Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 24 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 23

 

Um apartamento em Kiev.

Pequeno e sujo, abarrotado de décadas de breguices ocidentais.

Um frasco de perfume no formato da Torre Eiffel, amarelado e vazio,

com pelos de gato presos nas laterais, domina uma mesa de canto de

plástico, branca, com marcas de cigarro em todos os lados.

Perto da mesa, mais alta, há uma pilha de livros, como a Torre de

Babel. No alto da pilha, um livro cheio de orelhas mostra uma ruiva com

sobrancelhas arqueadas e seios cônicos do fim dos anos 1960, parecidos

com pequenos mísseis e quase saindo do biquíni. Ela está em cima de

uma moto e embaixo do título em checo: Anjos da Estrada e da Praia.

Falsas canecas alemãs made in Japan estão no chão, encostadas em

uma parede descascada que já foi verde-abacate, como

contrarrevolucionários muito pequenos esperando por seu esquadrão de

fogo.

Um pôster antigo enrolado, com as pontas marcadas com furos,

mostra um Mickey Mouse com olhar malicioso e claramente não

autorizado apontando um dedo da mão enluvada para a legenda

ORLANDO . Laranjas saem do primeiro O, um golfinho salta pelo segundo.

Atrás do rato enorme, homens e mulheres com penteados do início dos

anos 1980, todos relaxados como alguém que o capitão Kirk está prestes

a inseminar, sorriem em um tipo de céu pintado, de sonho e brilhante. A

cintura de Mickey é coberta por um convite neobíblico, Venha e Veja,

Venha e Veja! em russo e ucraniano. Abaixo, a logo da agência de

turismo Sunny Skye acima de um número de telefone há muito

desativado. As partes superior e inferior do pôster estão rasgadas e

coladas com fita adesiva nos pontos em que o pai do morador do

apartamento arrancou às pressas as tachinhas, tirando o cartaz da parede de seu negócio ilegal de Donetsk em 1986, pouco antes da chegada da

polícia.

Um gato malhado com patas brancas se lambe, ignorando o homem

diante do computador com uma camisa polo Izod rosada e desbotada

pelo sol. Se quisesse se levantar e olhar para trás, veria que ele está

digitando em inglês:

 

Na ssexta, eu estava na fazenda das tias e por acaso vi Huh, ligue para mim, se quiser enfiar a mão na bunda dos cavalos até o cotovelo.

 

Ei, você já viu algo assim?

 

Dê uma olhada na foto:

 

http://... (etc.)

 

Por favor me diga se você, pervertido, quer ir comigo da próxima vez em que eu viajar para o interior.

 

A coluna do homem está arqueada como um ponto de interrogação: não

por um problema de nascença, mas por ter passado anos diante dos

monitores. Ele se afasta da tela, empertigando as costas o máximo que

consegue, e analisa o trabalho. Tem orgulho das vírgulas antes e depois

de pervertido, algo que apenas um especialista no idioma saberia fazer.

Fuma, ainda analisando, procurando erros. Vê a sexta com dois s,

equilibra o cigarro no canto da mesa, digita rapidamente, solta a fumaça

e traga outra vez. Em breve, venderá “passagem” nesse spam a vários

clientes, alguns na Ucrânia, outros na China, outros ainda na África, que

vão pagar para que ele insira e jogue URLs nocivas para americanos e

canadenses por ordem alfabética. Como feitiços, mas aos milhões e

milhões. Espermatozoide, seu espermatozoide, correndo em direção aos

óvulos da informação pessoal. Cartões de crédito serão roubados,

endereços de e-mail serão invadidos, spywares serão instalados e, ah,

que caos lindo! Mais importante ainda: os lindos dólares! O dinheiro

aparecerá em uma dúzia de contas de fachada do PayPal. Passará esse dinheiro para contas que mantém em Trinidad, St. Martin e nas

Bahamas, e seu fundo de aposentadoria crescerá.

Ele tem trinta e quatro anos e pretende se aposentar aos cinquenta.

Tem ganhado o próprio dinheiro desde os quinze.

Vai viver até oitenta e cinco, com a ajuda da medicina ocidental e seu

fundo de aposentadoria, passando trinta e cinco anos trabalhando e

outros trinta e cinco fazendo a merda que der na telha. Quando visualiza

seu saldo bancário, imagina uma bola de neve de dólares, crescendo à

medida que desce a ladeira, chegando a um vale, e então começa a

encolher enquanto rola até sumir, antes de um estouro baixo ser ouvido.

O estouro de uma calibre 22 contra a própria têmpora. Ele pretende

ser tão pobre no topo do segundo monte que não terá escolha a não ser

atirar em si mesmo.

Tem que ser uma calibre 22.

É um calibre pequeno para a bala entrar, mas não sair, ricocheteando

por dentro, fazendo purê dos miolos, destruindo todo o sentimento, toda

a lembrança. Deixando apenas um pequeno furo sangrento. As pessoas

que atiram em si mesmas com armas potentes são egoístas, vulgares.

Burguesas.

Alguém precisa limpar os miolos da parede.

Xingando e esfregando.

A arma será sua primeira aquisição quando se aposentar.

