Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 5
SE VOCÊ NÃO É UM policial em pleno exercício do ofício, analisar a cena de um crime é uma contravenção. Não só por contaminar as provas e destruir a capacidade da acusação de levar o réu a julgamento: você se torna cúmplice.
Se nos pegassem analisando aquela cena, eu perderia o alvará e todos nós poderíamos ir presos.
Apesar disso, se algum dia houvera ocasião propícia para descumprir a lei, era aquela.
– Jack, saia do quadro, por favor – pediu Mo.
Fui para o corredor e o flash da Nikon de Mo disparou.
Ela tirou fotos de todos os ângulos possíveis: planos gerais, planos fechados, closes extremos dos ferimentos no peito de Colleen.
Usando uma leitora eletrônica, Sci coletou as impressões digitais de Colleen e as minhas enquanto Mo-bot passava um detector de digitais latentes sobre as superfícies duras do aposento. Não era preciso usar nenhum pó.
– Quando foi a última vez que você viu Colleen com vida?
Respondi que tínhamos almoçado juntos na quarta-feira anterior, antes de eu ir para o aeroporto.
– Só almoçaram?
– Sim. Só almoçamos.
Uma sombra atravessou o olhar de Justine, como nuvens se adensando no céu antes de um temporal. Ela não acreditava em mim. E eu não tinha energia para convencê-la. Estava exausto, assustado, triste e enjoado. Queria acordar. Queria ainda estar a bordo do avião.
Sci conversava com Mo. Ele coletou resíduos sob as unhas de Colleen e Mo lacrou os envelopes plásticos. Quando Sci ergueu a saia de Colleen com o cotonete na mão, olhei para o outro lado.
Continuei a conversar com Justine. Informei a ela onde Colleen e eu tínhamos almoçado na quarta-feira e disse que ela estava bem-disposta.
– Ela disse que estava namorando um cara em Dublin. Disse que estava se apaixonando.
Outra coisa me ocorreu. Virei-me na direção do quarto e gritei:
– Alguém viu a bolsa dela?
– Não, Jack. Não tem bolsa nenhuma aqui.
– Alguém a trouxe para cá – falei para Justine. – Alguém que estava com a chave dela, a chave do portão.
– Bem lembrado – disse Justine. – Você consegue pensar em alguém que possa ter feito isso? E por quê?
– Alguém que odiava Colleen. Ou me odiava. Ou que odiava nós dois.
Justine concordou.
– Sci? Mo? Temos que sair daqui. Jack, você vai ficar bem?
– Não tenho certeza – respondi.
– Você está em estado de choque. Todos nós estamos. Diga à polícia o que você sabe e pronto – completou enquanto Sci e Mo guardavam seus kits.
– Diga que tomou uma ducha bem demorada – falou Sci, colocando a mão em meu ombro. – Ou melhor, diga que tomou um banho de banheira e depois uma ducha. Isso deve justificar boa parte do tempo.
– Está bem.
– As únicas digitais que encontrei são suas – disse Mo-bot.
– Esta casa é minha.
– Eu sei, Jack. Não tinha mais nenhuma digital exceto a sua. Verifique a leitora de cartão da entrada – instruiu ela. – Eu mesma faria isso, mas é melhor irmos embora.
– Tudo bem. Obrigado, Mo.
Justine apertou de leve a minha mão, disse que me ligaria mais tarde e então, como se fossem personagens de um sonho, os três desapareceram e me deixaram sozinho com Colleen.