Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 119 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 121

 

 

Baba Yaga, ou sua morte, ou sua essência de vida, ou sua alma, se

preferir, vê o corpo de Marina Yaganishna pelo lado de fora. Vê que o

corpo contraiu os músculos, vê que o guerreiro está respirando devagar,

mantendo-se rígido. Ela corre até ele, tenta empurrar, mas é mais fácil

defender um corpo do que pegar um, quando você sabe que está sob

ataque.

Ela vê o antigo corpo cair, segurando os joelhos contra o peito.

O Ladrão fez sua análise — se tentasse ficar de pé naquele corpo

novo, com todos os músculos estranhos se remexendo e a massa cerebral

ondulando para acomodar os novos padrões de pensamento e o novo

pensador, ele ficaria vulnerável, e ela poderia empurrá-lo para fora outra

vez.

Mas ele, ou ela agora, cai no chão e respira.

Vomita a carne de porco e as maçãs que almoçou — a náusea é

normal.

Continua respirando, mantém os músculos tensos de modo que ela

tenha consciência de seu perímetro, de modo que ela possa relacionar

todas as suas partes.

Baba percebe que é inútil.

Ela está sendo fechada.

Por enquanto.

E então.

Ah, Deus.

Ele vem.

A luz.

A luz quente e reconfortante.

Seu filho, o doce e fraco Misha, já foi para a luz para brincar com

gatinhos e para se sentar no colo de Jesus e tocar a balalaica ou o que quer que as pessoas toquem lá, onde todos são iguais.

Até parece!

Todos não são iguais.

A luz quente espera do lado de fora da parede da biblioteca e Baba

sabe que poderia passar por aquela parede e entrar, mas então não seria

mais esperta ou mais forte do que outra pessoa, e isso parece péssimo

para ela.

Pode ser até julgada, se os padres estiverem certos.

Mas ela estava ali bem antes de os padres chegarem à sua terra.

Ela estava ali quando os mortos foram queimados em cabanas em

pequenos montes com círculos por todos os lados.

Ela ainda era uma garota quando pediu à mulher que conversava com

Chert, o deus-sombrio, para ajudá-la a se livrar do novo marido da mãe,

o nojento que preferia comê-la e a comia sempre que sua mãe ia para a

rua. E o homem a mandava para a rua muitas vezes. Como ela detestava

ver os dentes dele enquanto ele rosnava, gemia e suava sobre ela.

Odiava ouvi-lo urinando do lado de fora da casa.

A Mãe Terra Úmida nunca ouviu suas preces, mas o deus-sombrio,

sim.

O marido da mãe caiu em um buraco: os irmãos dele viram mãos

pegá-lo, viram uma mão com uma rocha quebrar seus dentes, outra mão

arrancar seu pênis até a terra preta interromper os gritos do padrasto e

ele desaparecer para sempre.

Qual era o nome dela, então?

Fazia tempo demais para lembrar. Ela costumava anotar, mas perdeu

o caderninho e o interesse em encontrar de novo.

Ela acredita ouvir a voz de Misha vindo da luz.

Baba. Venha comigo para cá. É bom aqui.

E você é meu pai para me dizer o que fazer? Você que deve vir aqui.

Não quero.

Quantos filhos, filhas, irmãs e mães você acha que tentaram me levar

até aí? Diga a essa luz para ir pastar e sumir.

Adeus, Baba.

Sim, sim. Aproveite a balalaica.

Mas aquela podia ser apenas sua mente falando consigo mesma.

De qualquer modo, a luz para de se prender a ela e desaparece.

É quando ela escuta

Com que ouvidos?

a porta da frente se abrir.

Se ao menos ela tivesse uma boca para sorrir.