Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 20
ENGOLI UMA ASPIRINA, DEPOIS PASSEI alguns minutos sentado à minha mesa para tentar processar um pouco a avalanche de e-mails e telefonemas que havia se acumulado. Quando ergui os olhos, Sci estava sentado à minha frente. Não o ouvira entrar. Parecia ter se materializado do nada. Se alguém fosse capaz de fazer isso, era o Dr. Sci.
– Que diabo é isso?
– Estava pensando – respondeu ele.
Sci estava usando uma camisa vermelha meio para fora da calça, e seus sapatos de boliche se apoiavam na borda da minha mesa. Ele tinha o rosto de um querubim e o cérebro de um Einstein – isso se Einstein tivesse vivido na era digital. Como não tinha, dava para dizer que o Dr. Sci era ainda mais inteligente.
– Pensando em quê?
– Tenho novidades, Jack. E não consigo achar nada de bom nelas.
– Desembuche.
– Conversei com uma pessoa.
Além de possuir diplomas avançados, Sci havia trabalhado por dois anos no laboratório de criminalística do Departamento de Polícia de Los Angeles, onde fizera um rodízio nas áreas de balística, fibras e DNA. Tinha contatos quentes no milionário laboratório da polícia da cidade e seus amigos peritos eram próximos dos policiais. Um desses amigos esperava que Sci o levasse para trabalhar na Private.
Nós havíamos concordado muito tempo antes que Sci me daria as informações em off e eu, por minha vez, não faria nenhuma pergunta estranha.
– Houve uma testemunha – disse Sci.
– Alguém viu Colleen?
– Alguém viu você, Jack. Na praia. Uma vizinha chamada Bobbie Newton. Você conhece?
– Por alto. Ela mora na praia, umas duas casas depois da minha.
– Ela disse que ontem à noite foi correr e viu você na praia falando ao telefone. Acenou, e você acenou de volta.
– Quando isso?
– Umas seis e pouco, por aí. Ela não tem certeza. Não estava de relógio.
– Ela me viu?
– É o que está dizendo.
– Pelo amor de Deus, Sci. Eu não fui à praia.
Não queria ter aqueles pensamentos que rodopiavam pela minha cabeça, mas as peças estavam começando a se encaixar. Um quebra-cabeça. Quem poderia ser eu e ao mesmo tempo não ser eu?
Meu companheiro de útero. Meu inimigo.
– Tommy – falei. – Quem mais?
– As digitais no quarto eram todas suas.
– Nós somos gêmeos idênticos – falei.
– Sim, mas as digitais não. O formato das digitais é definido pela movimentação do bebê no líquido amniótico. As de Tommy são ligeiramente diferentes das suas. Jack, você acha mesmo que Tommy matou Colleen?
– Ele a conhece. E me conhece. Pode ter se aproximado dela e a forçado a entregar a chave, ou então pressionado o dedo dela na fechadura biométrica. Ele tem um motivo. Porra, meu irmão me odeia com todas as forças.