Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 113
OS MORADORES SAÍRAM À RUA de pijama e roupa de baixo, as crianças agarradas aos pais, e viaturas de polícia lotaram a rua sem saída. Eu sabia muito bem que estava correndo para um carro acidentado, mas minha mente se enchia de lembranças que me faziam voltar à pior noite da minha vida.
Eu estava no Afeganistão, transportando soldados de volta à base, quando uma granada lançada por um foguete arrombou a fuselagem do CH-46, arrancando o conjunto de hélice traseiro e fazendo o helicóptero cair.
Havia sido uma descida ao inferno. O CH-46 despencou pelo vórtice negro da noite. Acionei o comando cíclico, rezando para conseguir fazer o helicóptero aterrissar – por milagre, consegui.
Enquanto Del Rio e eu escapávamos da aeronave e pisávamos na areia, o combustível se incendiou. Munição começou a explodir. Uma coluna de fogo se ergueu e, através dos meus óculos de visão noturna, transformou-se em um muro verde de chamas.
Conseguimos sair ilesos do helicóptero, mas catorze fuzileiros navais ficaram presos no compartimento de carga, que recebera um impacto direto.
Foi literalmente um inferno sobre a Terra.
Homens que eu conhecia, com os quais havia combatido e que eu amava estavam mortos, mas eu precisava ter certeza de que nenhum sobrevivente iria morrer queimado. Corri rumo ao compartimento de carga e, assim como estava fazendo agora, Del Rio gritou para que eu parasse, dizendo que o helicóptero ia explodir.
– Jack!
Na rua sem saída, virei-me para Del Rio e gritei:
– Preciso saber se ela está viva!
O Impala havia atingido o muro de frente e a parte dianteira parecia uma sanfona.
A porta do motorista estava aberta e o air bag já havia inflado e murchado. Carmelita estava pendurada no cinto de segurança. Sangrava pela boca, mas estava respirando.
Inclinei-me pela porta aberta e perguntei:
– Carmelita, está me ouvindo?
Ela piscou os olhos para mim.
– Quem é?
– Meu nome é Jack Morgan, sou detetive. Foi você? Foi você quem matou Maurice Bingham? Foi você quem matou Albert Singh?
A risada saiu como um chiado. Talvez seu último suspiro fosse uma resposta. Mas não era resposta suficiente para mim.
– Carmelita, você está morrendo. Não vai querer levar esse segredo para o outro lado.
Senti a mão de alguém no ombro.
– Candy – falou Cruz – Dime la verdad. Pides perdón.
Ela sorveu uma golfada de ar e disse:
– Deus sabe que eu os matei. No necesito un maldito perdón, filho da puta. Eles… tiveram… o que mereceram.
Com grande esforço, ela ergueu a mão e, sem tirar os olhos dos meus, mostrou-me o dedo médio esticado. Seu rosto então congelou, seu olhar perdeu o brilho e ela morreu.