Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 9
TANDY TINHA 40 ANOS, ERA bronzeado e rato de academia. O coldre que trazia no ombro marcava o casaco azul brilhante e muito justo do uniforme.
– Este é o investigador Ziegler – apresentou.
– Já nos conhecemos – respondi.
Ziegler tinha porte de nadador: ombros largos, tronco comprido. Usava uma pulseira de cobre no pulso direito. E uma arma na cintura. Foi então que me lembrei dele: tivéramos um desentendimento certa vez, quando ele importunou um de meus clientes. Eu ganhara. Seus cabelos haviam ficado grisalhos desde a última vez que nos víramos.
– Onde está a vítima? – perguntou Tandy.
Respondi, e ele me disse para ficar onde estava.
Ziegler sorriu e falou:
– Aguente firme, Jack.
Fiquei olhando pelas janelas em direção à praia. Tudo o que conseguia ver era a espuma das ondas escuras. Minha cabeça latejava e eu sentia ânsia de vômito, mas me contive enquanto Tandy e Ziegler iam até o quarto.
Ouvi a voz de Tandy ao telefone, mas não entendi o que ele falava. Então ele e Ziegler voltaram.
– Chamei o médico-legista e os peritos – disse Tandy. – Enquanto esperamos, por que não nos conta o que aconteceu?
Sentamos e eu disse a Tandy que não sabia quem poderia ter matado Colleen nem por quê.
– Faz mais de 24 horas que não durmo – falei. – Estava um verdadeiro zumbi. Comecei a tirar a roupa assim que pisei em casa. Entrei no banheiro pelo corredor.
Contei-lhe como tinha entrado no quarto depois do banho com a intenção de cair na cama. E como havia encontrado Colleen.
– Muito conveniente essa chuveirada – comentou Tandy. – Imagino também que tenha posto a roupa suja na máquina.
– Meu casaco está em cima daquela cadeira. Minha camisa está no chão do corredor. A calça eu joguei por cima da porta. E minha cueca está em frente ao boxe.
Dei a Ziegler os nomes dos parentes mais próximos de Colleen em Dublin e disse aos policiais que o registro de entradas indicava que a senha de Colleen fora usada meia hora antes de eu chegar.
– Colleen tinha a chave que dá acesso ao portão, mas ela não está aqui – falei. – Alguém deve tê-la coagido, usado a chave e encostado o dedo dela na leitora da porta da frente.
– Ã-rã – grunhiu Ziegler e em seguida me pediu que falasse sobre meu relacionamento com Colleen.
– Nós namoramos – comecei. – E Colleen trabalhava para mim. Eu gostava muito dela. Quando terminamos, ela viajou para a Irlanda para ver a família. Voltou algumas semanas atrás para visitar amigos em Los Angeles. Não sei que amigos. Almocei com ela na quarta-feira passada.
Tandy não leu os meus direitos e eu não pedi um advogado. Fiquei esperando ele ter alguma luz, encontrar alguma coisa que eu houvesse deixado passar, mas quando ele me perguntou se Colleen e eu havíamos brigado pedi licença e fui ao banheiro vomitar.
Lavei o rosto e retomei o depoimento.
– Jack, você brigou com a garota? – insistiu Tandy.
– Não.
– Não deveria ter tomado essa porcaria de ducha. Ou foi um insulto, ou um erro. Nós vamos levar suas roupas e vamos examinar seus ralos. Vamos checar as imagens de segurança do aeroporto e passar o pente-fino nas suas ligações. E isso apenas hoje. Amanhã vamos investigar os últimos passos da vítima. E algo me diz que o cadáver dela vai nos fornecer informações interessantes.
– Tandy, faça o melhor que puder. Mas até você e Ziegler devem saber que eu não iria matar minha ex na minha própria casa e depois chamar a polícia. Isso foi armação.
– Eu só quero uma coisa: encontrar quem matou essa moça.
– E eu quero a mesma coisa.
Entreguei a Tandy meu cartão de embarque e as informações de contato de Aldo. Disse que não sairia da cidade e que não daria uma mijada sequer sem consultá-lo primeiro.
O médico-legista chegou e logo em seguida veio a equipe de peritos em cena de crime. Eles recolheram minhas impressões digitais, algumas células da mucosa interna da minha bochecha e minhas roupas sujas.
– Eu estou preso? – perguntei a Tandy.
– Ainda não – respondeu o inspetor. – Você tem um amigo muito bem-relacionado, Jack. Mas não vai poder ficar nesta casa.
Liguei para Rick Del Rio.
Vinte minutos depois, estava entrando em seu carro.
– Que diabo aconteceu? – perguntou ele.
Tornei a contar a mesma história.