Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Christopher Buehlman · Capítulo 67 de 134

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos

Capítulo 68

 

 

Começo da noite.

A campainha toca.

Como Salvador está cuidando do jardim, Andrew abre a porta e

encontra Arthur Madden e a sra. Simpson em sua varanda. O sr. Madden

está mais ofegante do que o normal, e a sra. Simpson estampa um

sorriso largo e segura um prato coberto por papel-alumínio.

— Boa noite, sr. Blankenship — diz ela, com os seios avantajados

formando como uma falésia. — Peço desculpas por bater tão tarde.

Espero que não estejamos perturbando você.

Ela está falando para Arthur poder recuperar o fôlego.

— De jeito nenhum.

Ele pensa depressa, tentando lembrar se tem algo controverso na sala

de estar ou de jantar.

Acha que não.

— Gostariam de entrar?

Andrew descobre por que a testemunha de Jeová mais velha está tão

ofegante: uma cesta de alimentos e duas sacolas cheias de compras estão

na varanda atrás dos dois. Subir a rua é quase demais para Arthur sem

sacos para carregar, então foi um teste.

— Ah, não poderíamos abusar de sua hospitalidade tão perto da hora

do jantar — responde ela.

Um segundo e meio passa como uma pausa musical esquisita.

— Estávamos na vizinhança e pensamos em trazer uns restos.

Restos?

Andrew tenta recusar de várias maneiras educadas, mas a sra.

Simpson é especialista em se desviar de desculpas. Cansa Andrew, que

pega o prato e dá uma espiada por baixo.

Olha para o assado, para o creme de milho e a salada de repolho.

— É um estufado — comenta ela. — Feito por mim. Então você terá

que comer tudo.

— Hum-mmm — solta ele. — Bem, obrigado.

Arthur recuperou o fôlego para falar.

— Também compramos uns produtos.

— Senhor....

— Madden, tudo bem.

— Não me sinto à vontade aceitando seus produtos. Estou com a

despensa cheia e tenho certeza de que você pode pensar em alguém

necessitado que adoraria receber um presente desses.

— Bem, a situação é a seguinte, Andrew. Estou cansado demais de

carregar essas sacolas pelo caminho e, Deus que me perdoe, sou

orgulhoso demais para deixar você ou a sra. Simpson fazer isso. Então.

Você. Vai. Ter. Que. Aceitar. As. Compras. Pense nisso como um favor

para mim.

Essa cara seria capaz de tirar um caminhoneiro gay do armário.

O que diabos está acontecendo?

— A que devo a honra?

— Chame de ato aleatório de gentileza. Você viu aquele adesivo do

para-choque? Fazer coisas bonitas e realizar atos de gentileza?

— Certo — diz Andrew. — Você ganhou.

— Costumo ganhar. Agora, você não vai deixar essas coisas

estragarem, não é?

— Tenho certeza de que não.

Andrew espia a primeira sacola.

Primeiro item, estranhamente, um saco ziplock com cerca de meia

dúzia de ovos em conserva.

Um pedaço de queijo cheddar.

Enlatados.

Tomates, ervilhas, canja de galinha.

Creme de milho.

— E não se preocupe com nada. Eu sei que as coisas podem parecer

estranhas nesse momento mas, com a ajuda do Senhor, todas as etapas são temporárias e todos os pesos são suportáveis.

Andrew espia dentro da segunda sacola.

Arroz. Macarrão e queijo. Espaguete seco nas caixas compridas que

parecem caixões.

— Etapas?

— Não precisa se envergonhar de nada, sr. Blankenship. Essa

recessão é muito real. Não está fácil arrumar ou manter um emprego.

Muitos de nossa congregação também estão atrás de trabalho, e

compreendo que você esteja sem um salário fixo há um tempo.

Andrew faz uma pausa. Olha para Arthur. Olha para a cesta de

alimentos e então tira o tecido de cima, revelando um monte de batatas.

E um espelho.

Um pequeno espelho de mão.

Em cima das batatas.

Ele vê o próprio reflexo.

Um feitiço.

Seu coração se acelera.

Ele volta a cobrir a cesta como se cobrisse uma serpente.

— Ela disse que você poderia relutar em aceitar ajuda, mas eu garanti

a ela...

— Ela? — Andrew diz um pouco alto demais.

Coração disparado.

— Sim. A amiga de sua mãe.

— Que amiga de minha mãe?

— Olha, ela não me disse o nome. A moça polonesa.

— Russa — corrige a sra. Simpson.

— Isso mesmo, russa. Muito bacana. Ela contou que estava falando

com sua mãe...

Minha mãe está morta.

— ...e comentou com ela que traria batatas de sua horta porque

alimentos caseiros têm um gosto melhor. Também prometeu à sua mãe

que você logo fará uma visita a ela.

— Perdão, mas vocês precisam ir agora.

— Como?

— Por favor, saiam — pede ele, empurrando Arthur um pouco. —

Salvador!

— Bom, claro, tudo bem. De qualquer maneira, se há algo que

possamos fazer...

— SALVADOR!

Andrew pega o espelho debaixo do pano, quebra o objeto com

violência na varanda.

A sra. Simpson pega o colega pelo cotovelo e começa a levá-lo pelo

caminho comprido.

— Boa noite, sr. Blankenship — diz ela, se despedindo. — Deus o

abençoe.

 

Salvador vem correndo pela lateral da casa, segurando uma tesoura de

poda, as próteses do joelho sujas de terra. Algum tipo de planta ficou

presa em seu braço esquerdo.

A cabeça se inclina para um lado, esperando instruções.

No entanto, antes que Andrew tenha tempo de abrir a boca, a cesta de

produtos se vira e as batatas começam a rolar e quicar como ratos sem

rabo, escapando de um navio.

As batatas se afastam de Andrew e se dividem. Andrew mergulha,

pega uma, mas ela escapa de sua mão e continua rolando.

— Descubra aonde elas estão indo! — grita para Salvador.

O homem obedece, seguindo o maior grupo.

Andrew persegue a batata que pegou.

Ela segue a leste, para a mata perto de sua casa. Andrew vê outras se

movendo no arbusto baixo: à sua esquerda, uma para de rolar, começa a

girar no lugar e se enterra com um barulho estridente.

Ele ouve isso acontecer ao redor.

— Ah, merda.

A que estava perseguindo também faz isso, assim que se afasta seis

metros.

Estão se plantando.

Não conheço esse feitiço.

Não gosto desse feitiço.

Salvador o encontra, aponta depressa, em várias direções.

— Certo, certo. Obrigado, garoto. Primeiro, pegue uma pá. Não, eu

pego a pá, você faz um buraco com lenha.

Salvador inclina a cabeça e passa o polegar e o indicador como se

cobrindo dois centímetros.

Quanta lenha?

— Toda.