Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 49
Andrew sai de seu banheiro carregando uma bolsa pequena que levou a
New Orleans. Nada de despachar bagagem, nada de seguranças
observando você se afastar até sumir: a fiscalização de aeroportos que se
foda. O dia que um usuário decidir ser terrorista vai ser um dia ruim, de
verdade.
Seu celular, temporariamente confuso e talvez ofendido pela rápida
mudança de fusos, reinicia sozinho e apita com a chegada de uma
mensagem de texto perdida na caixa.
ANNEKE ZAUTKE
Papai está saindo. Não venha. Mas mando notícias.
Desculpa e obrigada. Que droga.
Und zo.
Ele sobe a escada, senta-se à beira da cama e tira suas botas Old
Gringos. Um chulé quente e meio animal chega até as narinas — estava
muito calor no Bairro Francês —, e ele percebe um furo que logo vai
permitir que o dedão saia da meia.
Hora de jogar essa meia fora.
Tirá-la e dar para o cachorro roer.
Mas o cachorro não é mais um cachorro agora.
Como se tivesse sido ensaiado, Salvador bate à porta, mantendo-se
fora do alcance de visão, educadamente. O bater de madeira em madeira
assusta o mago cansado.
— Entre — diz ele, quase acrescentando garoto.
Não é um cachorro.
Então que porra ele é?
Um monstro. Você o transformou em algo não natural, como faz com
tudo. Ele deveria ser um monte de cinzas no vento. Deveria estar perseguindo coelhos nos Campos Elísios.
Você vai colocar o coração de Karl Zautke em um cesto e fazer com
que ele lave suas cuecas também?
Salvador entra, o Traço Mágico pendurado no pescoço. Os botões
giram e letras pretas aparecem.
— Mais perto, Sal, não consigo ver.
O autômato se aproxima, o botão ainda girando.
TV SEM VOLUME.
ALHO PICADO NA TIGELA.
QUEM COZINHA?
Salvador limpou a sala de vídeo e colocou uma televisão nova.
Fatiou alho porque, apesar de não saber o que Andrew quer comer,
certamente tem alho na receita.
— Eu vou cozinhar. Obrigado.
Caramba.
Não consigo nem coçar suas orelhas agora.
A moldura do quadro se inclina, agora a cabeça de Salvador Dalí está
em um ângulo estranho. Ele quer mais ordens. Como um border collie
feliz com uma tarefa.
Salvador sempre pergunta quem cozinha apesar de Andrew não
permitir que ele chegue perto do gás desde que incendiou o próprio
corpo há dois anos. Mas ele não tem medo de fogo, não tem medo de
nada, exceto de desagradar seu dono.
O que mais ele tem?
A mim.
Ele só tem a mim.
Andrew se levanta, calça o par de tênis de corrida de que Anneke faz
piada por ser laranja e pega uma bola de tênis do armário. Vai com
Salvador para o quintal. Durante meia hora, Andrew joga a bola e o
outro corre com as pernas sintéticas para pegar, recolhendo com as mãos
de madeira de modo apático, antes de jogá-la de volta. Quando cai no mato, Salvador vira a cabeça para o lado para que os galhos não o
atinjam.
John Dawes, o vizinho do outro lado da rua, observa com binóculos
militares, sem conseguir entender de jeito nenhum por que o mordomo
com aparência de espanhol brincaria de pega-pega com um solteirão
desconhecido. Os dois dão gargalhadas, mas só um deles está suado
quando voltam para casa.
No entanto, aquela não é a coisa mais estranha que John viu na
Willow Fork Road, número 4.700.
Nem de longe.
O anoitecer está se aproximando.
Os dedos de Andrew estão amarelos pela cúrcuma e pela sopa de
abóbora que está fervendo quando o telefone toca de novo.
Ele sabe o que está escrito.
ANNEKE ZAUTKE
Papai morreu.
Deus do céu!
Elvis saiu do prédio. O show acabou.
Do nada, ele grita.
Por seu pai policial morto.
Por seu mentor morto.
Mas também por Anneke, que terá que aprender sozinha como é
difícil perder a mãe e o pai. Como é real quando você está suando
separando coisas em caixas de papelão que serão enviadas para a
caridade ou o Exército da Salvação. Quando nem pai nem mãe estão por
perto para contar histórias de quando você nasceu. Quando você entra
no sótão e coisinhas se desfazem na sua mão, e você chora como nunca
quando percebe que sua mãe guardou um monte de boletins da terceira e
quarta séries porque tinham elogios sobre o filho dela.
Sobre você.
E que aqueles cartões esperaram naquela pasta velha para que sua
mão adulta os pegasse e os jogasse fora, porque nunca mais ninguém no
mundo vai se preocupar com aquilo outra vez.
Talvez você enfim cresça de verdade ao ver que a parede atrás da
última caixa de mistérios é apenas uma parede.
Sua parede agora.