Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 55
TANDY E ZIEGLER ABRIRAM CAMINHO entre grupos cerrados de bandidinhos reunidos em volta da cerca de arame que rodeava a prisão. Um guarda abriu o portão, Tandy falou alguma coisa e fomos conduzidos por vários postos de controle até chegarmos a uma sala de depoimento no térreo.
O recinto pequeno e cinza era a porta de entrada para o grande esgoto que era o presídio masculino, um inferno que havia sido projetado para acomodar apenas um quarto dos 1.800 detentos geralmente abrigados ali.
Imaginei que fosse ver Eric Caine à minha espera, mas deveria ter sabido que não. O TTCF era um labirinto complexo de 140 mil metros quadrados e os advogados de defesa não eram bem-vindos ali.
Ziegler fechou a porta da sala de depoimento, assoou o nariz em um lenço de papel e o arremessou em uma lixeira.
– Precisa de alguma coisa, Jack? – indagou Tandy.
Era a farsa do policial bonzinho, que não sei por que parecia mais ameaçadora do que quando ele bancava o filha da puta sádico que de fato era.
– Não tenho nada a dizer até meu advogado chegar – falei.
– Sente-se – disse Ziegler.
Ele me empurrou em direção a uma cadeira de metal e, enquanto eu cambaleava até lá, Ziegler esticou a perna e me derrubou com o queixo no chão de linóleo.
Tandy me ajudou a levantar e disse:
– Desculpe, Jack. Len não fez de propósito. Foi um acidente.
Mesmo algemado, eu seria capaz de desferir um chute na virilha que Ziegler iria recordar por alguns meses, mas sabia o que aconteceria comigo em seguida.
– Claro, o que mais poderia ter sido?
– Não vai começar a falar atravessado conosco, vai, Jack? Não seria muito inteligente.
Ziegler e Tandy me puseram em pé e me sentaram na cadeira. Imaginei quem estaria atrás do vidro espelhado e se Fescoe sabia que eu estava prestes a ser molestado.
– Tenho de confessar uma coisa – disse Tandy. – Mandamos o seu advogado dar uma voltinha, pegar um desvio, por assim dizer. Ele vai levar um tempinho para nos encontrar, mas fizemos isso para o seu próprio bem. Temos informações que você vai gostar de ouvir.
– Ah, claro. Entendi, Mitch. Vocês vão me ajudar.
Tandy caminhou até atrás de mim e parou em um ponto fora do meu campo de visão. Ziegler estava sentado a meio metro de mim, usando o canivete com cabo de madrepérola para limpar as unhas. Len Ziegler era um homem vaidoso. Malhava. Vestia-se bem. Mas não havia muito que pudesse fazer em relação ao queixo afundado e aos olhinhos miúdos de porco.
– Escute, Jack – disse ele. – Acho que a polícia de Los Angeles nunca viu um caso tão óbvio assim.
Listou todos os indícios físicos que a polícia tinha contra mim, e então falou:
– Você ligou para o seu irmão por volta do horário em que a vítima foi morta. Nós conversamos com Tommy. Forçamos a barra com ele. Ele disse que recebeu uma ligação e que a pessoa desligou sem dizer nada, só isso. Mas o negócio é o seguinte, Jack: você marcou sua presença na cena do crime.
– Por que deu esse telefonema? – perguntou Tandy. – Para mim isso é um mistério. Você digitou o número errado? Subconsciente culpado?
– Eu também não entendo esse telefonema – falei. – Não liguei para Tommy. Assim que descobri o que havia acontecido, disquei para a emergência. Segundo a sua teoria, Mitch, por que eu teria ligado para Tommy?
– Bem, eu fiz essa pergunta a Tommy – respondeu Tandy. – Passei umas duas horas com ele. O álibi do seu irmão é sólido e ele não tem nada de bom a dizer a seu respeito. Francamente, e digo isso como um cara que trabalha na polícia há vinte anos, você está tão ferrado que nem consigo me lembrar de felicidade maior. Len, você algum dia me viu tão feliz?
– Acho que quando ganhou a trifeta em Santa Anita você ficou feliz para caramba, mas é páreo duro.
– Um Belo Dia. Era esse o nome da égua. – Tandy riu com a lembrança antes de continuar. – Agora sou apenas um intermediário, você sabe disso. Quem me pediu para ajudá-lo foi o chefe da polícia.
Ziegler fechou o canivete e o guardou no bolso de trás da calça.
– Fescoe me pediu que o avisasse que, se poupar à prefeitura o custo e o trabalho de um julgamento, se prestar uma declaração detalhando o que fez, ele vai aliviar a sua barra. Disse que faria isso. E pediu que lembrássemos a você que ele e o promotor público do condado são amigos do peito.
– Eu não matei Colleen.
Tandy pôs as mãos nos meus ombros e empurrou minha cadeira para trás. Caí e quando minha cabeça bateu no chão Ziegler a cutucou com a ponta do sapato. Foi só um toque leve, mas senti um frio percorrer meu corpo inteiro. Pensei que um chute na cabeça poderia seccionar minha espinha, no que se costuma chamar de “decapitação interna”.
Eu não conseguiria me recuperar de uma lesão dessas.
Tandy estava falando comigo, desculpando-se pelo fato de a cadeira ter caído.
– Chega de conversa fiada – falei do chão. – Eu não vou prestar declaração nenhuma. Na tabela de fianças há um valor previsto para homicídio. Quando Caine chegar, vamos pagar 1 milhão de dólares e eu vou cair fora.
Tandy se abaixou para me olhar bem nos olhos.
– Não há fiança prevista para homicídio qualificado – disse ele.
– Que história é essa? Qualificado por quê?
– Colleen estava grávida quando você a matou, Jack. Isso é um agravante. Homicídio duplo.