Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 121
Baba Yaga, ou sua morte, ou sua essência de vida, ou sua alma, se
preferir, vê o corpo de Marina Yaganishna pelo lado de fora. Vê que o
corpo contraiu os músculos, vê que o guerreiro está respirando devagar,
mantendo-se rígido. Ela corre até ele, tenta empurrar, mas é mais fácil
defender um corpo do que pegar um, quando você sabe que está sob
ataque.
Ela vê o antigo corpo cair, segurando os joelhos contra o peito.
O Ladrão fez sua análise — se tentasse ficar de pé naquele corpo
novo, com todos os músculos estranhos se remexendo e a massa cerebral
ondulando para acomodar os novos padrões de pensamento e o novo
pensador, ele ficaria vulnerável, e ela poderia empurrá-lo para fora outra
vez.
Mas ele, ou ela agora, cai no chão e respira.
Vomita a carne de porco e as maçãs que almoçou — a náusea é
normal.
Continua respirando, mantém os músculos tensos de modo que ela
tenha consciência de seu perímetro, de modo que ela possa relacionar
todas as suas partes.
Baba percebe que é inútil.
Ela está sendo fechada.
Por enquanto.
E então.
Ah, Deus.
Ele vem.
A luz.
A luz quente e reconfortante.
Seu filho, o doce e fraco Misha, já foi para a luz para brincar com
gatinhos e para se sentar no colo de Jesus e tocar a balalaica ou o que quer que as pessoas toquem lá, onde todos são iguais.
Até parece!
Todos não são iguais.
A luz quente espera do lado de fora da parede da biblioteca e Baba
sabe que poderia passar por aquela parede e entrar, mas então não seria
mais esperta ou mais forte do que outra pessoa, e isso parece péssimo
para ela.
Pode ser até julgada, se os padres estiverem certos.
Mas ela estava ali bem antes de os padres chegarem à sua terra.
Ela estava ali quando os mortos foram queimados em cabanas em
pequenos montes com círculos por todos os lados.
Ela ainda era uma garota quando pediu à mulher que conversava com
Chert, o deus-sombrio, para ajudá-la a se livrar do novo marido da mãe,
o nojento que preferia comê-la e a comia sempre que sua mãe ia para a
rua. E o homem a mandava para a rua muitas vezes. Como ela detestava
ver os dentes dele enquanto ele rosnava, gemia e suava sobre ela.
Odiava ouvi-lo urinando do lado de fora da casa.
A Mãe Terra Úmida nunca ouviu suas preces, mas o deus-sombrio,
sim.
O marido da mãe caiu em um buraco: os irmãos dele viram mãos
pegá-lo, viram uma mão com uma rocha quebrar seus dentes, outra mão
arrancar seu pênis até a terra preta interromper os gritos do padrasto e
ele desaparecer para sempre.
Qual era o nome dela, então?
Fazia tempo demais para lembrar. Ela costumava anotar, mas perdeu
o caderninho e o interesse em encontrar de novo.
Ela acredita ouvir a voz de Misha vindo da luz.
Baba. Venha comigo para cá. É bom aqui.
E você é meu pai para me dizer o que fazer? Você que deve vir aqui.
Não quero.
Quantos filhos, filhas, irmãs e mães você acha que tentaram me levar
até aí? Diga a essa luz para ir pastar e sumir.
Adeus, Baba.
Sim, sim. Aproveite a balalaica.
Mas aquela podia ser apenas sua mente falando consigo mesma.
De qualquer modo, a luz para de se prender a ela e desaparece.
É quando ela escuta
Com que ouvidos?
a porta da frente se abrir.
Se ao menos ela tivesse uma boca para sorrir.