Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 115
PAREI O LAMBORGHINI NA ENTRADA para carros de uma casa com frontão e colunas dóricas e luzes submersas que davam a um espelho d’água o azul profundo de um oceano. Era o retrato de um consumismo exibicionista e exagerado de que só os californianos eram capazes.
As luzes da casa estavam acesas.
Acionei o freio de mão, subi o caminho até a porta, toquei a campainha algumas vezes e, como ninguém veio atender, entrei na casa.
Encontrei minha cunhada na cozinha de 500 mil dólares, preparando um pudim de chocolate e assistindo a Os bons companheiros na TV. Estava de costas para mim.
– Oi, Annie – falei, não muito alto.
Ela gritou e deixou cair a colher. Virou-se, com as mãos nas bochechas e ainda aos gritos.
– Sou eu, sou eu. Eu toquei a campainha.
Ela inspirou, estendeu os braços e me abraçou.
– Jack, você é um perigo – falou. – Está sentindo meu coração aos pulos?
– Desculpe-me. – Talvez ela tivesse mentido para dar um álibi ao meu irmão, mas mesmo assim eu a amava.
– Você está bem? – perguntou-me ela.
Abracei-a de novo, dei-lhe alguns tapinhas nas costas e respondi:
– Estou. Mas tenho que falar com Tommy. Acredite ou não, preciso da ajuda dele.
– Ele está no galpão. Vá acordar seu sobrinho. Ele está preocupado com você. Leve isto aqui.
Ela pegou uma jarra de leite na geladeira, serviu um copo e me entregou.
– Lembra onde fica o quarto dele?
Ned estava dormindo.
Acendi o abajur e a luz iluminou um quarto cheio de cartazes: pôsteres de recrutamento militar, dinossauros, super-heróis. Sentei-me na beira da cama e olhei para o menino de 8 anos que não era meu filho, mas carregava metade dos meus genes.
Pousei o copo de leite, toquei o braço de Ned e falei:
– Oi, parceiro. É o seu velho tio Jack.
As pálpebras dele se abriram de uma vez só e ele se sentou depressa, envolvendo meu peito com os braços. Abracei-o e beijei seus cabelos.
– Tudo bem, parceiro? Tudo bem com o Ned?
Ele se afastou e sorriu.
– Eu estava mexendo em umas coisas velhas e olhe só o que encontrei. Papai falou que é mais velha do que ele.
Olhei na direção que ele apontava e vi a garrafa antiga de Coca-Cola sobre a mesinha de cabeceira. Peguei-a para admirá-la sob a luz do abajur.
– Que fantástico. É uma relíquia de verdade.
– Vi você na TV – disse meu sobrinho. Coloquei a garrafa sobre a mesa. Ned tornou a me abraçar e falou junto ao meu peito: – Estão dizendo que você matou uma pessoa. Chamada Colleen.
– Não é verdade, querido. Eu sei o que estão dizendo, mas não fui eu quem a matou. Estou sendo incriminado.
Ele ergueu para mim os olhos cheios de perguntas e lágrimas.
– Alguém mentiu sobre você? Mas por quê?
– Eu não sei.
– Isso não está certo. É uma loucura, tio Jack.
– Ele não vai sair dessa impune. Não estou brincando.
– Que bom. Pegue o cara. Dê uma rasteira nesse bandido.
Bati meu punho fechado no punho do meu sobrinho e dei-lhe mais um abraço. Então saí da casa com suas sancas ornamentadas e lareiras em todos os cômodos e passei pela piscina olímpica aquecida até chegar ao galpão com vaga para seis carros.
Tommy tinha uma coleção de carros americanos clássicos, paixão que herdara de nosso pai. Encontrei-o debaixo de um Buick Roadmaster 1948, um carro cinza-estanho tão reluzente quanto uma bolha de sabão. Era lindo.
Agarrei Tommy pelos tornozelos e o puxei sobre o carrinho que ele havia usado para entrar debaixo do carro.
Meu irmão me encarou, e a expressão em seu rosto se modificou à medida que o medo inicial se transformava em uma raiva simulada.
– O que está havendo, Jack?
– Eu sei quem armou para cima de mim, Junior. Sei quem matou Colleen.