Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Parte Dois
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Ele conta para elas o que aconteceu na Rússia.
PARTE DOIS
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O homem que se esquece do próprio nome vive em uma rua em
Syracuse desde março. Março era um mês difícil, triste e terrível para
alguém ficar na rua, mas com a ajuda do cobertor do Exército da
Salvação, o agasalho da ONG Goodwill e o saco de dormir roubado, ele
sobreviveu.
Ele é forte como um homem das cavernas.
Como uma tribo inteira.
Sente orgulho do saco de dormir: não só pela capacidade tática que
demonstrou ao burlar os alarmes antes de ser visto pelo rapaz do estoque
ou pela pura capacidade atlética, quando deixou o funcionário gorducho
para trás, ofegante. Sente orgulho sobretudo por ter tido a ideia de afaná-
lo enquanto ainda estava bem, pois sabia que não demoraria a cheirar
mal e ficar barbudo, e que pessoas nesse estado são percebidas assim
que entram em algum lugar.
Também sente orgulho da luta com o cara da touca de banho. O touca
de banho queria aquele saco de dormir: era um saco de caçador,
camuflado, nota dez. Não era preciso se esconder nem se encolher em
um saco como aquele. O touca de banho empurrava um carrinho de
compras cheio de animais empalhados, segurava os bichos e fazia com
que acenassem para os carros antes de mostrar seu cartaz: ESTOU COM
FOME , PRECISO DE UM DÓLAR, JESUS TE AMA. As crianças faziam os pais
darem um dólar para ele e o sujeito abria um sorriso em que faltavam
alguns dentes. Mas nem todo mundo que brinca com ursinhos de pelúcia
é bacana. O touca de banho pensou que por ser grande e ter um
cachimbo conseguiria o saco de dormir térmico e faria o dono procurar
outra coisa. Mas ele estava enganado. O touca de banho seguiu em
frente. Seu sorriso tem menos dentes agora.
O homem que se esquece do próprio nome sempre soube lutar.
Entrar na infantaria parecia certo, apesar de alguém com quem ele se
importava lhe pedir para desistir. Naquele dia, no sofá, deitando sobre
ele e chorando dentro de seus olhos, ela implorou para que não fosse.
Ele precisava ir e na época imaginou que ela não entendia, mas
passou a acreditar que talvez entendesse.
Ele voltou do Afeganistão depois de apenas algumas semanas. Voltou
diferente. Não diferente para melhor. Diferente com lesão-traumática-
cerebral-e-zunido-no-ouvido. O dispositivo explosivo improvisado havia
amassado o Humvee como uma latinha de refrigerante, partindo-o ao
meio, matando na hora o tenente e o mexicano, cegando o cara que
jogava hóquei. Não se lembrava mais de nomes, mas sabia que o cara
jogava hóquei. Ele próprio era o cara mais sortudo no veículo militar
naquele dia, mas não tinha tanta sorte assim: embora não tivesse perdido
nenhum membro do corpo, como agora tudo parecia não passar de
resmungos, se irritava depressa. Gritava quando discutia, o que não era
bom no quiosque de vendas de smartphone no shopping Carousel. Ou na
escola de ensino médio católica que lhe deu um emprego de servente.
Ou no lava-rápido, onde trabalhava por seis horas.
O fato de enfatizar os gritos segurando e apertando braços não tinha
funcionado muito bem com a menina de tatuagem de pardal. E era o
apartamento da menina de tatuagem de pardal.
Acontecera antes de partir para o Exército, quando ele tinha a própria
casa, também. Conhecia ela havia anos. Três? Quatro?
Ela havia chorado nos olhos dele.
Ele tinha algumas cartas que ela escreveu.
Ela teve razão de lhe dar um pé na bunda.
Ele roubou o saco de dormir no mesmo dia.
Nunca voltou para pegar suas coisas.
É um homem das cavernas agora.
O dia está quente e ele está usando a camiseta de videogame, sua
camiseta preferida. Já havia recebido trinta e três dólares e cinquenta
centavos dos bondosos motoristas que saíam do aeroporto na Interestadual 81. Ele se deita para cochilar quando vê uma mulher
andando em sua direção, uma mulher madura e bonita.
Ele se senta apoiado em um dos cotovelos e sorri para ela.
Ainda tem um sorriso bonito.
Observa ela.
Não é todo dia que alguém se importa a ponto de sair do carro e se
aproximar dele, apesar de isso já ter acontecido.
Um carro cheio está à espera dela, com pessoas a chamando em outro
idioma. Um dos homens sai, começa a andar na direção dela de modo
protetor, o que é totalmente desnecessário. Ele é inofensivo para
mulheres, a menos que elas briguem com ele: aí apenas aperta os braços
delas. Ele não planeja fazer isso.
Ela pega algo da bolsa: uma garrafa d’água? Cem mililitros, como
recomendado em voos internacionais.
Ela desrosqueia a tampa.
Ele só presta atenção à sua beleza, à pele bonita e clara.
Ela é mais bonita do que a menina da tatuagem de pardal, apesar de
ter idade suficiente para ser mãe dela.
Uma MILF.
Ele odeia essa palavra.
— O seu nome era Victor — a mulher diz para ele, com sotaque.
A voz dela interrompe os gemidos na cabeça dele. Os gemidos param
de vez.
Ninguém nunca fez tanto por ele.
O zunido vai e vem quando quer, nem os médicos podem controlar,
nem o Veterans Affairs pode controlar, mas aquela mulher conseguiu
fazer aquilo parar.
Ele quer chorar.
— Victor — diz ele, concordando. — É, isso mesmo.
Ele se lembra disso às vezes, sozinho, mas é bom pronunciar seu
nome outra vez.
Ouve o ruído baixo dos carros, a música deliciosa dos pássaros.
Sem reclamação.
— Você é jovem demais para viver de um jeito tão ruim. Não está
com sede, Victor?
Pensando bem, ele estava com sede.
Ele lambe os lábios e assente.
O que é isso?, pensa ele.
— Neve derretida — diz ela. — De casa.
Ela passa a garrafa para ele, que bebe o líquido.
É frio, mais frio do que ele pensou que seria, e claro.
— Não desperdice nada — diz ela, e ele não desperdiça nem mesmo
uma gota, chegando a lamber as costas da mão depois que seca a barba.
Agora, o estrangeiro está se aproximando, falando a língua deles.
É russo.
Ele compreende o idioma, mas não sabe como.
— Não fazemos esse tipo de coisa por aqui, essas pessoas são
perigosas. Por favor, Marina.
— Ele não é perigoso para mim — diz ela, ainda ajoelhada, e pisca
para ele.
Ela entrega a Victor uma nota de vinte dólares, mas ele compreende
que não é de fato para ele, é apenas pokazukha, uma cena que ela está
interpretando para o primo.
Ele não vai precisar mais do dinheiro e sorri ao pensar nisso.
Ele sorri para aquela mulher, a quem ama do fundo do coração, cujos
braços nunca vai segurar e apertar, e ela sorri de volta.
Ela lhe devolveu seu nome, mas foi apenas para que ele soubesse
como ela era especial, como era certo confiar nela.
Ele não é mais Victor.
Ele não é mais um homem das cavernas.
Ele não sabe o que é, mas dorme embaixo da passarela pela última
vez antes da grande aventura e sonha com seu amigo cego jogando
hóquei. Ele voltou a enxergar e está esquiando com o taco baixo,
deslizando depressa, deslizando com agilidade e graça.
O Era-uma-vez-Victor precisa olhar para cima para ver o amigo
esquiar.
Ele o observa por debaixo do gelo.