Até lá, continuará sem conseguir gastar mais do que o necessário. É

um pão-duro de primeira, usando tudo até o desgaste completo e a

inutilidade total, comprando coisas que custam quase nada, a preço de

banana.

Mas quando ele completar cinquenta...

... da próxima vez que eu viajar para o interior.

— Perfeito, pervertido — diz ele, com um sotaque carregado.

O gato boceja, mostrando presas que talvez sejam as únicas coisas

brancas no apartamento, e se espreguiça, caminhando pelas costas

capengas do sofá até se sentar em seu braço.

Agora, a brisa da noite, fria para junho até mesmo ali, passa por baixo

da janela, soprando as cortinas com moscas. A vista en face é formada

por apartamentos mais feios, com luzes acesas apenas em algumas

janelas. No entanto, agora esses retângulos de luz estremecem de leve,

como sob o vapor do calor.

Mas não está quente.

A sala está ficando mais fria.

O gato quase sibila, pois se lembra do que aconteceu na última vez e

se encolhe perto dos pés do dono, com o rabo entre os calcanhares e as

marcas de pés nos chinelos logo embaixo.

Agora, o homem se vira na cadeira e olha pela janela.

Ela está aqui.

Ele desvia o olhar depressa.

A palma da mão fica suada.

Ele prevê o som antes de ouvi-lo.

O som de uma panela de ferro raspando contra o gesso barato

embaixo do peitoril, raspando como um barco a remo contra um píer.

Baba Yaga percorrendo os céus da noite de Kiev, sentada em uma

panela de ferro, empurrando-a com uma vassoura.

Como nas fábulas contadas antes de dormir.

Mas ela está lá fora.

Uma parte dela, pelo menos.

Nove andares acima.

Yuri...

— Sim, mãezinha — diz ele, tragando de novo.

Toma o cuidado de não mostrar os dentes quando fala.

Use o lenço.

O gato estremece com violência.

Ele puxa a gaveta e pega uma toalha de mão azul. Sente-se mal

pensando em colocar aquilo sobre os olhos, mas coloca mesmo assim,

jogando a cabeça para trás, mantendo a posição porque se a toalhinha

cair e ele chegar a vê-la... Deus o ajude.

O som do baque quando a panela de ferro bate no gesso.

Tem uma panela mesmo ou escuto porque estou esperando?

Um pé descalço no piso de linóleo.

Ela está no apartamento agora, ele sabe.

Yuri, você comprou a passagem?

— Sim. Uma passagem para Marina Yaganishna, primeira classe.

Níjni Novgorod a Moscou, Moscou a Nova York, Nova York a

Syracuse.

Ela não vai querer se sentar perto de ninguém gordo.

— Já olhei. O assento ao lado no voo internacional não foi ocupado,

então passei um homem magro para ali.

Ótimo.

Um momento demorado passa.

Tem algo que você não está me dizendo.

Não gosto disso.

Um cheiro ácido quando o gato urina no chão.

— Desculpa, mãezinha. Eu... Havia alguém mexendo nas minhas

coisas. Nos Estados Unidos. Chicago, eu acho. Magia.

Descubra quem.

E por quê.

Ela se aproxima.

O gato sai de debaixo da mesa, corre em direção ao quarto e outra

coisa se move mais depressa do que o bichano, que grita.

Yuri não ousa olhar.

— Eu... eu estava cuidando disso. Eu queria ter a resposta antes de

contar.

E é por isso que você passa seu tempo na sujeira?

Um dedo ossudo aparece na tela de seu computador.

Enfiar a mão em cavalos? Você acha que é isso o que acontece no

interior? Posso mostrar a você o que acontece no interior, mas acho que

não vai gostar.

Ele não sabe se ela está lendo o que está escrito na tela ou se está

espiando sua mente. Não tem certeza se ela pode ou não fazer isso.

Não sabe o que ela é.

Ninguém sabe.

Ele sente o cheiro de ferro, gordura e pimenta, misturado com sangue

seco, bolor, medo.

Ela tem cheiro de medo.

Ele pressiona a toalha com força nos olhos, receando que a mão

trêmula o traia e faça a venda cair. Sua urina faz força, quer sair. Ele

segura.

Yuri respira pela boca, estranhamente protegendo os dentes com os

lábios.

Ela lhe concede um tempinho.

Yuri...

— Sim, mãezinha?

Você tem agulha e linha nessa espelunca?

— Sim, mãezinha.

Use para costurar o rabo do gato outra vez.

— Obrigado, Baba.

Em algum lugar da mente dele, ela resmunga.

Agora, o som de uma vassoura de ramas, varrendo suas pegadas.

Ela sobe na panela, que raspa fazendo barulho nos tijolos.

A mulher do apartamento ao lado chama pela parede.

— O que você tem aí, Yuri Denisovitch, um rinoceronte africano?

Então, mais baixinho, ele ouve quando ela exclama.

— Merda! Aranhas! São muitas!

Agora, o som de uma vassoura (barata, moderna) pelo chão, uma

oração apressada.

O gato geme do quarto, com tristeza.

A brisa para.

O quarto volta a esquentar, se é que dá para dizer isso, passando do

muito frio para apenas frio.

Meia hora se passa antes que ele se atreva a tirar a venda dos olhos.

Está encharcada de suor.

Mas ao menos não se mijou desta vez.