Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 16
Minutos depois.
Chancho segura os protetores para Andrew e então começa a cantar
os golpes.
— Jab. Jab. Cruzado de direita. Jab duplo. Gancho de esquerda.
Chancho grita essas palavras com a mesma delicadeza de uma pessoa
arrumando flores em um velório.
— Agora venha pra cima — diz ele, deixando Andrew empurrá-lo
pelo quintal.
Chancho para de cantar os golpes, só segura os protetores e deixa o
amigo improvisar.
— Agora bata enquanto recua. Isso é muito importante. Você pode
derrubar um cara que acredita estar ganhando.
Chancho se movimenta lenta mas insistentemente para a frente,
alternando golpes, assentindo quando Andrew acerta um bem forte.
As luvas bem amarradas deixam marcas nos protetores. No quintal
dos fundos, o barulho dos socos se mistura agradavelmente ao gorjeio
dos pássaros e a um trator espalhando asfalto e terra na estrada à frente.
— Não me acerte — diz o mexicano, tocando as orelhas de Andrew
cuidadosamente com as luvas, para mostrar que está baixando a guarda.
— Vamos trocar — diz ele.
Andrew pega os protetores, preparando-se para a enxurrada de golpes
que vai receber. De qualquer maneira, continua feliz: os exercícios o
deixaram cansado.
O barulho dos socos fica mais rápido e mais intenso agora, e o
homem maior afasta o menor, mexendo a cabeça e os ombros como um
chimpanzé irritado. Chancho fora um boxeador formidável quinze anos
antes e poderia ter se profissionalizado se não gostasse tanto de cerveja
— ele nunca conseguiu ter uma barriga de tanquinho. O modo mais óbvio de derrotar Chancho era fazendo com que ele se cansasse — e
vários conseguiram, impedindo que ele largasse o emprego diário.
Mas muitos não conseguiam: para cansar Chancho, era preciso
aguentar seus golpes de urso, que eram duros, ou não absorvê-los, o que
era quase impossível.
E era preciso não fumar um maço por dia.
— Certo, chega de bater.
— Graças aos deuses.
— Agora os cotovelos. — Chancho só sussurra, abrindo um sorrisão
embaixo do bigode antiquado e desigual, que está ficando grisalho. Só
os pelos acima do queixo o impedem de parecer como se saído de um
episódio da série policial dos anos 1970 Starsky e Hutch.
Chancho dá cotoveladas, de modo que o mago possa descansar os
pulmões um pouco mais. Os braços tatuados batem nos protetores com
força e o cotovelo esquerdo exibe a tatuagem da estrela do Texas, onde o
grandalhão vivia até encontrar Jesus e parar de mexer com drogas. Ou
melhor, parar de proteger pessoas que mexiam com drogas.
Chancho sempre seria o primeiro cara que uma pessoa gostaria de
encontrar no ringue e o último que alguém gostaria de encontrar em um
estacionamento. Ou ver entrando por uma porta de vidro com uma
máscara de lucha libre.
Andrew está se sentindo tonto e exausto, mas Chancho quer que ele
vá em frente, então ele vai, e o suor molha seus cabelos compridos
mesmo no rabo de cavalo, fazendo o peito nu brilhar e umedecer o cós
da calça jeans.
— Agora você. Mexa a cintura. Você é pequeno, por isso é ainda
mais importante que consiga se esquivar. Quero vinte de cada lado.
Quando os protetores molhados e fedorentos estão sobre a mesa e os
homens ofegantes se sentam nos bancos, Salvador entra pela porta dos
fundos carregando garrafas de Coca-Cola mexicana em uma bandeja.
— Bom garoto — diz Andrew. — Obrigado.
Já faz seis anos desde que ele usou os livros secretos para trazer o
cachorro de volta. Chancho prega os olhos em Salvador: desviar o olhar dele é difícil, principalmente quando ele vira a cabeça de Dalí para olhar
nos seus olhos. A coisa se move tão... fluidamente.
Chancho gosta da Coca-Cola mexicana porque vem em garrafa de
vidro e tem açúcar, não é aquele xarope de milho que colocam em tudo
agora.
Ele gosta tanto que não se benze quando pega a garrafa do homem de
palha.
Ele se vira para olhar para Andrew.
— Você precisa parar de fumar.
Andrew, que sabe que está muito verde, só assente, bebendo o
refrigerante.
— Eu sei. Mas isso não é meio contraditório? Você fuma.
A gotas geladas no vidro verde das garrafas parecem o paraíso para
Chancho e ele observa a sua, pressionando-a contra a têmpora.
— Eu sei.
— Você fuma os meus cigarros, porra.
— Seus cigarros são bons.
— Então compre alguns. Eles vendem pra você.
— Precisaria ir à loja de hippie para isso.
— Só estou dizendo que um fumante não deve dizer a outro que ele
deve parar.
— Não fico ofegante como um aspirador de pó quebrado. Eu deveria
parar. Você tem que parar.
— Talvez.
— Não existe um carajo de um feitiço pra isso?
— Claro. Está bem do lado daquele usado para parar de beber.
Chancho sorri.
— Talvez possamos encontrar um hipnotizador.
— Já viu algum?
— Já ouvi falar.
— Bem, eles me assustam pra caralho — diz Andrew. — Vi um deles
fazer um cara pensar que tinha gozado em uma cafeteria. Aí, quando a garçonete chegou, o cara puxou a toalha de mesa, tentando cobrir a
cintura.
Chancho ri o suficiente para mostrar o espaço onde o dente atrás do
canino deveria ficar.
— Engraçado. Um homem assustando você. Um cara de carne e osso,
quero dizer. Sendo que você brinca com garotas, cães mortos e coisas
assim. Aquela moça do peixe, você disse que ela se matou, certo?
— A irmã roubou o homem dela e ela se jogou da ribanceira.
— Da ribanceira Bluffs? — perguntou Chancho.
Andrew assente.
— Porque conheço um cara que levou sua namorada para lá e os dois
caíram. Ninguém morreu, só que ele fraturou a coluna, mas ainda assim
conseguia andar. Acho que ela caiu em cima dele.
— Nadia morreu. Quebrou aquele belo pescoço em 1926.
Chancho estreita os olhos para ele e joga a cabeça para trás,
avaliando.
— Você precisa se acertar com Jesus.
— Estou bem com Jesus.
Silêncio.
— Posso dirigir o Mustang?
— Se parar de falar sobre Jesus.
Chancho sorri.