Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 124
Ah, merda, pensa Andrew-em-Marina.
Isso está acontecendo.
Não há outra maneira.
Marina e a cópia de Shelly começam a ficar de pé, tremendo,
remexendo-se, músculos falhando.
Dois potros em corpos novos.
Prestes a brigar até a morte.
125
Anneke acorda ainda presa pelos pulsos e tornozelos, pendurada como
uma rede em um navio que está afundando. A cabana está no chão,
aberta, a neve entra. O maluco barbudo segura os joelhos, olha pela
janela, e então olha pela janela de novo.
— Ela pegou ele — diz.
Ele continua repetindo “pegou ele” e olhando pela janela, como se
estivesse preso em um loop.
Ela pegou quem?
Andrew, quem mais?
Esse cara é um merda, ele é como Renfield, não o ouça.
Anneke observa.
Seu ombro dói: deve ter sido atingido quando a cabana caiu.
O colar de cobra ao redor do pescoço já não a deixa esgotada.
Só está frio como ferro.
Como ela tem mágica suficiente dentro de si, tira o objeto do
pescoço, fazendo a cobra gemer e se remexer até finalmente cair morta
no chão, que agora é a parede. Anneke arrebenta o que prende seus pés,
e a amarra cai. Agora, as mãos: ela afia a parte de dentro do colar de
metal e usa para cortar a corda.
Renfield vê que ela se liberta, se aproxima, tenta segurá-la, mas não
tem essa intenção. Só consegue sangrar e chorar sobre Anneke. Ela bate
no peito dele, sai pela janela e se joga na neve.
Neve?
Estamos no verão!
Como se a estivessem provocando, corvos formam um círculo ao
redor de algo à sua esquerda.
Não quero saber o que é, ainda não, é um cervo, só um cervo.
Ela vê o T-34 em chamas, as estranhas pedras pretas ao redor, vê os
destroços espalhados dos carros destruídos e das pedras.
Pisa em uma boneca com olhos de botão e esta sangra na neve.
Sente que precisa entrar.
Andar de cima.
Depressa.
Ela corre.
Ignora os pedaços de madeira, o vidro e o sangue.
Sobe com os sapatos pesados, marcando a neve.
Vai para a biblioteca.