Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 57
Anneke toma café da manhã com eles no dia seguinte, os cabelos
endurecidos pelo pó de argila, os olhos inchados por ter dormido tão
pouco. Ela cheira a suor e raiva. Andrew quebra ovos e despeja o
conteúdo em furos feitos nos pães franceses quentes, enquanto ela olha
para Michael Rudnick. Salvador traz a prensa francesa despeja café na
xícara. Ela apanha uma, mas Michael balança um dedo para ela.
— O quê?
Essa foi a primeira coisa que ela disse desde que entrou.
— Use a mão para pegar essa xícara e vou jogá-la na sua cara.
Ela pisca duas vezes para não partir para cima dele.
Sente vontade de jogar alguma coisa naquele homem.
Mas resolve falar.
— Você está usando as mãos. Está levando a xícara à boca como todo
mundo.
Ele toma um gole de café só para provocar.
O velho a encara, com os olhos brilhando como falhas no quartzo.
Ele não precisa dizer: ela entende. Michael não tem nada a provar.
Tem o próprio regime, abriu e consertou a fundação de sua casa seis
vezes este ano, leva quarenta tijolos empilhados todos os domingos,
transforma coelhos, esquilos e corças em pedra no meio do caminho e
volta a animá-los. É um filho da puta poderoso com olhos de Medusa e
coração de geólogo, e vai usar as mãos, se e quando quiser.
É ela que cuida dos detalhes.
Anneke desvia o olhar irritado dos olhos de Michael para a xícara
fumegante à sua frente. De argila colorida, com toques de arte, de uma
feira artesanal em Ithaca. Ela sente a argila ali como se fosse uma parte
separada dela, acredita ser parte dela, sente o calor do café na xícara que
agora é como sua carne, mas a sensação é abafada, desaparece.
A xícara é como um membro adormecido. É difícil fazer com que se
mova, e a alça formiga em solidariedade.
Isso é mais difícil do que levantar panelas e pratos vazios, o que
acabou ficando fácil no fim: quando Anneke estava perto de zerar a
pilha, mantinha duas peças levantadas de vez.
Apesar da primeira. Doía entre os olhos, como uma dor de cabeça
depois de tomar sorvete, mas no lugar errado. Ela precisou de duas horas
para se livrar da primeira peça, que então caiu imediatamente de sua
mão mental fraca e se quebrou. Quase derrubou a parede toda. Michael
espiou pela abertura e a auxiliou, ajudando a firmar a parede. O segundo
item, uma taça de vinho, também foi difícil e também tinha se quebrado.
O terceiro, uma caneca de cerveja, escorregou, mas numa descida
controlada que, embora ela não tenha conseguido impedir, ao menos
diminuiu de velocidade o suficiente para que o recipiente sobrevivesse à
queda. Foi como ver um paraquedista cair um pouco mais forte do que
desejava.
Aquele tinha sido seu primeiro ato significativo de magia.
Ela vinha fazendo exercícios com uma moeda de um centavo e com
um caco de vidro. Em seguida, conseguiu mover areia com delicadeza,
como um gatinho com a pata, e por fim rachou uma taça fina de vinho.
Pegar aquela caneca de um ponto alto foi algo diferente.
Ela salvaria aquela caneca.
Beberia água Mountain Dew nela quando voltasse da reabilitação.
Mas aquilo...
Uma xícara cheia de café. Sem falar que não tinha feito aquela xícara,
não tinha uma ligação intuitiva com ela. O peso do líquido confunde
Anneke, multiplica-se como peso na ponta errada de uma alavanca. É
mais pesado, sim, mas ela está mais forte do que estava um dia antes: é
uma luta justa. Ela range os dentes, sente algo se enrolando dentro dela,
preparando-se para se expandir.
Vê a xícara de café subindo, consegue avançar, derruba um pouco de
café na mesa de Andrew.
Resmunga.
Tenta de novo.
A xícara balança, o café cai pelos lados, derramando na mesa.
Anneke leva o recipiente aos lábios, começa a inclinar a cabeça, vê
Michael fazendo um gesto para que ela fique parada.
Deixe a xícara fazer o trabalho, pensa ela, e então se lembra das
palavras de Michael quando ficou na porta dando as instruções.
Deixe a xícara se mexer, não faça com que ela se mexa. Como no
arco e flecha, no golfe ou no boliche, o segredo é relaxar, não ficar
tensa.
Algo em seu íntimo relaxa.
A xícara se aproxima, meio cambaleante, sem saber se deve
permanecer no ar. Agora, o recipiente treme em seus lábios,
chacoalhando tanto que a superfície do café se remexe e forma ondas.
Ela beberica.
O café quente em seus lábios faz com que Anneke volte a si.
A xícara cai, faz um barulho, mas não quebra, e o café se espalha pela
mesa, pelo colo dela, por toda parte.
Michael assente como se dissesse Bom trabalho.
Ele comenta:
— Da próxima vez, você vai estar pronta e não vai se distrair com o
calor.
Andrew, que havia acabado de tirar os pães do fogão, se aproxima
com um pano.
Por que ele está me dando um pano?
Ah, o café.
Gotas de sangue se espalham na mesa, misturando-se com o café.
Não só o café.
Sangue do nariz.
O feitiço me fez sangrar.
A primeira vez foi só brincadeira, mas agora é sério.
Perdeu o cabaço, como gostavam de dizer os caras que me ajudaram
a preferir garotas.
Ela pega o pano.
— Bem-vinda ao clube — diz Andrew.
O café da manhã está gostoso.
Antes de saírem da cozinha, Michael faz Anneke transformar um
tomate-cereja em uma pedra. Isso demora meia hora. Sua menstruação,
que só viria na semana seguinte, desce forte, fazendo com que ela saia
correndo para pegar os absorventes que deixou no banheiro de visitas.
Ela se deita no quarto de hóspedes, pretendendo descansar os olhos e
a cabeça, que lateja, mas adormece e permanece assim por dois dias.
Quando acorda, Andrew lhe entrega um envelope.
A pedra está ali dentro, junto com um bilhete.
SE QUISER APRENDER A TORNAR ISTO UM TOMATE DE NOVO, VENHA
PASSAR UMA SEMANA EM VERMONT.
MAS SEM BEBIDA.
PRECISO DE VOCÊ SÓBRIA.
O endereço de Michael Rudnick.
Ela apanha o tomate-cereja petrificado e sai.