Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 4
Anneke havia feito duas esculturas dele.
A primeira representava Andrew vestindo seu roupão japonês,
sentado com os cotovelos apoiados nas coxas, a cabeça levemente
inclinada para um lado, como um Pensador boêmio, ou assim ela o
fizera.
A escultura ficava na mesa ao lado da cadeira de fumar e a cadeira
ficava de frente para o lago, inclinada sobre o cinzeiro de osso de
camelo que o pai de Anneke, um piloto de submarino, havia trazido do
Egito. Às vezes, ela enfiava um incenso no espaço entre o braço e a coxa
da estátua, queimando-o de modo que a fumaça envolvesse a cabeça da
escultura. Porém, na maior parte do tempo, ela só fumava seus Camel
Lights e observava o pôr do sol, as tempestades ou as ondas batendo nas
estranhas figuras de gelo que emolduravam a praia no inverno. Andrew
gostava de saber que uma versão em miniatura de si fazia companhia a
ela.
A segunda estátua era maior, em tamanho real, nua, e tão real que ela
conseguiu vender por quatro mil dólares em uma exposição de arte em
Ithaca. Ficou com ela por menos de um mês, pois, como precisava de
dinheiro e não a venderia a Andrew porque a oferta que ele fez mais
parecia uma esmola, quis ver o quanto conseguiria do bolso de um
desconhecido.
E foi assim que um sujeito de Toronto levou para casa a melhor
estátua de Anneke — a representação de um dos magos mais poderosos
dos Estados Unidos, nu em argila branca — e colocou em seu porão,
perto de uma mesa de sinuca de feltro vermelho.
O nome da obra era Despreocupação, e o canadense nunca mais
perdeu uma partida de sinuca sob o olhar entediado e petrificado de Andrew, mesmo quando enfrentava jogadores muito melhores, e
também nunca entendeu o porquê.