Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 43 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 44

 

Dia.

A casa dos espíritos.

Andrew está na sala de estar da frente, perto da lareira apagada,

observando o homem nervoso agachado diante das árvores. O homem

veste uma camiseta de cor indeterminada, tão rasgada que deixa à

mostra os ombros ossudos e um mamilo — a gola da camiseta é o que

ainda mantém aquele trapo no corpo dele. A estampa do peito exibe o

que parece ser um Pac-Man desbotado com fantasmas em seu encalço.

As pernas do homem estão dentro de uma calça jeans suja de lama, que

parece prestes a cair e revelar as coxas do mártir. Os cabelos molhados e

a barba não aparada fazem com que ele se pareça um João Batista

moderno ou um Charles Manson mais novo. Não há fios prateados

naquela juba preta. Ele é jovem. Pelos movimentos, mais de macaco e

menos de gato, Andrew imagina que o rapaz tenha cerca de vinte anos.

O sujeito afasta os arbustos e se movimenta abaixado, cheirando,

ouvindo e também olhando. Mas Andrew gosta menos do olhar.

Ele vê a casa.

Ninguém que não é convidado vê a maldita casa.

Era esse o propósito do feitiço de três meses que Andrew criou,

enterrando os cacos de vidro e a pele seca de camaleões em um círculo,

pintando as paredes com tinta que havia escondido em público por um

mês e acrescentando tinta de polvo, entoando a Ilíada e a Odisseia, em

grego de Homero, para provocar uma cegueira benigna em quem subisse

o monte e olhasse para a casa. Claro, as pessoas que sabiam que ele

estava ali poderiam ver. No entanto, como seu endereço não está

disponível na lista, as únicas pessoas que sabiam que a casa ficava ali

eram amigos e vizinhos do bairro, que conheciam a casa antes que ele

tivesse comprado, há muitos anos.

Aquele jovem olha pela janela e para ele. Mesmo sem uma sombra

mágica, o ângulo do sol deveria fazer as janelas refletirem, deveriam

lançar tanta luz na direção contrária que as cortinas se tornariam escudos

de árvores e céu, impedindo que algum olhar escapasse ou adentrasse o

coração frio da casa.

Mas aquele homem consegue vê-lo.

Andrew caminha para trás, para longe da janela — o rapaz parece

acompanhá-lo em seu movimento, e Andrew espera perto da lareira

antes de seguir até a segunda janela. Quando chega lá, o rapaz já havia

partido. Totalmente. Será que esteve ali antes? Andrew passa a língua

sobre os lábios e olha para a prateleira sobre a lareira, onde seu uísque

ficava antes de ele tirar toda a bebida alcoólica da casa.

Pense em uma garrafa ali, você tem um feitiço para que seis frases e

uma picada de agulha façam brotar uma garrafa onde a gota de sangue

cair.

Ele deixa isso de lado e volta para a primeira janela, de onde observa,

com os pacientes olhos de um caçador, o local arborizado onde avistou o

Pac-Man. Já não percebe movimento, nenhum ombro ou tronco entre a

vegetação. Mas agora ele quer uma bebida, e quer muito.

Um remédio funciona melhor do que qualquer outro para tirar aquele

ruído de sua mente.

A sala de peles.

 

Ele vai até a porta de carvalho e fecha os olhos, lembrando-se da

primeira caçada, lembrando-se do pedaço de coração que seu tio lhe

oferecera com a faca.

A porta vai se abrir a você apenas quando comer o coração de algo

morto por suas próprias mãos.

Ele desliza a trava de latão e se vira, sentindo a porta se abrir com

facilidade. É uma peça pequena, com cabeças de cervos nas paredes,

mapas e um antigo armário de cada lado. Ele se dirige para abrir uma

janela que dá para uma espécie de alameda de árvores que leva ao

monte, em direção ao caminho da floresta.

Vou matar dois coelhos com uma cajadada só. Vou correr até a mata

para ver se consigo encontrar o rapaz que se parece com Jesus.

Devo ir com medo ou depressa?

O cara está armado?

Não parecia.

E se ele estiver vendo que estou me aprontando?

Ele que se foda. Que veja. Talvez se cague todo.

Andrew abre a janela bem devagar, sem fazer barulho: é sempre

melhor abrir a janela primeiro, enquanto ainda tem polegares.

Abre o armário da esquerda, a porta encobre sua visão da janela, e ele

observa a seleção de peles penduradas em ganchos de ferro. Raposa.

Lobo. Urso. Cervo. Lince. Todos animais nativos, que certamente

correm por essas matas. O armário da direita tem mais peles exóticas,

peles para ocasiões especiais.

Não, ele vai ser uma fera de Nova York hoje.

Ele passa a mão no pelo preto de urso.

Ele matou esse urso com um arco laranja osage e uma flecha feita por

um flecheiro na Pensilvânia.

