Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 111 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 113

 

 

Andrew desce a escada com o cajado apontado para frente.

— Broquel — diz ele, e então um círculo côncavo de ar azulado e

embaçado se move à sua frente, do tamanho de um escudo grande.

Os soviéticos estão atirando pela porta.

Ele se agacha quando desce, ficando atrás do escudo.

O escudo brilha e sibila nos pontos atingidos pelas balas, mas é

diferente do encanto de desviar balas. Ele tem que lidar com aquilo. Mas

tem vantagens. Funciona com outras coisas além de balas. Isso é bom,

porque um soldado lançou uma granada — a porta explode, espirrando

contra Andrew pedaços de carvalho em alta velocidade e alguns

estilhaços de metal. Um dos fragmentos acerta a perna, que estava para

fora.

O broquel bloqueia tanta coisa que silva como água em óleo quente, e

a fumaça embaça a visão do mago por um instante.

Ele pega três moedas de um saco em volta do pescoço.

As mãos tremem.

Ele tenta fazer com que elas parem.

Um soldado atira da porta enquanto o esqueleto preto em chamas e os

outros dois homens passam por ela.

O escudo de Andrew se acende onde as balas resvalam.

Ele se encolhe o máximo que consegue atrás da proteção.

Dragomirov!

Você gosta de jazz?

Ele joga as moedas.

Agora, todo o som preso do trompete sai de uma vez, desmanchando

o esqueleto e mandando-o porta afora, dilacerando o homem contra a

parede com tanta força que ele chega a morder a língua e bater as costas,

antes de se transformar em uma bonequinha de aniagem.

Andrew corre para dentro da cozinha, apontando o cajado às suas

costas.

Fecha a porta.

Siga, siga!

Abaixa-se atrás da ilha.

Olha para trás, conferindo se a porta lateral às suas costas está

trancada.

Uma bota derruba a outra porta com um chute.

Andrew levanta a cabeça, projetando o escudo nada sólido sobre a

ilha, pega uma moeda.

O som surge dela.

Não é suficiente para matar, mas derruba os dois homens e deixa o

primeiro surdo, racha o batente, arranca um quadro de peras numa tigela

de cobre da parede.

(Andrew gostava daquele quadro.)

Ele xinga.

Um russo xinga também.

O homem surdo cai de joelhos.

O outro fica de pé e grita, mas inutilmente.

E ataca Andrew com a baioneta.

O caucasiano peludo de barriga protuberante crava a baioneta no

escudo e consegue jogar a proteção para o lado.

Isso quebra o feitiço.

Merda!

Rufar de tambores!

O caucasiano está tentando enfiar a baioneta no peito de Andrew

quando este escancara a boca e vomita meia dúzia de dardos de bar no

rosto do soldado, em grande velocidade. Velocidade letal, para ser mais

específico. Só as partes de trás dos dardos ficam visíveis, e aquele que

entrou no olho desapareceu sem deixar rastro, a ponta passando pelo

outro lado do crânio. O homem se remexe duas vezes e cai, deixando

apenas uma boneca marcada com uma mancha de sangue no chão de

madeira.

Merdamerdamerda

O segundo homem está vindo, balançando a cabeça, mas vindo.

Pior: Dragomirov preto, morto, em chamas, aparece atrás dele.

Andrew se vira e abre a porta lateral da cozinha.

O soldado e o morto-vivo entram no cômodo.

Siga, siga!

O soldado começa a erguer a arma.

Sem amuleto, sem escudo.

— Manganês! — grita o mago.

As gavetas e os diversos armários se abrem.

O ar sopra com metais voadores.

Algo retorcido e terrível acontece dentro da boca de Andrew.

Ele faz algo que lembra cuspir, fungar e vomitar.

O som de uma colisão esquisita e metálica precede o tiro de rifle,

SCRAAAANG-BANG!

alto e dolorosamente no espaço fechado, mas o tiro é disparado para

cima, quebrando tigelas em um armário.

O grande mineiro se abala, totalmente arruinado, mais arruinado do

que é possível descrever.

A cozinha é um abatedouro.

Tudo que é faca, garfo, pegador, colher, panela, frigideira e outras

peças de metal é lançado aos dois invasores, como se disparado de um

canhão. Até mesmo algumas portas rangem. Até mesmo uma torneira e

um ralo.

Andrew sente gosto de sangue.

Três de seus dentes perderam as obturações, mas um, na esquerda e

em cima, preferiu se soltar da gengiva, também disparando contra as

coisas, cortando o lábio de Andrew no momento da saída.

Sem dar tempo nem de cuspir.

O Dragomirov-de-antes continua vindo, ainda esfumaçando pelas

chamas do tanque, despreocupado com a mesa que o espeta, digna de

uma loja de utensílios usados.

Uma faca de cozinha de vinte centímetros (J.A. Henckels, o principal

utensílio da gaveta de talheres de Andrew) entrou na boca do russo

como uma fofoca. Os restos de um batedor e um escorredor se casaram

com o traçado da coluna de Dragomirov. Uma faca de descascar se

destaca no crânio. Uma panela levou a maior parte dos dentes e uma

frigideira de ferro polido ficou com um braço. Só que os dentes estão se

juntando de novo e o braço já está se mexendo na cesta de frutas,

preparando-se para voltar a se prender.

O morto está vindo.

Um acidente salva o mago.

Caso contrário, Andrew não teria conseguido abrir a porta.

Mas consegue.

Acontece que Dragomirov desliza na boneca em que o soldado

arruinado se transformou.

Ele puxa os cabelos de Andrew ao cair.

Andrew bate no morto-vivo com o cajado.

A magia no cajado faz o impacto ser duas vezes mais forte quando

Andrew dá a paulada. Ele estoura a mandíbula do morto, libertando a

faca Henckel.

Pega a faca com a mão livre.

Corta o cabelo seguro pelo punho do esqueleto.

Abre a porta.

A neve entra.

Ele atravessa a porta, salpicado de sangue, cajado e faca de cozinha

prontos.

O esqueleto se sacode como um cão, espalhando peças de metal.

Já se formando outra vez.

Andrew poderia ter corrido, mas dá meia-volta para enfrentá-lo,

permanecendo na porta como um fantoche de um teatro de sombras.

Siga.

O morto-vivo dá um passo decisivo em direção a Andrew.

— Não foi assim que você entrou, senhor — diz Andrew, ofegante.

Esta é a minha casa e você deve sair do mesmo jeito que entrou.

O cadáver cai, continua caindo, como se houvesse um alçapão na

terra.

Mas não tem alçapão.

E não tem cadáver.

Não ali.