Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 51 de 134

Páginas do PDF

Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 52

 

 

Andrew aparece no banheiro do café do Dino’s em Yellow Springs,

Ohio. Uma mulher de cerca de quarenta anos está perto dele,

boquiaberta, com o smartphone na mão, confusa. Ele não pensaria que

ela era o tipo de pessoa que gostava de Angry Birds, mas é o que está

jogando. Ela começa a puxar a calça acima do joelho e move os lábios

como se quisesse formar uma palavra. Parece que a palavra vai ser

Quem. No entanto, antes de ela começar a falar, ele sorri de modo

desconcertante e diz:

— Sei que você está um pouco assustada, mas não tem nada com que

se preocupar. Não estou aqui de verdade.

— Claro que não está — comenta ela, como se confirmasse a

inocência de uma criança injustamente acusada, e volta ao jogo.

Andrew entra no corredor, fecha a porta, espia a sala dos fundos. Seu

amigo Eric, um simpático músico e poeta de barba vermelha que atua

como prefeito não oficial de Yellow Springs, diz “Paisan!” quando vê o

mago, se levanta e lhe dá um abraço fraternal, com direito a tapinhas nas

costas.

— Posso pegar seu carro emprestado por duas horas?

Eric lhe entrega as chaves.

 

O carro emprestado tem cheiro de criança.

Andrew coloca o buquê de girassóis e a única garrafa de cerveja

Yuengling no banco de trás, ao lado de um martelo de brinquedo e uma

meia cor-de-rosa minúscula.

Ele dirige na direção de Enon.

Ele dirige para casa.

 

O céu brilha em um cinza-claro e sem sol feito para castigar as pessoas

de ressaca. Por sorte, Anneke está cuidando da dela a dois estados dali, e Andrew não está de ressaca. Só exausto.

O cemitério Enon é um dos três da região: Mud Run e Prairie Knob

(atrás do escritório do posto de gasolina) estão fechados agora, cheios de

mortos da época da Guerra Civil. O cemitério Enon tem o corpo de

vários combatentes, principalmente descansando sob lápides, mas

algumas dezenas dos obeliscos brancos são em homenagem aos mortos

mais ricos do século XIX, projetados como espinhas de peixe. Saído de

um monte, o maior sobe em direção ao céu com o seguinte epitáfio:

 

EM MEMÓRIA DOS PATRIOTAS

DA CIDADE MAD RIVER

QUE MORRERAM PELO PAÍS

1865

 

O segundo obelisco maior lembra um tal de Leander J.M. Baker e sua

esposa, Martha. Um monumento fálico de Ed Baker desponta ali perto,

os dois além de um sexteto de pináculos menores em primeiro plano,

todos pertencentes aos Funderburgh, que adoram se divertir. Andrew

segue por monumentos mais baixos e mais escuros entre os velhos

obeliscos e túmulos de meados dos anos 1980, quando ficou decidido

que seria eliminada a passagem que costumava dividir essa parte do

cemitério e que começariam a plantar Enonites entre os antepassados.

Andrew se ajoelha diante da pequena lápide de sua mãe e então

coloca os girassóis no chão, sem se preocupar em depositá-los em um

vaso ou na água. Era assim que sua mãe deixava flores para o vovô John

Standingcorn.

As flores são para os mortos, não para os vivos. Muitas pessoas

colocam na água só para aparecer. Quanto antes as flores apodrecerem,

mais depressa o vovô vai recebê-las.

 

ELIZABETH

STANDINGCORN

BLANKENSHIP

As letras se acumulam de um jeito esquisito na pedra cinza-rosada e ele

franze a testa lembrando da briga que teve com o irmão a respeito de

incluir o sobrenome de solteira da mãe, de origem indígena, da tribo

shawnee.

Ela nunca usava esse sobrenome. É comprido demais. E não é

cristão.

Lembra-se como se fosse ontem de Charley de pé diante de si,

levantando um dedo para cada um desses argumentos até formar um

tridente com a mão, sem perceber a ironia.

Charles Stewart Blankenship não entende ironia.

Como também não supervisionou, uma ligação de última hora de

Andrew à empresa do monumento resolveu a questão do Standingcorn.

Charles odeia seu sangue indígena e provavelmente agradece a seu

Jesus branco todas as noites por ter herdado a pele rosada e os cabelos

castanhos do pai, deixando para Andrew a pele morena e a juba bem

preta do avô.

Charley não quer ter nada parecido com seu irmão aparentemente

índio afeito ao ocultismo.

O Blankenship mais velho ficou rico com uma série de CDs sobre

como ficar rico. Com Jesus. Chama-se A Pescaria e revela a quem ouve

como focar a concentração para fazer a riqueza aparecer. Dizer certas

coisas ritualísticas todos os dias, acreditar e visualizar. Implorar fartura

ao Pescador.

Funciona.

Pelo menos funciona para Charley, que é levemente luminoso.

E provavelmente para todas as outras pessoas que também são.

O fato de seu irmão mais velho, que odeia magia, ter se tornado

milionário praticando sem disposição a magia de nível básico é uma das

melhores ironias que Andrew Ranulf Blankenship conhece.

Charley diria que não se trata de magia porque usa Jesus para fazer a

grana rolar. Andrew não entende muita coisa sobre Jesus, se é que existe

mesmo um, mas duvida que o cara que disse que seria mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino

do céus estaria multiplicando verdinhas para seus crentes.

Charley não distingue hipocrisia.

Charley não entende hipocrisia.

Mas o pai deles entendia.

O pai deles, o policial, era um verdadeiro pescador, não de homens

ou de verdinhas, mas de trutas.

Andrew abre e despeja a cerveja Yuengling na grama diante da lápide

ao lado da de Elizabeth, que simplesmente diz:

 

GEORGE

BLANKENSHIP

 

— Sinto muito pela cerveja estar quente, pai.

 

Ele dirige o carro de Eric a alguns quarteirões a partir do cemitério e

estaciona na Indian Drive, perto da esquina do monte. O monte é dos

índios adena, não shawnee: os adenas se estabeleceram ali quando Jesus

era adolescente.

Pula a cerquinha ao redor, lembrando-se de como ele e as outras

crianças não demonstravam respeito por aquilo que ele chamou de “teta

da terra”. Foi ali que fumou seu primeiro baseado, em uma noite sem lua

em novembro de 1975, com as três árvores segurando as últimas folhas

do ano. Isso não foi tão ruim, mas então ele deu uma bela e longa mijada

em uma daquelas árvores, para arrancar o riso dos amigos.

Eles riram, mas não queriam rir.

Ele riu também.

Lembra-se do sonho que teve naquela noite. Estava amarrado à

árvore na qual havia mijado e um homem com morangos no lugar de

olhos dançava ao seu redor, batendo diversas vezes em seu rosto com

um porco-espinho morto na ponta de uma lança. O porco-espinho

cheirava mal. Andrew tinha certeza de que acabaria sendo cegado por

um golpe final e decisivo, e então, de repente e de modo doloroso, isso aconteceu. Aparentemente, ele não havia esvaziado a bexiga direito

antes, porque acordou em lençóis frios e molhados.

Nunca mais urinou no monte onde os adenas tinham sido enterrados.

 

Ele permanece ali por dez minutos.

O sol esquenta seu rosto.

Mais quente do que em Nova York.

E então ele se vai.