Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 71 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 72

 

— O que aconteceu com você?

É Bob, na frente da igreja, antes da reunião do AA.

O sorriso, normalmente enorme, está guardado, e os olhos brilhantes

irradiam preocupação sincera. Alguns colegas se aproximam.

— Fui assaltado.

Ele parece mesmo ter sido assaltado.

No caminho de volta, quando foi atropelado por um caminhão de

sorvete.

— Onde? — pergunta uma mulher com cabelo tingido de vermelho.

— Syracuse. Clinton Street.

Todos assentem.

Quando os outros se afastam, Bob diz:

— Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa mesmo, não tenha

vergonha de pedir. Está bem?

— Obrigado, Bob.

Aquela noite é uma reunião aberta. Todos que quiserem participar,

amigos, curiosos, podem. Não é a melhor noite para Andrew chegar

parecendo uma berinjela torta tingida, mas ele precisa dessa noite.

Agora. Havia dormido o dia todo, quase foi convencido por Chancho a

procurar a emergência do hospital, decidiu não procurar, mas, quando o

mecânico mencionou a reunião, Andrew havia concordado, babando e

segurando um saco de ervilhas congeladas na lateral do rosto.

Os hematomas eram deploráveis, cobriam o que parecia um terço de

seu corpo. Ter a própria epiderme batida no chão duro por uma versão

neandertal de si mesmo havia evitado ossos quebrados e tecido

conectivo prejudicado mas, quando ele se levantou, começou a sangrar

em seis lugares e o inchaço foi horrível. O olho esquerdo ficou roxo e enorme e quase se fechou, assim como o direito. Ele lembrava um pouco

o texugo que vira correndo com o saco de ovos.

Primeiro, havia cuidado de Salvador, que rapidamente ficou sem a

mágica do cachorro acionada pelo alarme e voltou a ser um autômato.

Aquilo tinha sido difícil de ver, assim como tantas coisas. Pelo menos,

um braço era mais fácil de consertar do que uma pata quebrada de um

cão.

Então, Sal ajudou seu dono: pegou gelo, um saco de ervilhas

congeladas e ibuprofeno, sentando-se ao lado dele e revezando o gelo e

as ervilhas.

Observou Nadia arrastar um Andrew morto e pesado atrás do outro

para o lago, para dentro da água.

Corpos mortos por tigres fazem uma grande sujeira.

Primeiro, Salvador limpou, o que levou um tempo. Então, espalhou

um produto de remoção de manchas nos tapetes orientais do corredor,

embora provavelmente apenas um deles pudesse ser salvo. Na cozinha,

reuniu os cacos da prensa francesa, dos pratos e dos copos, jogou no lixo

o liquidificador estragado, assim como a mesa de canto e várias estátuas

não mágicas. Estava colocando fitas adesivas na janela da porta da

cozinha quando Chancho se aproximou.

Fez uma careta quando Salvador abriu a porta do quarto de Andrew.

Algumas pessoas na reunião do AA tinham feito a mesma cara quando

entraram. Andrew se sentia como o Homem Elefante.

Os curiosos estão pensando que eu me envolvi em um acidente de

carro e em uma briga depois de beber. Certo, já fiz essas coisas, mas

não ontem à noite. Tudo bem. Podem olhar à vontade. Podem pensar

que não são tão ruins quanto eu, se vão se sentir bem, porque se ainda

estão nessa fase provavelmente não chegaram ao fundo do poço e

acham que nem vão chegar. Alguns até escapam, mas a maioria não.

Eu quase morri ontem à noite.

Teria morrido se tivesse bebido uma garrafa de vinho.

Foi isso.

Terrível.

Preciso sair dessa.

Mas, antes, tenho que me preparar para ela.

Para a sobrinha, a parente.

Ela é tão forte.

E me encontrou.

Como?

Os olhos dele se arregalam bastante ao ver os hematomas.

As malditas testemunhas de Jeová.

Ela viu as testemunhas pregando, talvez tenham até tocado sua

campainha, seja lá onde ela esteja. Então lançou um feitiço.

Fez com que se encarregassem de entregar sua mágica.

Está só começando.

Eu poderia correr, mas para onde?

Ela me encontrou aqui, vai me encontrar de novo, mas da próxima

vez não será na minha casa, na minha terra. Um terroir não é

importante apenas para as uvas: é importante para os usuários. Nós nos

fortalecemos em nossa terra. Por isso que muitos aqui têm pelo menos

um pouco de sangue indígena.

