Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 107
UM RECADO DE JUSTINE ME aguardava quando cheguei em casa:
“Jack, eu quero ficar na Private. Tenho certeza. Se fui grosseira na outra noite, me perdoe. Ainda estou meio… magoada. Nos vemos amanhã.”
Ouvi o recado mais algumas vezes, destrinchando-o em busca de significados ocultos. Tudo que consegui depreender com certeza foi que Justine continuaria na Private.
Ainda haveria uma chance de nos reconciliarmos?
Ou não tinha mais volta?
Ouvi-a dizer não existe nós dois, Jack. Eu nem sei se um dia existiu.
Eu havia tomado uma ducha e vestido calça jeans e uma camisa polo quando o interfone tocou. Fui até meu novo sistema de segurança e espiei o monitor do portão.
Jinx estava lá fora, segurando uma bandeja coberta com uma redoma prateada.
Tinha chegado bem na hora.
Abri o portão pelo interfone e, quando ela cruzou a porta, peguei a bandeja e coloquei sobre a mesa do hall.
Jinx tinha o rosto iluminado, lindo, e usava óculos graciosos, com lentes em um rosa juvenil. Vestia calça jeans e camisa polo azul.
Do mesmo azul dos seus olhos.
Do mesmo azul da camisa que eu estava usando.
– Olhe só para você – falou.
– Se não se importar, prefiro olhar para você – respondi.
– Tudo bem – retrucou ela.
Ambos rimos, e eu a envolvi num abraço demorado.
Enquanto estávamos abraçados, ela listou o que havia trazido para o jantar: salada de tomates orgânicos e bolinhos de caranguejo com molho de manga. Estava animada, falando muito depressa.
Eu havia jantado no banquete de despedida de Cody, mas Jinx não sabia disso e não era da minha boca que iria escutar.
– Eu mesma preparei o molho – disse ela, ainda me abraçando. – Especialidade da casa.
– Coloquei uma garrafa de Pinot Grigio para gelar.
– Esperava que fizesse isso. – Ela ergueu o rosto, sorrindo para mim. Tinha um sorriso muito bonito.
Fui pegar o vinho e levamos a comida para o deque do lado de fora, nos acomodamos em duas cadeiras, respiramos fundo algumas vezes e por fim relaxamos.
Brindamos ao sol poente que brincava de se esconder atrás de uma parede de nuvens gordas e cinzentas. Tudo era especial: a vista, o molho, o vinho e Jinx, que estava se revelando uma ótima companhia.
Ela tirou as sandálias, abraçou os próprios joelhos e me pediu que falasse um pouco mais sobre mim, algo que não fizesse parte do meu currículo profissional.
Eu poderia ter feito um roteiro bastante preciso da minha vida a partir do mapa de cicatrizes que carregava no corpo, mas não. Agora não. Estava pensando em contar uma história dos jogos de futebol americano, algo engraçado, quando ouvimos um toque musical vindo da sala. O celular de Jinx.
– Não vou atender – disse ela.
– Ótimo.
O telefone tornou a tocar, e o clima foi quebrado de vez. Fechei as portas de correr, mas mesmo assim ouvimos quando o aparelho tocou pela terceira vez.
– Talvez seja… – falou Jinx. – É melhor eu atender e pronto. Já volto.
Fiquei olhando a espuma do mar enquanto Jinx abria as portas. Gostava dela e estava curtindo aquele momento, fosse um encontro amoroso ou apenas um jeito de nos conhecermos melhor.
Pensei em lhe dizer que eu poderia fazer aquele celular desaparecer, que poderia demonstrar meu famoso passe e despachá-lo para o meio do oceano.
Imaginei que ela fosse rir.
Mas então a ouvi dizer no cômodo ao lado:
– Por favor, me diga logo. – E em seguida: – Ah, não. Não. Eu chego já. Não toquem em nada.
Jinx voltou ao deque com uma expressão de pânico no rosto.
– Jack, mais uma pessoa foi assassinada no meu hotel. Mais um homem morreu.