não me deixou mais lento, como você pode ver.
Assim dizendo, o corpo que levava o cinto executa algo entre um
espasmo e um tour jeté.
O idiota ri e então morde a orelha da cabeça decepada, para segurá-la
assim e poder bater as mãos.
O corpo pula de novo.
— Vanka — diz a cabeça, revirando os olhos de modo drástico para
olhar para o idiota que a carrega —, quantas moscas você pegou?
A cabeça volta para a mão, para que Vanka possa responder.
— Muitas.
— O suficiente para uma noite?
— Noite! Noite! Noite! — entoa o homenzarrão, e fica claro que
bateria as mãos se não estivesse carregando a cabeça.
— Faça isso, garoto!
Agora, o idiota abre a boca e o que parece um pudim grande e preto
começa a brotar. Ele vomita aquilo na estrada, que se remexe e ondula,
sua superfície lisa sendo acariciada pela luz fraca do sol.
Agora, o rapaz pula com a perna que lhe resta e usa a foice para
acertar o pudim com força, que explode em uma nuvem de moscas
pretas que cobrem o sol.
E a noite vem.
Uma noite sem estrelas.
Andrew corre.
O sonho muda e ele se vê em um ninho.
Ou talvez seja uma cama de palha seca?
Algo pinica seu braço, mastigando.
Ele empurra a cabeça para afastar a coisa, que berra com força,
mostrando uma língua negra.
Um carneiro.
Onde diabos eu estou?
Um telhado de madeira está acima dele.
Sem paredes.
Um estábulo?
O sol está se pondo, ou talvez nascendo, lançando uma luz violeta
fraca. Um tridente se ergue do chão, iluminado por trás, e se eriça: dois
de seus dentes oblongos estão prendendo algo com um formato de
cabeça, também iluminada por trás.
Ah, é uma cabeça.
Ela escarra e cospe antes de falar.
— Nosso bebezinho está acordado agora, não é?
Um riso rouco vem de perto do cocho, onde o irmão idiota está
sentado, com a mochila de Andrew virada. Ele desenrola uma calça
jeans desbotada e se surpreende com ela, um cigarro aceso na boca.
Espere até ele encontrar as Playboys
Ele não deveria fumar
Por quê? Porque é retardado?
Especial, dizemos especial agora, porque é mais bacana
— Não queime isso com o cigarro, Vanka... Podemos vender a um
membro do grupo por um preço bem alto — diz a cabeça de onde está.
— Então, querido, você gosta de Jesus, certo?
Andrew não diz nada.
— Você gosta tanto d’Ele que O coloca em uma manjedoura.
O balido do carneiro de novo, como se tivesse sido combinado.
Andrew olha para o campo, onde o corpo sem cabeça está penteando
um cavalo de arado, que permanece de pé com calma, batendo a cauda
para afastar as moscas. Sem dúvida, corpos sem cabeça cuidam de
cavalos o tempo todo nesse infernal conto de fadas russo.
Será que estou no inferno?
Encontrei algo rígido no escuro.
Uma cerca?
Um arado?
Será que eu morri?
— O que foi, você não tem nada a dizer?
Andrew apenas pisca.
A cabeça se remexe e cospe de novo, pedindo licença.
Um sonho que não passa de sonho
Mas eu achei a mesma coisa quando aconteceu
E foi real
— Mesmo em um sonho, é preciso ser educado. Mas não. Vocês
americanos são malcriados. Mesmo que falasse, eu só ouviria o som dos
Estados Unidos saindo da sua boca. Você conhece esse som?
Andrew não diz nada.
— Você gostaria de ouvir esse som? O som dos Estados Unidos?
Andrew balança a cabeça devagar, com dor na cabeça e no pescoço.
— Finalmente! O pequeno tem uma opinião! Bem, o problema é que
ele ouvirá mesmo assim.
A cabeça rosna nesse momento, exibindo dentes tortos por baixo do
bigode grande. O rosnado se torna o som de um motor sendo ligado. Um
motor de helicóptero. Ele abre a boca à medida que os rotores do
helicóptero invisível rodam mais depressa e então, quando os rotores se
movem à velocidade de voo, ele escancara a boca e sopra uma rajada de
vento, quente e fedendo a gasolina, soprando a palha do estábulo com
fúria, afastando os carneiros e espalhando um trio de galinhas. O irmão
idiota tenta proteger o cigarro com as mãos em concha mas, como voa
mesmo assim, ele chora.
A cabeça fecha a boca, interrompendo o vento ruidoso.
— Tudo bem, Ivan. Os Estados Unidos se foram agora e está na hora
das toalhas quentes.
— Toalhas quentes? Eu gosto de toalhas quentes.
— Eu sei. Toalhas quentes são boas.
Agora o rapaz vem por trás de Andrew
O pescoço dói demais para virar e ver de onde veio
De algum modo, carregando um balde, toalhas, uma lâmpada a óleo
acesa e um kit de barbear. O rapaz voltou a ter a perna
?
mas manca de leve enquanto carrega o balde.
Seu irmão pega um banquinho e se senta, com o queixo apontando
para a frente, afrouxando a gola. O garoto coloca uma toalha quente ao
redor do pescoço do homem e sussurra.
O corpo sem cabeça vem agora, limpa o suor do cavalo nas mãos
com sabão e água, tira a toalha e então ensaboa e barbeia o rosto de
Ivan, batendo de leve em uma das faces, quando quer que ele se ajeite.
Maneja a lâmina com destreza.
Andrew estremece.
Se eles fossem me machucar, já teriam feito isso
Quem disse?
— Machucar você? — pergunta a cabeça dos dentes do tridente,
semicerrando os olhos com concentração para o trabalho de barbear ao
qual seu corpo se dedica. — Mais luz! — diz ele, e o garoto enrola o
pequeno botão para ajustar o comprimento do pavio, aproximando a
lamparina.
— Agora, você está no meu caminho.
O rapaz dá um passo para o lado.
— Ótimo. Fique aí.
Ele se remexe, solta um cuspe preto e então olha para Andrew de
novo.
— Machucar você? Por que machucaríamos se você está fazendo um
ótimo trabalho machucando a si mesmo? Você deveria ver o tamanho do
galo em sua cabeça. Não, queremos você bem. Temos muitos acidentes
por aqui. O trabalho rural é perigoso... mas como você saberia quando
há supermercados, putas e favelas? Queremos você são e salvo para
poder nos curar, Jesusinho. Viu como ajudou Lyosha?
Quero acordar
— Então acorde!
Quero ir para casa
— Quem está impedindo? Vá! — diz a cabeça, olhando para Andrew
agora. O corpo também se virou para ele e gesticulou com a lâmina,
como se quisesse apontar a estrada para Andrew caminhar.
Com certo esforço, Andrew mexe o quadril perto da manjedoura, mas
tem algo errado, algo mais do que a cabeça latejante e o pescoço.
Ele tenta se levantar, mas cai no chão, batendo o queixo e mordendo a
língua. Um galo assustado bate as asas meio fracamente e começa a se
pavonear.
Claro que ele caiu.
Ele só tem uma perna.
Andrew desperta. Ajusta o travesseiro empapado de suor.
Ao longe, um trem.