Ele batizou o urso de Norris.

Norris está bom.

Agora, ele enfia o polegar no umbigo e empurra, dizendo em francês

antigo: “Eu me abro”. Imagina o polegar escorregando por baixo da

pele, e escorrega. Não machuca, exatamente, mas a sensação é bem

assustadora. Ele passa o polegar por baixo e tira a própria pele. Pendura

a pele em um gancho vazio no armário. Precisa ser rápido agora — não

pode ficar por aí sem pele —, então apanha a pele preta do urso e coloca

sobre os ombros, sentindo que ela se encaixa, que o envolve totalmente

de modo que suas pernas se tornam as pernas do urso e seu pau se torna

o pau do urso, e o focinho fareja frutinhas, e Andrew assume sua

condição de urso e sai pela janela de modo engraçado.

Vamos ver se o camiseta de Pac-Man curte isso.

Sentir o cheiro do rapaz é fácil com o focinho do urso: o cheiro é forte,

humano e acentuado, inocente. Ele abaixa a cabeça e entra na mata, com

os ombros pretos e brilhantes de urso em movimento, avançando. Não

muito longe da casa, perto da plantação de morangos, precisa de toda a

sua força de vontade humana, vencendo a força do urso, para deixar de

lado a busca de alimentos e se concentrar e cheirar um monte de merda.

Merda humana na mata não é algo estranho para o urso, mas o Andrew-

dentro-do-urso se sente um tanto ofendido ao ver que uma pessoa, além

de ter espiado sua casa, ainda teve a audácia territorial de deixar seus

resíduos.

Resíduos estranhos para um homem, aliás.

Esse sujeito com certeza devora fast-food como muitas crianças —

hambúrguer barato de carne de boi inchada por hormônios, banhada de

conservantes e desespero —, mas não mastiga muito antes de engolir.

Sua dieta também inclui besouros. O indivíduo havia tirado larvas de

cigarra do chão, comido minhocas da terra cruas e cozinhado besouros

com gordura de esquilo. Além disso, havia comido esquilos e até ossos

finos de esquilos.

Muito rápido ou bom com armadilhas.

Ou uma boa tentativa.

Mas não sinto cheiro de arma nem de pólvora.

Um homem consegue matar um urso sem arma de fogo.

Você conseguiu.

Isso é mais menino do que homem.

O menino também comeu morangos.

Meus morangos!

Ah, não, nem a metade.

Andrew fareja e passa pelo local onde o rapaz estivera agachado,

olhando para a janela. Segue rastros e odores dentro da mata e, em

pouco tempo, se vê olhando para a janela que leva para a sua sala de

peles.

O rapaz está entre a linha das árvores e a janela aberta, observando

por uma fresta. Ele não apenas vê a casa, como está prestes a entrar!

Que se foda!

O Andrew-dentro-do-urso se remexe e parte para cima do rapaz, que

se vira e olha de modo passivo para ele. Seria justo dizer que o rapaz

parece curioso, mas não cheira a medo como o Andrew-dentro-do-urso

esperava.

O urso se aproxima do rapaz e então fica de pé.

Só um pouco mais alto nas patas traseiras: Norris não tinha sido um

urso enorme, mas, ainda assim, era letal.

Ele expira o hálito de urso no rosto do rapaz, que fica só olhando.

Por que não corre?

O Andrew-dentro-do-urso empurra o peito do rapaz com as patas

dianteiras, sem força, mas também sem muita delicadeza. O rapaz vai

para trás, mas não faz menção de se retirar.

Certo, você quer mais agressividade? Posso fazer isso.

Ele apanha a calça jeans do rapaz com os dentes, escorregando as

presas cirurgicamente para dentro da linha da cintura. Em um

movimento, joga a presa para trás, rasgando parte da calça: o rapaz cai

para, logo depois, conseguir se levantar. Começa a se afastar, mas não

está assustado.

Mais rápido, seu merdinha.

Agora, o urso corre atrás dele, estendendo as garras — não para

perfurar, mas com força suficiente para derrubar.

Para surpresa de Andrew, o camiseta de Pac-Man não se levanta desta

vez, mas começa a correr de quatro. O urso parte atrás em duas patas: o

Andrew-dentro-do-urso está levemente consciente da ironia da situação.

Um pouco antes de o jovem chegar à linha das árvores, fica de pé de

novo e lança outro olhar demorado ao urso. Um olhar de análise, de

cálculo.

Calcule isto.

O urso corre e o rapaz foge.

Quem é esse cara?

Não, sério, que porra foi aquela?

O urso parte de volta em direção à casa, olhando para trás e farejando

o ar uma ou duas vezes, para ter certeza de que o invasor realmente se

fora.

Em seguida se aproxima da plantação de morangos e come até quase

passar mal.

Dominado demais pela fome de urso, ele nem percebe que os frutos

estão congelados.