Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 61
O TRABALHO DE CAINE HAVIA SIDO impactante – melhor dizendo, havia sido fenomenal. Minha gratidão foi tão avassaladora que quase desatei a chorar. O juiz Coffin, porém, se manteve impassível. Parecia imune ao discurso de Caine.
– Sr. Morgan, o senhor está sendo acusado de homicídio doloso com circunstâncias agravantes – disse Coffin. – Você se declara inocente ou culpado?
– Sou inocente, Vossa Excelência.
– Ã-rã – murmurou o juiz. Ele então se curvou sobre o laptop e se pôs a digitar.
O juiz Coffin era o tipo de pessoa que digita com dois dedos. Enquanto ele catava milho, o barulho da galeria foi aumentando como um tufão que varre o litoral. Uma briga estourou nos corredores e foi apartada por agentes de segurança. O juiz bateu com o martelo quatro vezes e fitou os presentes com ira.
Fez-se silêncio e então o juiz Coffin voltou os olhos para mim.
– Sr. Morgan, o senhor tem intenção de fugir?
– Não, Vossa Excelência.
– Certo. Bom, eu diria então que temos uma situação incomum, considerando o fato de o Sr. Morgan ser um cidadão respeitador das leis que chamou a polícia para denunciar o crime. Apesar disso, há a circunstância agravante.
O juiz coçou o queixo. Conseguira atrair nossa atenção.
– Achei um precedente no caso Meyer versus Spinogotti.
A expressão de Savino era de quem não estava entendendo.
– Esse não é o caso do rapto, Vossa Excelência?
– Exato, Dr. Savino. A vítima estava grávida. Dr. Caine, quero o avião do Sr. Morgan desabilitado e lacrado para impedi-lo de voar. Sr. Morgan, o senhor entregará às autoridades seu brevê de piloto e sua autorização de porte de arma. E o passaporte também. Quando essas condições forem cumpridas, encontre um agente de fiança disposto a adiantar 20 milhões de dólares e pode ir para casa.
O martelo bateu.
O oficial de justiça chamou o caso seguinte.
– Não se preocupe, Jack – disse-me Caine. – Estou cuidando de tudo. Amanhã você vai estar em casa.
Caine estava certo? Ou será que estava apenas me dando falsas esperanças?
Um agente de segurança se materializou ao meu lado. Pegou meu braço bruscamente e me levou da sala de audiência pela porta dos fundos. Virei-me bem na hora em que a porta estava fechando. Esperava ver Justine, mas quem vi foi Fescoe.
Ele estava reunido com Tandy, Ziegler e Eddie Savino. Pelos olhares lançados na minha direção, tive certeza de que estavam falando de mim. Dava para adivinhar que a acusação estava decepcionada com a possibilidade de eu sair sob fiança.
Puseram-me na cela de detenção atrás da sala de audiência, onde fui novamente acorrentado a três outros homens. Passei seis horas suando em meio ao silêncio, depois fui reconduzido de ônibus à prisão, onde me empurraram para dentro da minha cela.
Tínhamos um novo companheiro. Outro falastrão.
O nome do cara novo era Vincent e ele parecia ser morador de rua. Falava depressa e me contou sobre o que chamava de “desequilíbrio quase criminoso no mercado imobiliário” que só iria se resolver em 2015, na melhor das hipóteses. Falou da geração do baby boom e da pressão que ela exercia sobre tudo o que estivesse relacionado à economia e aos atuais programas de benefícios do governo. Nós só iríamos ver um mercado otimista quando estivéssemos usando bengalas, afirmou.
Ele ainda tinha senso de humor. Era admirável.
– Você trabalha com finanças? – perguntei, educado.
– Sou motorista.
– Motorista?
– De táxi. Deixei de pagar duas multas. Eles me prenderam por causa disso. Acredita?
– Sinto muito.
– Quando sairmos daqui, se precisar de um táxi, é só chamar: 1-800 Call Vin.
– Claro – falei. – Vou lembrar.
Pensei em Justine, em como ela havia olhado para mim na sala de audiência. Eu pudera sentir sua dor e sua profunda decepção. Pensei em como era me deitar ao seu lado sob lençóis frescos em uma cama espaçosa.
Na manhã seguinte bem cedo, o primeiro barulho que escutei foi o alto-falante: chiados ao fundo e a voz ribombante a ecoar pelos módulos.
Dessa vez chamaram meu nome.