Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 52
ENTREI NA MINHA SALA ÀS oito horas da manhã seguinte, ainda com a cabeça latejando como se houvesse uma britadeira em um ponto logo atrás do olho direito.
Cody estava ao telefone, mas, quando passei por sua mesa, ergueu a mão me pedindo que esperasse. Falou no headphone:
– Pois não, senhor. Vou ver se ele está.
Rabiscou atrás de um envelope: “Chf de Pol Fescoe”.
– Vou atender – falei.
Fui até minha mesa, tirei o fone do gancho e disse:
– Mick.
– Jack. Liguei para dar um alerta. Pode chamar seu advogado.
– O que houve?
– Tandy e Ziegler acharam sua pistola.
Aquelas palavras foram como um soco na barriga. Senti náuseas. Minha visão ficou desfocada. Repassei na mente os acontecimentos dos três últimos dias enquanto tentava entender o que Fescoe estava dizendo.
– Acharam onde? – consegui articular.
– No quintal em frente à sua casa. Enterrada debaixo de uma trepadeira.
– Plantada, você quer dizer. Eu declarei que a pistola havia desaparecido na noite em que Colleen foi morta.
– Eu sei, Jack. Mas o fato é que é a sua pistola, uma Kimber customizada registrada em seu nome. Tem as suas digitais.
– Só as minhas?
– Só.
Sentei-me. Cody trouxe meu Red Bull e o colocou sobre um porta-copo meticulosamente posicionado. Demorou um pouco mais do que o normal para se retirar. Encarei-o até ele sair e fechar a porta atrás de si.
– Jack?
– Estou aqui ainda, Mickey. Pode repetir? Onde exatamente a pistola foi encontrada?
– Enterrada em um canteiro, bem ao lado do portão. Uma Kimber calibre 45, o mesmo das balas que mataram Colleen Molloy.
– O assassino usou luvas – falei. – É por isso que a pistola só tem as minhas digitais. E ele a deixou em um lugar onde a polícia encontraria.
– Eu sei. O departamento de balística está fazendo uma comparação.
O chefe da polícia revelava as informações sem se comprometer. Lembrei-me de meu amigo seis meses atrás: um homem alto de mais de 1,90 metro, sorriso largo, em pé ao lado de mim e de Justine, os flashes disparando enquanto nos agradecia por termos capturado um assassino.
Ele com certeza confiava em mim na ocasião.
A voz de Fescoe se abrandou:
– As balas retiradas da vítima correspondem à sua pistola, Jack?
– Talvez. Provavelmente. Mesmo assim, não a matei. Se quisesse me livrar da minha própria pistola, eu seria mesmo tão burro assim? – indaguei ao meu amigo. – Mick. Estou lhe perguntando: eu iria mesmo enterrar a arma do crime em frente à porta da frente da minha casa?
– Ligue para o seu advogado, o Dr. Caine. Faça o que ele mandar.
– Obrigada por ter me ligado, Mick.
– De nada. Não saia da cidade.
– Estou hospedado em um hotel bacana. Tenho tudo de que preciso lá.
– Você está bem?
– O quê? É claro. Estou muito bem para um cara que está sendo encurralado para levar a culpa por um crime que não cometeu. Estou cem por cento.
– Quando isso tudo terminar convidarei você para jantar – disse Fescoe.
Falei para ele que o jantar sairia caro.
Cody tornou a entrar quando eu estava desligando. Disse “Desculpe”, parou atrás de mim, ligou meu computador e abriu minha agenda do dia.
Fiquei olhando para a tela sem ver nada.
Então a voz de Cody me tirou do devaneio:
– Jack, já está todo mundo a postos lá na sala de reuniões. Vamos começar em quinze minutos.