Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 56 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 57

 

Anneke toma café da manhã com eles no dia seguinte, os cabelos

endurecidos pelo pó de argila, os olhos inchados por ter dormido tão

pouco. Ela cheira a suor e raiva. Andrew quebra ovos e despeja o

conteúdo em furos feitos nos pães franceses quentes, enquanto ela olha

para Michael Rudnick. Salvador traz a prensa francesa despeja café na

xícara. Ela apanha uma, mas Michael balança um dedo para ela.

— O quê?

Essa foi a primeira coisa que ela disse desde que entrou.

— Use a mão para pegar essa xícara e vou jogá-la na sua cara.

Ela pisca duas vezes para não partir para cima dele.

Sente vontade de jogar alguma coisa naquele homem.

Mas resolve falar.

— Você está usando as mãos. Está levando a xícara à boca como todo

mundo.

Ele toma um gole de café só para provocar.

O velho a encara, com os olhos brilhando como falhas no quartzo.

Ele não precisa dizer: ela entende. Michael não tem nada a provar.

Tem o próprio regime, abriu e consertou a fundação de sua casa seis

vezes este ano, leva quarenta tijolos empilhados todos os domingos,

transforma coelhos, esquilos e corças em pedra no meio do caminho e

volta a animá-los. É um filho da puta poderoso com olhos de Medusa e

coração de geólogo, e vai usar as mãos, se e quando quiser.

É ela que cuida dos detalhes.

Anneke desvia o olhar irritado dos olhos de Michael para a xícara

fumegante à sua frente. De argila colorida, com toques de arte, de uma

feira artesanal em Ithaca. Ela sente a argila ali como se fosse uma parte

separada dela, acredita ser parte dela, sente o calor do café na xícara que

agora é como sua carne, mas a sensação é abafada, desaparece.

A xícara é como um membro adormecido. É difícil fazer com que se

mova, e a alça formiga em solidariedade.

Isso é mais difícil do que levantar panelas e pratos vazios, o que

acabou ficando fácil no fim: quando Anneke estava perto de zerar a

pilha, mantinha duas peças levantadas de vez.

Apesar da primeira. Doía entre os olhos, como uma dor de cabeça

depois de tomar sorvete, mas no lugar errado. Ela precisou de duas horas

para se livrar da primeira peça, que então caiu imediatamente de sua

mão mental fraca e se quebrou. Quase derrubou a parede toda. Michael

espiou pela abertura e a auxiliou, ajudando a firmar a parede. O segundo

item, uma taça de vinho, também foi difícil e também tinha se quebrado.

O terceiro, uma caneca de cerveja, escorregou, mas numa descida

controlada que, embora ela não tenha conseguido impedir, ao menos

diminuiu de velocidade o suficiente para que o recipiente sobrevivesse à

queda. Foi como ver um paraquedista cair um pouco mais forte do que

desejava.

Aquele tinha sido seu primeiro ato significativo de magia.

Ela vinha fazendo exercícios com uma moeda de um centavo e com

um caco de vidro. Em seguida, conseguiu mover areia com delicadeza,

como um gatinho com a pata, e por fim rachou uma taça fina de vinho.

Pegar aquela caneca de um ponto alto foi algo diferente.

Ela salvaria aquela caneca.

Beberia água Mountain Dew nela quando voltasse da reabilitação.

Mas aquilo...

Uma xícara cheia de café. Sem falar que não tinha feito aquela xícara,

não tinha uma ligação intuitiva com ela. O peso do líquido confunde

Anneke, multiplica-se como peso na ponta errada de uma alavanca. É

mais pesado, sim, mas ela está mais forte do que estava um dia antes: é

uma luta justa. Ela range os dentes, sente algo se enrolando dentro dela,

preparando-se para se expandir.

Vê a xícara de café subindo, consegue avançar, derruba um pouco de

café na mesa de Andrew.

Resmunga.

Tenta de novo.

A xícara balança, o café cai pelos lados, derramando na mesa.

Anneke leva o recipiente aos lábios, começa a inclinar a cabeça, vê

Michael fazendo um gesto para que ela fique parada.

Deixe a xícara fazer o trabalho, pensa ela, e então se lembra das

palavras de Michael quando ficou na porta dando as instruções.

Deixe a xícara se mexer, não faça com que ela se mexa. Como no

arco e flecha, no golfe ou no boliche, o segredo é relaxar, não ficar

tensa.

Algo em seu íntimo relaxa.

A xícara se aproxima, meio cambaleante, sem saber se deve

permanecer no ar. Agora, o recipiente treme em seus lábios,

chacoalhando tanto que a superfície do café se remexe e forma ondas.

Ela beberica.

O café quente em seus lábios faz com que Anneke volte a si.

A xícara cai, faz um barulho, mas não quebra, e o café se espalha pela

mesa, pelo colo dela, por toda parte.

Michael assente como se dissesse Bom trabalho.

Ele comenta:

— Da próxima vez, você vai estar pronta e não vai se distrair com o

calor.

Andrew, que havia acabado de tirar os pães do fogão, se aproxima

com um pano.

Por que ele está me dando um pano?

Ah, o café.

Gotas de sangue se espalham na mesa, misturando-se com o café.

Não só o café.

Sangue do nariz.

O feitiço me fez sangrar.

A primeira vez foi só brincadeira, mas agora é sério.

Perdeu o cabaço, como gostavam de dizer os caras que me ajudaram

a preferir garotas.

Ela pega o pano.

— Bem-vinda ao clube — diz Andrew.

 

O café da manhã está gostoso.

Antes de saírem da cozinha, Michael faz Anneke transformar um

tomate-cereja em uma pedra. Isso demora meia hora. Sua menstruação,

que só viria na semana seguinte, desce forte, fazendo com que ela saia

correndo para pegar os absorventes que deixou no banheiro de visitas.

Ela se deita no quarto de hóspedes, pretendendo descansar os olhos e

a cabeça, que lateja, mas adormece e permanece assim por dois dias.

Quando acorda, Andrew lhe entrega um envelope.

A pedra está ali dentro, junto com um bilhete.

 

SE QUISER APRENDER A TORNAR ISTO UM TOMATE DE NOVO, VENHA

PASSAR UMA SEMANA EM VERMONT.

MAS SEM BEBIDA.

PRECISO DE VOCÊ SÓBRIA.

 

O endereço de Michael Rudnick.

Ela apanha o tomate-cereja petrificado e sai.