Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 100
EMILIO CRUZ NÃO ESTAVA GOSTANDO daquilo.
Era o que se costumava chamar de “mau negócio”. Como se um peso médio brigasse na rua com um peso pesado. O lutador mais leve só podia torcer para não ser morto.
Cruz entendia que Jack precisasse resolver aquele caso para Noccia. O mafioso era um sujeito letal. Vingativo. Matava pessoas. Cometia assassinatos e conseguia se safar.
Mas Cruz não estava fazendo aquilo só por causa de Jack: era também por causa do colega.
Rick tinha mais de 40 anos. Estava meio duro. Lento. E teria de escalar muros. No escuro.
Scotty compensava um pouco as deficiências de Del Rio. Ele era capaz de dar cambalhotas e correr feito um guepardo. Mas Scotty era um ex-policial. Nunca havia desafiado a lei daquele jeito, e fazer um serviço para um mafioso ia contra tudo que fizera dele um bom agente da polícia.
Agora, enquanto Rick procurava uma vaga para estacionar, Scotty estava sentado ao lado de Cruz, sacudindo os joelhos, que balançavam o banco da frente.
– Rick, seria melhor entrarmos pelo muro dos fundos – disse Cruz. – O teto não me agrada. Nem um pouco.
Paciente, Del Rio respondeu:
– Nós sabemos apenas o que Scotty viu. Se entrarmos pelo muro, não sabemos o que vamos encontrar. Talvez tenha entulho amontoado contra a parede. Ou podemos esbarrar em canos.
Del Rio então começou a xingar porque a Boyd Street, onde eles haviam estacionado antes, estava interditada. Não havia uma só vaga no quarteirão.
– Ricky, estou dizendo: essa história não me agrada – insistiu Cruz.
– Ali – disse Del Rio.
E estacionou em frente a uma garagem com uma placa de “Proibido estacionar em qualquer horário”. Talvez aquela placa não fosse chamar a atenção de algum policial que passasse por ali àquela hora da noite. Talvez.
Antes mesmo de o carro parar, Scotty desceu pela porta traseira. Atravessou a rua todo vestido de preto, com o gorro de esqui na mão. Depois de atravessar a Artemus, escondeu-se sob a sombra da escada externa da fábrica de cerâmica e, como havia feito antes, sacudiu uma janela até fazer o alarme disparar.
Dava para ouvir a sirene até uns quatro quarteirões de distância, e Cruz sabia que os técnicos no centro de controle da Bosco Security Systems também seriam alertados por telefone.
Era provável que as mesmas pessoas que estavam operando os telefones 24 horas antes estivessem de plantão agora. Haviam recebido três alarmes falsos daquele mesmo endereço e a equipe da Private acreditava que a Bosco iria dizer ao proprietário e à polícia que o alarme indicava uma falha de sistema, não um arrombamento.
Os investigadores aguardaram uma reação da polícia, que não ocorreu.
Quinze minutos mais tarde, sob a luz débil da lua nova, Cruz, Scotty e Del Rio atravessaram a Anderson e se esgueiraram no espaço estreito que separava a Red Cat de uma revenda de peças automotivas.
Escalaram usando os muros paralelos dos prédios como apoio.
Dois carros passaram sibilando pelo asfalto molhado enquanto os funcionários da Private subiam lentamente até o telhado da Red Cat.