Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 109
PELAS JANELAS DO QUARTO DO finado Albert Singh eu tinha uma vista desimpedida da entrada principal do hotel. O acesso de carros se encheu de viaturas de polícia e sirenes ecoaram vindas de outras viaturas que se aproximavam correndo pelo South Santa Monica Boulevard.
Pus as mãos nos ombros de Jinx e a encarei.
– Ligo para você assim que puder – falei. – Vai ficar tudo bem.
Não queria deixá-la, mas Del Rio tinha dito que precisava de mim com urgência. Eu tinha que ir.
Saí do hotel pelos fundos, peguei meu carro no estacionamento e fui até a Rua 5. Encontrei Del Rio e Cruz em um beco cheio de lixo chamado Werdin Place. A meio quarteirão do King Eddy, ladeado por prédios dos dois lados, o beco servia de estacionamento para os comerciantes do quarteirão. Como era de noite, as lojas estavam fechadas e o beco, deserto.
Cruz me recebeu na entrada do beco. Atrás dele, Del Rio apontava a pistola para um homem negro de 40 e poucos anos sentado no chão, com os dedos entrelaçados na nuca. Ele estava sob “custódia particular”, como costumávamos dizer.
– Jack, este é o Sr. Tyson Keyes – disse Del Rio.
Keyes não olhou para mim. Manteve os olhos cravados na pilha de sacos de lixo 3 metros adiante.
Depois de conversar com o leão de chácara da boate Havana, Del Rio tinha escrito um relatório. O leão de chácara lhe dissera que Keyes era um criminoso do tipo violento e que sabia quem era o assassino.
– Sr. Morgan, o Sr. Keyes não quer falar conosco – disse Del Rio. – Eu lhe disse que, se ele não nos contasse quem matou os tais clientes, iria explodir os miolos dele, mas que a política da empresa exige que eu primeiro peça a sua permissão.
Abaixei-me até ficar da mesma altura de Keyes.
– Sr. Keyes – falei –, ninguém vai chamar a polícia se ouvir algum tiro vindo desta direção. Você sabe disso. Mas tem uma coisa que não sabe: o Sr. Del Rio não tem nada a perder. Ele está com câncer. Vai morrer antes mesmo de voltar para a prisão.
Ignorei a expressão atônita de Cruz e continuei:
– Já está com metástase, não é, Rick?
– É isso aí, Jack. Eu já acertei as contas com Deus. Estou pronto para partir a qualquer momento.
– É isso que vocês querem? – perguntou Keyes. – O nome de quem matou os caras? Pensei que quisessem me ouvir dizer que fui eu. Cara, o que eu mais quero é que vocês tirem essa piranha maluca de circulação.
– Espere aí – falei. – Foi uma mulher que matou os sujeitos?
– Você está surdo, cara? – retrucou Keyes. – Foi uma mulher, sim. Trepei com ela enquanto minha patroa estava na prisão. Pensei que estivéssemos tendo uma história, mas ela não gosta de homens, cara. Ela odeia os homens.
Keyes continuou dando o serviço:
– Uma noite, eu estava dormindo e ela pôs um cabide em volta do meu pescoço. Encostei meu cano no ouvido dela. Disse que ia contar até três e queria ela fora da minha vida. Depois ouvi dizer que um dos clientes dela tinha morrido enforcado com um fio. Fui buscar Candy no Seaview na noite em que aquele cliente foi morto, sabia? Ela me ligou sem passar pela central. Me usou como chofer, está me ouvindo? Isso não está certo.
– Qual é o nome todo de Candy? – perguntou Del Rio.
– Se eu disser, vocês me soltam?
Del Rio abaixou a arma.
– Carmelita Gomez. Ela trabalha naquela boate cubana das dez às quatro, ou seja, dá para encaixar alguns clientes por fora…
Cruz se aproximou até seus olhos ficarem perto do rosto de Keyes.
– Onde podemos encontrar a Sra. Gomez agora?