Escapar ou procurar?

Eu poderia abandonar meus livros, desistir da magia, voltar para

Ohio. Ou ir a qualquer lugar. Ela gostaria disso... tomar minha

biblioteca sem resistência, me encontrar recolhido em Enon e me

espremer entre dedos como uma pulga. Crucificar e pendurar meu

corpo de cabeça para baixo no Apple Butter Festival com um grande

Foda-se pra Cristo, para Ohio e para torta de maçã. Eu poderia lutar

com ela no monte dos adenas, mas com o quê? O porco-espinho morto

não seria de grande ajuda: eu mijei na cova dele.

 

Chancho cutuca Andrew, sussurra ao pé do ouvido.

— Ei, brujo, está no mundo da lua? Pelo menos finja que se

importa... esse cara está falando sobre a mãe que batia nele.

Um cara de cabelos ruivos encaracolados e um daqueles pescoços

que parecem mais compridos do que o normal,

um pescoço como um cano embaixo de uma pia,

está falando sobre a mãe que inalava gás e bebia gim barato e, às

vezes, o agredia com um desentupidor de privada, mas ele se afastou

dela e foi para a faculdade, onde por sua vez começou a beber e

descobriu que não conseguiria parar.

Andrew escreve no guardanapo.

Chancho resmunga e então responde.

Andrew vira o guardanapo.

 

Mãe do desentupidor de privada?

Qual é o problema dessas pessoas?

ELAS SÃO HORRÍVEIS!!!

TODAS MENOS JESUS

Ele não é uma pessoa

PRESTE ATENÇÃO NO CARA

Ele parece o Art Garfunkel

VOCÊ PARECE UM COCÔ

Um cocô? Sério?

COCÔ ROXU

 

Agora, os dois estão tentando não rir.

Chancho morde o lado interno da boca com tanta força que uma

lágrima rola por seu rosto.

 

Depois da reunião, o cara da direção defensiva, o que desceu do banco

de carona do Lexus, aproxima-se de Andrew e da caixa de donut.

Andrew não está com fome, mas está perto de Chancho, que está

enfiando metade de um donut na boca.

— Andrew? Certo?

— Sim.

— Não sei se você se lembra de mim, mas sou Jim. Aqui está o meu

cartão. Entre em contato se eu puder fazer alguma coisa por você.

 

SIMKO, MOSS e MCALLEN

Jim Simko, advogado

Quando você precisa de uma voz

 

Agora tudo se encaixa.

Andrew viu os comerciais horríveis do cara: os cartazes em toda a

Rochester. Um advogado de quinta, sempre à porta das ambulâncias

para aliciar possíveis clientes.

Provavelmente escapou da condenação por direção sob efeito de

álcool, usou sua mágica sombria para trocar isso por direção descuidada,

mas reuniões do AA?

O juiz não se dobraria.

Recebi um cartão porque me pareço com um COCÔ ROXU.

Ele consegue controlar o riso.

Consegue não dizer as três palavras em aramaico que fariam Jim

Simko ter um ataque na corte no dia seguinte, esvaziando a bexiga e o

intestino grosso.

Dez anos atrás, teria dito essas palavras.

Ontem à noite, na pele de tigre, teria batido na cara do advogado, e

então se sentaria nas pernas dele, acompanhando a morte, porque tigres

agem por instinto.

Agora, apenas pega e coloca o cartão no bolso de trás, onde sabe que

aquilo vai virar uma bolinha de papel na máquina de lavar.

Não gosto desse cara, não tenho que gostar desse cara, mas não

tenho o direito de julgá-lo. Está fazendo o melhor que pode, como eu.

Ah, mas ele é um safado, não?

Pare de analisar tudo.

Ele é.

Como aquela vaca assassina que está atrás de você.

Não, você não pode escapar ileso dessa.

Não tem dúvida sobre ela.

Ela é má.

É muito, muito má.

E ela não vai se safar dessa.

Ele deveria dar o cartão a ela.

— Obrigado, Jim — fala Andrew.

Segue Chancho, que continua mastigando, e sai para fumar.

Dá um tapinha nas costas de Bob ao sair.

Não vou fugir.

Vou me esconder como um maldito texugo.