Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 32
– EU NÃO ESTIVE NA PRAIA ontem à noite – falei para Bobbie Newton.
Ela havia tirado os óculos e agora eu encarava seus olhos pequenos e vermelhos. Bobbie bebia desde cedo e com regularidade. Outra característica sua que me desagradava.
– Eu não tive uma alucinação – disse ela. – Você estava no celular. Ouvi quando ele tocou. Passei correndo e falei com você, disse “oi, Jack”. Você apontou para o aparelho como quem diz “estou ao telefone”. E depois acenou. Aquele aceno que é a sua marca registrada.
– Como assim? Está dizendo que eu tenho algum tipo de… aceno específico?
– Assim.
Ela ergueu o braço esquerdo e inclinou a mão para trás com os dedos abertos, como se estivesse segurando uma bola de futebol americano.
Eu jogava futebol americano na universidade. Tommy não.
– Ninguém nunca me disse que eu tenho um aceno especial.
– Bom, eu estou dizendo. Quantas vezes já vi você acenar? Umas 100 mil?
– Passava das seis da tarde, Bobbie. Foi isso que você disse para a polícia.
– E daí?
– O sol estava se pondo. Talvez você tenha pensado que era eu porque esperava me ver. Não era eu, Bobbie.
– Diga isso para o juiz – retrucou ela.
Bobbie ergueu a mão acima da cabeça, recuou-a como quem se prepara para lançar uma bola de futebol americano e subiu a praia com passos apressados.
Observei-a enquanto ela se afastava. Que droga de conversa havia sido aquela?
Eu não tinha ido à praia na noite em que encontrara Colleen morta na minha cama. Mas Bobbie estava irredutível. E, na condição de repórter de fofocas, era bem-relacionada. Devia ter sido ela quem dera início aos boatos na internet dizendo que eu era o suspeito número um do assassinato de Colleen.
Tornei a subir a praia uns 20 metros atrás de Bobbie, perguntando-me se ela de fato teria visto Tommy e pensado que fosse eu. Ou será que não tinha visto ninguém? Teria inventado essa história para me mostrar como a vingança pode ser cruel?
Andei da praia até o acesso à minha casa e entrei no Lamborghini. Segui no sentido sul pela Pacific Coast Highway em direção a Santa Monica. Queria falar com o melhor amigo de Colleen. Graças a ela, ele havia se tornado meu amigo também. Eu precisava falar com alguém que a tivesse conhecido, que sentisse o mesmo que eu sentia, que entendesse a minha dor.
Minha mente era um verdadeiro turbilhão. Quando dei por mim, estava na I-10 sentido leste, sem saber se era eu quem guiava o Lamborghini ou ele que me guiava.
Mas eu sabia exatamente onde encontrar Mike Donahue. Imaginei-o como da última vez que o vira, em pé atrás do balcão do bar.