Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 17 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 16

 

Minutos depois.

Chancho segura os protetores para Andrew e então começa a cantar

os golpes.

— Jab. Jab. Cruzado de direita. Jab duplo. Gancho de esquerda.

Chancho grita essas palavras com a mesma delicadeza de uma pessoa

arrumando flores em um velório.

— Agora venha pra cima — diz ele, deixando Andrew empurrá-lo

pelo quintal.

Chancho para de cantar os golpes, só segura os protetores e deixa o

amigo improvisar.

— Agora bata enquanto recua. Isso é muito importante. Você pode

derrubar um cara que acredita estar ganhando.

Chancho se movimenta lenta mas insistentemente para a frente,

alternando golpes, assentindo quando Andrew acerta um bem forte.

As luvas bem amarradas deixam marcas nos protetores. No quintal

dos fundos, o barulho dos socos se mistura agradavelmente ao gorjeio

dos pássaros e a um trator espalhando asfalto e terra na estrada à frente.

— Não me acerte — diz o mexicano, tocando as orelhas de Andrew

cuidadosamente com as luvas, para mostrar que está baixando a guarda.

— Vamos trocar — diz ele.

Andrew pega os protetores, preparando-se para a enxurrada de golpes

que vai receber. De qualquer maneira, continua feliz: os exercícios o

deixaram cansado.

O barulho dos socos fica mais rápido e mais intenso agora, e o

homem maior afasta o menor, mexendo a cabeça e os ombros como um

chimpanzé irritado. Chancho fora um boxeador formidável quinze anos

antes e poderia ter se profissionalizado se não gostasse tanto de cerveja

— ele nunca conseguiu ter uma barriga de tanquinho. O modo mais óbvio de derrotar Chancho era fazendo com que ele se cansasse — e

vários conseguiram, impedindo que ele largasse o emprego diário.

Mas muitos não conseguiam: para cansar Chancho, era preciso

aguentar seus golpes de urso, que eram duros, ou não absorvê-los, o que

era quase impossível.

E era preciso não fumar um maço por dia.

— Certo, chega de bater.

— Graças aos deuses.

— Agora os cotovelos. — Chancho só sussurra, abrindo um sorrisão

embaixo do bigode antiquado e desigual, que está ficando grisalho. Só

os pelos acima do queixo o impedem de parecer como se saído de um

episódio da série policial dos anos 1970 Starsky e Hutch.

Chancho dá cotoveladas, de modo que o mago possa descansar os

pulmões um pouco mais. Os braços tatuados batem nos protetores com

força e o cotovelo esquerdo exibe a tatuagem da estrela do Texas, onde o

grandalhão vivia até encontrar Jesus e parar de mexer com drogas. Ou

melhor, parar de proteger pessoas que mexiam com drogas.

Chancho sempre seria o primeiro cara que uma pessoa gostaria de

encontrar no ringue e o último que alguém gostaria de encontrar em um

estacionamento. Ou ver entrando por uma porta de vidro com uma

máscara de lucha libre.

Andrew está se sentindo tonto e exausto, mas Chancho quer que ele

vá em frente, então ele vai, e o suor molha seus cabelos compridos

mesmo no rabo de cavalo, fazendo o peito nu brilhar e umedecer o cós

da calça jeans.

— Agora você. Mexa a cintura. Você é pequeno, por isso é ainda

mais importante que consiga se esquivar. Quero vinte de cada lado.

Quando os protetores molhados e fedorentos estão sobre a mesa e os

homens ofegantes se sentam nos bancos, Salvador entra pela porta dos

fundos carregando garrafas de Coca-Cola mexicana em uma bandeja.

— Bom garoto — diz Andrew. — Obrigado.

Já faz seis anos desde que ele usou os livros secretos para trazer o

cachorro de volta. Chancho prega os olhos em Salvador: desviar o olhar dele é difícil, principalmente quando ele vira a cabeça de Dalí para olhar

nos seus olhos. A coisa se move tão... fluidamente.

Chancho gosta da Coca-Cola mexicana porque vem em garrafa de

vidro e tem açúcar, não é aquele xarope de milho que colocam em tudo

agora.

Ele gosta tanto que não se benze quando pega a garrafa do homem de

palha.

Ele se vira para olhar para Andrew.

— Você precisa parar de fumar.

Andrew, que sabe que está muito verde, só assente, bebendo o

refrigerante.

— Eu sei. Mas isso não é meio contraditório? Você fuma.

A gotas geladas no vidro verde das garrafas parecem o paraíso para

Chancho e ele observa a sua, pressionando-a contra a têmpora.

— Eu sei.

— Você fuma os meus cigarros, porra.

— Seus cigarros são bons.

— Então compre alguns. Eles vendem pra você.

— Precisaria ir à loja de hippie para isso.

— Só estou dizendo que um fumante não deve dizer a outro que ele

deve parar.

— Não fico ofegante como um aspirador de pó quebrado. Eu deveria

parar. Você tem que parar.

— Talvez.

— Não existe um carajo de um feitiço pra isso?

— Claro. Está bem do lado daquele usado para parar de beber.

Chancho sorri.

— Talvez possamos encontrar um hipnotizador.

— Já viu algum?

— Já ouvi falar.

— Bem, eles me assustam pra caralho — diz Andrew. — Vi um deles

fazer um cara pensar que tinha gozado em uma cafeteria. Aí, quando a garçonete chegou, o cara puxou a toalha de mesa, tentando cobrir a

cintura.

Chancho ri o suficiente para mostrar o espaço onde o dente atrás do

canino deveria ficar.

— Engraçado. Um homem assustando você. Um cara de carne e osso,

quero dizer. Sendo que você brinca com garotas, cães mortos e coisas

assim. Aquela moça do peixe, você disse que ela se matou, certo?

— A irmã roubou o homem dela e ela se jogou da ribanceira.

— Da ribanceira Bluffs? — perguntou Chancho.

Andrew assente.

— Porque conheço um cara que levou sua namorada para lá e os dois

caíram. Ninguém morreu, só que ele fraturou a coluna, mas ainda assim

conseguia andar. Acho que ela caiu em cima dele.

— Nadia morreu. Quebrou aquele belo pescoço em 1926.

Chancho estreita os olhos para ele e joga a cabeça para trás,

avaliando.

— Você precisa se acertar com Jesus.

— Estou bem com Jesus.

Silêncio.

— Posso dirigir o Mustang?

— Se parar de falar sobre Jesus.

Chancho sorri.