Private: O Suspeito Nº 1
Capítulo 2
A. J. ROMANO DIRIGIA A van branca pela interestadual I-15 na direção oeste, pouco menos de 250 quilômetros a leste de Las Vegas. O carro era um modelo novo da Ford. Nas laterais e na traseira estavam colados adesivos com as palavras “Direto do produtor” acima de um cesto com legumes e verduras vermelhos, verdes e amarelos.
Benny Falacci, conhecido como Banger, estava afundado no banco do carona, com as botas de pele de enguia, estilo caubói, sobre o painel. No fundo, Rudy Gee aproveitava sua vez no compartimento refrigerado para cochilar dentro de um saco de dormir entre as caixas de papelão.
A. J. gostava de dirigir à noite qualquer que fosse o tempo, mas principalmente naquelas noites muito claras das áreas de grande altitude ali no oeste. As estrelas brilhavam no céu. Nenhum tráfego; só uma faixa de estrada que cortava quilômetros e quilômetros de pastos e desertos, sobre um fundo de montanhas que se erguiam a distância como papel de embrulho amassado.
– Aí eu fiz uma carne ensopada, sabe? – disse ele para Banger. – Resolvi cozinhar para ela, para variar um pouco.
Banger arrancou o filtro de um Marlboro, acendeu o cigarro com seu isqueiro da sorte e abriu a janela.
– Putz – reclamou Romano, abrindo também a sua janela. – Já ouviu falar em fumante passivo? Você está fumando por dois aqui dentro.
– Já se passaram 510 quilômetros – respondeu Banger. – Foi esse o combinado: um cigarro a cada 500 quilômetros.
– Então… – prosseguiu A. J., agora falando alto por causa do barulho do vento. – Fiz um macarrão e um bolinho de chocolate. Ficou bom.
– Fascinante, A. J. Todos os grandes grupos alimentares incluídos.
– Comi bem, mas não enchi a pança. Aí a gente foi para a cama e mais ou menos às duas e meia eu acordei. Estava praticamente congelado.
Banger tirou um pedaço de fumo da língua. A van não tinha CD player e naquele fim de mundo o rádio não pegava. Dali a poucas horas estaria sentado diante de uma mesa de vinte e um. E à noite dormiria em uma cama espaçosa. Poderia ligar para Suzette. Estava pensando nisso e em como ela iria encher seu ouvido antes de ele conseguir tirar a calcinha dela. Ou então poderia ir ao Sands e arrumar alguma nova. Sentia-se com sorte.
– Aí eu aumentei a potência do cobertor elétrico. Mesmo assim, meus mamilos continuaram duros feito pedra.
– Nossa – comentou Banger. – Dá para mudar de assunto?
– Coloquei o cobertor no 9. Nove é um maçarico – disse A. J. – Mesmo assim continuei gelado. Quando acordei de novo, estava suando como se tivesse corrido 3 quilômetros…
– Que diabo é isso? – indagou Banger.
– É justamente o que estou perguntando. Será que meu coração está ruim?
– Que diabo é aquilo ali – corrigiu-se Banger, apontando pelo para-brisa para as luzes vermelhas à frente.
– Aquele carro, você quer dizer?
– Está diminuindo.
– Que imbecil. Ele devia ter enchido o tanque em Kanarraville.
– Ultrapasse – disse Banger.
Mas A. J. já estava diminuindo a velocidade e dizendo:
– Ficar sem gasolina nesta estrada? O cara vai ser comido por um urso.
Mas o carro não estava ficando sem gasolina. Seguiu bem devagar até que um Chevrolet na pista da esquerda com o farol apagado emparelhasse com a van.
– Que porra é essa agora? – perguntou A. J., olhando para o Chevrolet a 15 centímetros da sua porta. – O que esse outro babaca está fazendo?
– Freia. Freia! – gritou Banger. – Desvia!
A. J. Romano largou a mão na buzina, mas não adiantou. Encurralada, a van foi obrigada a pegar a saída para Pintura. Ou batia no carro ao seu lado, ou descia a toda pela rampa.
A. J. deu uma guinada com o volante para a direita, fazendo a van descer pela saída, enquanto Banger procurava sua arma debaixo do banco. Quando deu por si, ouviu um barulho de metal arranhando sua porta e a van saiu da rodovia, forçada a entrar em uma espécie de estradinha secundária.
– Seu filho da... – gritava Banger, enquanto A. J. pisava firme no freio.
A van derrapou no chão de terra batida e arrancou uma cerca de arame até parar no meio do nada. A poeira impedia a visão e inundava a cabine.
Ouviram portas de carros baterem à frente e atrás da van. Banger segurou sua arma com uma das mãos e soltou o cinto de segurança com a outra, pronto para saltar com um pulo, mas então o rosto de um homem surgiu na janela, um cara que ele nunca tinha visto, e começou a gritar:
– Mãos no teto!
– Banger, faça o que eles estão mandando! – gritou A. J. de mãos levantadas.
Mas Banger puxou a arma de baixo do vão da janela. Um clarão intenso brilhou, seguido por uma explosão. Banger afundou no banco, expirou e não tornou a se mexer.
Dentro de sua cabeça, A. J. gritava: Ai, meu Deus! Eles mataram o Banger! Uma pistola calibre 45 estava apontada para sua orelha esquerda.
– Escutem – disse A. J. – Eu não conheço vocês. Não vi nada. Podem levar tudo o que quiserem. Eu tenho seiscentas pratas…
Ele nem sequer ouviu a arma disparar. Seu corpo estremeceu, mas foi só.