Bem-Vindo à Casa dos Espíritos
Capítulo 81
A garota puxou bastante ar antes de Misha arrastá-la para baixo.
Só que agora ele não está conseguindo segurá-la — é difícil para
Misha se tornar real o suficiente para tocar as coisas, mas ele tem
tentado melhorar nesse quesito. Ansiava pelo momento em que poderia
fazer isso, pegar a coisa não natural e arrebentá-la. Mesmo praticando
com pedras e algas, sabia que nunca seria assim. A rusalka era tão
poderosa que poderia dissolver ele e os outros três fantasmas nas ruínas
só lançando um olhar torto para eles, espalhando-os como cardumes de
peixes pequenos.
Mas ela já não é mais uma rusalka.
Ele não sente mais raiva.
Foi muito bom para ele dar um susto no mago.
Parecia justo, ele só tinha algumas queixas.
Mas deixar aquela moça se afogar?
Misha olha nos olhos assustados dela, não encontra semelhanças,
apenas os olhos de uma jovem com medo de morrer.
Medo dele.
Ela é muito jovem.
Vinte e um?
Ela deveria estar numa faculdade, beijando garotos, não morrendo
por causa de um barco cheio de cadáveres.
Ele devia parecer horrível para ela, assim como os outros pareciam
para ele. O canadense que está ali desde os anos 1960 não tem mais
mandíbula, precisa gesticular freneticamente para ser entendido. O
roqueiro de 1989 tem cabelos compridos atrás e curtos na frente, algo
que as pessoas de hoje em dia chamam de mullet. Os fios se mantiveram
presos ao crânio, ainda platinado com raízes escuras. Seu casado de moletom da SUNY Oswego se esvoaça como uma bandeira rasgada
quando ele nada, com pequenos peixes atrás dele.
Está escuro, mas Misha brilha o bastante para a garota ver seus olhos.
A mão dele se afrouxa e ela se debate para chegar à superfície. Tosse,
tenta gritar socorro, mas só cospe água do lago.
Ela vai morrer.
E depois?
Tornar-se de novo o que era?
Ele acha que não.
Tornar-se um fantasma, como eles?
Ele estremece.
Nada é tão perverso e solitário quanto um fantasma condenado a
assombrar um lago.
Ela afunda de novo.
Ele quase escuta sua Baba o repreendendo por aquela demonstração
de fraqueza.
Deixe-a morrer! A cadela matou você! Essa morte é piedosa demais
para ela.
Ele se lembra de Baba na janela perto do Volga.
A megera que sua mãe fingia não ver.
A mulher da floresta para quem ele não podia olhar.
Ela só falava com ele por meio de uma cortina, apenas um contorno.
Seu pai está vindo. Você acha que ele gostaria de ver que tem um
filho tão fraco? Você sabe o que os pais fazem com filhos fracos? Eu ia
enforcar em uma árvore aquele garoto que vive perturbando você, mas
você não aprenderia nada com isso. Seu pai diria para você bater nele,
mas isso não basta. Morda o nariz dele, Misha. Não chegue a arrancar,
porque será condenado se fizer isso. Mas morda com força suficiente
para deixar uma marca. Se você só bater nele, logo ele vai reunir
coragem e bater em você de novo. Ou voltar com amigos. Mas se
morder o nariz, você vai surpreendê-lo e machucá-lo, e ele ficará com
medo porque nunca saberá o que você será capaz de fazer. Ele vai olhar
para baixo quando você passar.
Mas ele não é como ela.
Ele não mordeu o garoto, apenas bateu nele.
E foi o suficiente.
Eles brigaram: o garoto, que era maior, bateu muito em Misha, mas
ficou com um olho roxo por fazer isso.
Ele passou a ser uma presa mais fácil.
Misha sabia que o garoto batia em crianças menores porque o
padrasto queimava cigarros nele.
Isso foi há muito tempo.
Agora.
A garota está morrendo.
Os cabelos ruivos flutuam como uma nuvem, não mais presos em um
rabo feio. Os músculos e as cicatrizes desapareceram.
A cauda se foi, dando lugar a pernas.
Deixe-a morrer!
Mas essa não é a voz dele, e sim da mulher atrás da cortina.
A mulher das trevas, nas árvores.
Ele desenvolve um ombro.
Bate no traseiro e na coxa da garota, fazendo com que ela suba.
A cabeça emerge na superfície e ela puxa o ar, estremecendo.
Ele grita com ela em inglês:
— Nade!
Ela não nada.
Começa a afundar de novo.
Ele a empurra para cima.
Grita com ela em russo:
— Nade, porra!
Então, ela nada.
O casal no navio mal acredita nos próprios olhos.
Um astrônomo aposentado e sua esposa, que deixam Fair Haven nas
noites calmas e ancoram para observar as estrelas.
Uma garota nua está subindo pela amurada, esparramando-se no
convés, vomitando água do lago.
A esposa derruba o cálice de riesling, os sapatos fazendo barulho.
O astrônomo se senta, espantado.
— Não fique aí parado, Harry, pegue um cobertor para ela! E chame
a Guarda Costeira! Pode ser que um barco tenha afundado.
A garota está quase inconsciente.
Mãos quentes a seguram.
Um cobertor.
O som de pessoas falando inglês chega até ela.
— Como se chama? Tem mais alguém com você? Consegue me
ouvir?
Ela até entende, mas está cansada demais para falar inglês.
— Nadia. Meu nome é Nadia. Sou de São Petersburgo. Meu pai é
professor. Meu irmão está na cavalaria. Conhecemos o czar.
Ela diz isso em russo.
O casal mais velho não entende, mas são gentis.
Eles vão ajudá-la a voltar para casa.
Ela vira o rosto para o outro lado, olha para a cabeça branca no lago
preto.
O velho morto.
Ela o conheceu antes de ele morrer, mas não lembra como.
No chuveiro?
Com um cachorro?
Eu estava morta com ele?
Ele uiva para ela de modo brincalhão.
Aaaauuuuuu.
Ele sorri pela primeira vez em meses.
Ela retribui o sorriso.
Fraco, mas sincero.
Ela mexe os dedos no eco de uma onda.
Ele afunda.
A luz está embaixo d’água.
Uma segunda lua.
A coisa mais bonita que ele já viu.
Ele desce nadando.
Um cardume de peixes prateados que ele não reconhece abre
caminho.
Ele nada na lua.
A lua quente e amarela.
Luz feita com açafrão.
Misha ri muito.
Uma mulher que ele não vê há anos também ri.
Mikhail Yevgenievich Dragomirov se dissolve.
Enfim, de verdade e com alegria, ele se dissolve.
Seu pai está vindo.