Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 3 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 2

 

 

Andrew e Anneke dirigem até um Dunkin’ Donuts, tomam café (o dele

com leite, o dela escuro como o bico do corvo) e seguem a Oswego para

jogar sinuca no boteco de frente para o mar. Embora os dois já estejam

sóbrios há bastante tempo, ainda não se sentem à vontade em um bar. No

entanto, gostam demais de sinuca — o suficiente para tolerar a clientela,

ao menos. Nos vinte anos desde que Andrew passou a morar em Dog

Neck Harbor, perto dali, volta a Oswego com frequência para fazer as

coisas que uma pessoa busca na cidade quando mora em uma vila — e

sinuca e boliche estão entre essas coisas. Porém, ele nunca entendeu os

habitantes de Oswego.

Oswego fere um pouco seus sentimentos, com os prédios de tijolos à

vista na orla ainda cheios de anúncios de cem anos atrás (Aproveite a

refrescante Coca-Cola! Ainda contém cocaína!) desperdiçados com sua

estética debilitadamente juvenil. Com apenas um pequeno atrativo

artístico, só uma pitada de toque intelectual, somente uma faculdade

importante, essa cidade poderia ter sido uma pequena Amsterdã, uma

Ithaca de frente para o mar. Mas... não foi.

Nos últimos vinte anos, Andrew tem visitado o lugar, observando a

cidade aniquilar quase todos os bons restaurantes que nasceram ali.

Bistrôs franceses, rodízios indianos, padarias rústicas hippies, pequenos

estabelecimentos. E os nomes... Casa Luna, The Coach House,

Wahrendorf’s Diner, o Little While. Ah, o fechamento do Little While

foi uma punhalada. A marinada de frutos do mar dava para três: era tão

carregada no alho que pedaços ficavam presos ao garfo e tinha tantos

frutos do mar que era preciso deixar de lado o camarão e o peixe para

chegar aos mexilhões e, então, ao abrir um mexilhão, havia dentro mais

camarão e peixe.

E as panquecas no Wahrendorf’s.

— Maldito Wahrendorf’s — comenta ele, com ênfase no maldito. Ele

encaçapa uma bola de cor sólida e uma listrada.

— Maldito Wahrendorf’s — concorda Anneke.

Um cara de bermuda larga, regata e boné (vinte anos e o guarda-

roupa de um morador típico de Oswego não mudou, assim como

continua intacta a preferência por frituras simples e bares com temática

esportiva) se aproxima da mesa de sinuca com setenta e cinco centavos

na mão, mas Anneke joga seis moedas de vinte e cinco na mesa e lança

um olhar que faz com que ele se vire e caminhe em direção à jukebox.

Andrew o ignora e volta os olhos para a tarefa de encaçapar mais duas

bolas.

O rapaz volta para onde estão os amigos, que também usam regatas e

bonés, arrancando deles gargalhadas altas. Andrew parece pequeno e

exótico demais para ser agredido e Anneke parece ser capaz de dar um

belo soco.

Não havia glória nenhuma nisso.

 

— Tenho pensado em seu sobrenome do meio. Por que Ranulf?

Encostado na mesa, prestes a dar uma tacada rápida em uma bola no

canto, ele para e pensa em seu ancestral.

— Quer dizer, pelo que você me disse sobre seus pais, não imagino

um sobrenome de rei como esse.

Andrew imagina Ranulf Blenkenshope, o primeiro protótipo dos

Blankenship de que se tem notícia, arrumando pilhas de pele de carneiro

perto de uma choupana cheia de fumaça, onde uma esposa mexe a

comida blanken borbulhante que vai manter o casal alimentado ao longo

de mais um inverno do século XIII em Northumberland.

— Era Randolph. Eu mudei quando estava na faculdade. Por

diversão. — Ele erra a tacada, com a concentração dividida. — E quem

é Anneke Zautke para falar de sobrenomes? O seu dá a impressão de que

você deveria calçar tamancos.

Repentinamente curioso para ver o que ela está calçando, Andrew

olha para as sandálias dela e vê o esmalte verde das unhas dos pés meio lascado. O formato dos pés de Anneke é bonito. Tudo nela tem um

formato bonito. Sem falar que ela se veste bem, e não apenas para uma

lésbica.

Ela odeia essa palavra.