Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 97
AO ENTRAR NO SALÃO DE Cristal, Justine tentou captar tudo o que acontecia.
Era um salão suntuoso, digno como uma velha senhora: redondo, claro, decorado em estilo art déco, com um aspecto bem parecido com o que tinha quando o hotel fora construído em 1931.
Justine fez uma verificação visual das saídas, das paredes com janelas emolduradas por cortinas de seda, das altas portas envidraçadas que se abriam para o Jardim de Cristal. Verificou também as mesas sob o magnífico lustre.
Havia celebridades por toda parte: estrelas de cinema jovens e velhas, estilistas, apresentadores de talk show. Os pais de Piper estavam perto do palco, e o pessoal de Danny ocupava uma mesa no centro do salão. Larry Schuster e Alan Barstow estavam ali, assim como todo o entourage de Danny e as respectivas esposas e acompanhantes.
Se ela e Nora não estragassem tudo, Danny Whitman talvez saísse da cadeia naquela mesma noite.
Do outro lado do salão ficava um palco grande e a parede atrás dele servia agora de tela para uma projeção de slides sobre Piper Winnick. Cenas de filmes estrelados por ela e comoventes fotografias caseiras de sua infância se sucediam. Havia rosas brancas em vasos de um metro de altura ladeando o palco e velas por toda parte.
Mervin Koulos estava em pé atrás do pódio no centro do palco.
Exibia uma aparência impressionante: o típico produtor de Hollywood, 1,80 metro de altura, roupas e cabelos impecáveis, responsável por um filme arruinado, que havia terminado de maneira pouco tradicional e nada típica de Hollywood.
Uma de suas estrelas havia morrido. A outra estava na cadeia. E ele calculara que essa tragédia seria a sua salvação.
Justine caminhou perto da parede da esquerda em direção aos degraus que conduziam ao palco. Nora Cronin se aproximou pelo outro lado do salão.
Enquanto isso, Merv Koulos contava uma história sobre Piper e estava com dificuldade para articular as palavras.
– Nunca vou me esquecer quando Piper foi escalada para o papel de Gia em Tons de verde – falou. – Ela me disse: “Merv, trabalhar com Danny Whitman é o sonho da minha vida.” – Ele engasgou, sua voz falhava: – Sonho da vida. Que coisa. Piper tinha só 16 anos.
Justine e Nora haviam alcançado o palco, mas Koulos só percebeu Justine, que avançara até bem perto do pódio e tocava seu braço.
Ele se sobressaltou. Pareceu confuso.
Cobriu o microfone com a mão e disse:
– Dra. Smith, o que está acontecendo?
– Merv, quero que você diga o seguinte no microfone – respondeu Justine. – “Sinto muito, mas tenho que me retirar. É uma emergência.”
Koulos manteve a mão sobre o microfone e sussurrou:
– Não sei que droga você acha que está fazendo, mas tudo pode esperar. Caso não tenha percebido, estou fazendo uma homenagem póstuma.
– Merv, olhe para a sua esquerda. Está vendo aquela mulher de blazer azul sacudindo o dedo para você? É a inspetora Cronin. Homicídios. Ela precisa falar com você com urgência.
Koulos franziu o rosto com raiva. Um rumor de conversas subiu das mesas. Ele tornou a falar no microfone.
– Senhoras e senhores, Sr. e Sra. Winnick, eu sinto muitíssimo por essa interrupção. Deve ser algum tipo de brincadeira, e de muito mau gosto. Alguém por favor poderia chamar a segurança?
Nora atravessou o palco. Aproximou-se de Koulos com o distintivo em uma das mãos, seguida por três agentes uniformizados.
– Sr. Koulos, por favor, ponha as mãos para trás – disse.
– A senhora ficou louca? – Koulos olhou para a plateia. – Preciso de ajuda. Alan? Pode me dar uma mãozinha?
Todas as conversas cessaram e Koulos entrou em pânico.
Afastou-se do pódio, derrubando o microfone no chão. Correu para a saída do palco, mas os policiais foram mais rápidos e o derrubaram, puxando seus braços para trás de modo que Nora pudesse fechar as algemas.
O microfone caído amplificou os gritos desesperados de socorro de Koulos e a resposta de Nora Cronin.
– Mervin Koulos, o senhor está preso pelo assassinato de Piper Winnick.
Então a plateia também entrou em pânico. Mulheres gritaram. Cadeiras foram derrubadas.
Enquanto Nora recitava os direitos previstos pela lei Miranda, Koulos berrava:
– Você não vai nem acreditar no inferno que a sua vida vai virar! Quando eu tiver terminado, vai aplicar multas de estacionamento! Se tiver sorte!
Justine viu os policiais colocarem Koulos em pé. Então virou as costas e desceu os degraus do palco. Seu trabalho estava feito.
Caminhando em direção à saída, pensou em ganância: em como Koulos tinha levado uma vida luxuosa demais, pedido muito dinheiro emprestado, investido cada centavo naquele filme estrelado por Danny Whitman, um rapaz atormentado demais para garantir seu sucesso.
Mas Koulos tinha uma apólice de seguros vinculada ao filme no valor de 100 milhões de dólares.
Dinheiro que agora não iria mais receber.
Jack estava esperando Justine junto à porta. Levou a mão à sua cintura e a conduziu para fora.
– Muito bem – falou. – Muito bem, meus parabéns.